Luís Rainha: Zézinho e fundamentalismos

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Por razões de prudência táctica, e para não cair em armadilhas do passado, os partidários do “Sim” escolheram nesta campanha não ir em conversetas metafísicas.
Assim, quando das trincheiras do “Não” jorram os esperados gritos de “é uma vida humana”, e lá começam a chover os “zézinhos”, as imagens de ecografias, os folhetos com fetos retalhados, o “Sim” retorque com questões sociais, com a dignidade da mulher e outros temas que não respondem à interpelação central. Afinal, um feto com 10 semanas é mesmo uma Vida Humana ou não?
Responder a esta pergunta não é um passatempo religioso. Aliás, até a Bíblia se contradiz neste tema — incluindo mesmo uma passagem Hebreus 7:10 onde se declara que Levi já era gente quando ainda brincava nos testículos do pai — seja no Antigo Testamento ou nas palavras de Cristo. E mesmo a Igreja Católica hesitou entre a prudente posição de Aristóteles e de S. Agostinho — só quando a mãe começa a sentir os movimentos do feto é que este se encontra verdadeiramente “animado”— e o radicalismo de inventar por si, sem inspiração superior, a ideia de que a alma desce sobre nós no segundo inicial da concepção. Nos dias do bispo Teodoro de Tarso, o sexo oral era crime merecedor de penitência bem mais dura que o aborto. Só no fim do século XIX deixou de existir a distinção entre “fetus animatus” e “fetus inanimatus“, passando a Igreja a condenar todos os abortos, não apenas aqueles realizados após o primeiro trimestre de gravidez!
Agora, estes séculos de hesitação teológica esfumaram-se das cabeças dos adoradores de simplicidades. “É uma vida humana” e pronto. Só não se entende porque é que estes fundamentalistas não exigem penas correspondentes à prática de homicídios para todas as mulheres que abortem. Como podem falar de despenalização para assassinas?
Adiante. Outra coisa estranha é o facto de quase todos aceitarem a inexistência prolongada de actividade cerebral como marca comprovada do fim da vida humana mas parecerem incapazes de usar padrão simétrico para marcar o seu início. Aqui, a Ciência, desapaixonada e isenta, dá-nos respostas concretas. Se um embrião ainda não possui sistema nervoso central activo, estando o seu córtex desligado do tálamo, não é um ser humano, não possui ainda a estrutura biológica onde se aloja a nossa consciência, a nossa alma. Poderá sê-lo “em potência” ou “aos olhos de Deus”; mas é tão senciente quanto um feto anencefálico. E que médico levaria até ao fim uma gravidez dessas?
A bem da verdade, se eu acreditasse que um feto com 10 semanas é já uma pessoa, nunca conseguiria votar “Sim”. Mas todos os factos apontam na direcção oposta. Por muitos “zézinhos” que me esfreguem na cara entre rezas e ameaças de excomunhão.

Luís Rainha

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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11 respostas a Luís Rainha: Zézinho e fundamentalismos

  1. Acreditará quando pedir a primeira ecografia (fotografia) do seu. À 7ª semana já o consegue ver e colocar na sua sala para, acredito, para seu orgulho. Ou não. Após 11 de Fevereiro posso não ter razão. Os factos apontam nesta direcção. Sem rezas.

  2. Teresa diz:

    Ó Paulo, tu és um bocado marado! Pões ecografias nas paredes da sala?! E convidas os amigos para ver a salganhada do parto, aposto! És mesmo marado: todos “os factos” (?) apontam nessa direcção.

  3. LR diz:

    Já tive 3 ocasiões diversas de ver ecografias de filhos meus. E então?

  4. Ó Teresa, eu nunca refuto doutas opiniões como a tua, mas creio que tu tens a mesma existência que o teu website: “http://…”
    Mas sim, sou “marado”, tanto como o RAP é um “pateta” e tu uma delicada senhora fértil. “OS factos” apontam nesse sentido.

  5. Não me pergunte nada, LR. Olhe para as ecografias e diga-me o que vê e com quantas semanas.

  6. D Costa diz:

    É de saudar a disponibilidade para discutir a existência de vida humana. E que tal se faça com base em dados científicos. Acontece que linkado a este post, que pretende refutar a existência de vida às 10 semanas de gestação, está um texto que não faz mais do que evidenciar que existe vida – ainda que nem todos os orgãos estejam totalmente formados e maduros.

    Como é evidente para qualquer leigo, a existência de vida não se define pelo estado “completo” da formação do corpo humano (nesse haveria vida apenas num adolescente ou num adulto). Quando se ouve tantos argumentos que dizem (por vezes com razão) que o orgão X, Y ou Z não estão formados, percebe-se que a discussão foi desviada do essencial. Algumas correntes deste tipo de pensamentos, sobretudo as protagonizadas por autores que procuraram um critério para definir o momento do início da vida humana – como Peter Singer, nos EUA – levaram a resultados esclarecedores. Autores que validaram critérios como a consciência de si, a formação total dos orgãos, rapidamente se aperceberam que por este critério um recem nascido poderia, também ser “abortado”. Assim se chegou a um triste resultado: hoje em dia, é legal em diversos estados dos EUA negar alimentação a um recem nascido com deficiências. Diversos cientistas, perante estas conclusões, reconheceram que a concepção é o momento relevante para o começo de uma vida humana.

    Quem, como LR diz que não conseguiria votar SIM se “acreditasse que o feto é já uma pessoa” parece revelar seriedade e disponibilidade para aceitar a realidade. Mas um equívoco. A “pessoalidade” do feto não é uma questão de “fé”. Mas de ciência.

    Fundamentando – para não me alongar mais e dar a palavra a quem sabe -, deixo aqui algumas citações de livros e estudos de biologia de referência internacional (não de padres, note bem!):

    1.“The development of a human begins with fertilization, a process by which the spermatozoon from the male and the oocyte from the female unite to give raise to a new organism, the zigote.” [Sadler, T.W. Langman’s Medical Embriology. 7ª Edição. Baltimore: Williams and Wilkins 1995]

    2.“Zigote. This cell, formed by the union of an ovum and a sperm (Gr. zyg tos, yoked together), represents the beginning of a human being. The common expression “fertilized ovum” refers to the zigote” [Moore, Keith L. and Persaud, T.V.N. Before We Are Born: Essentials of Embriology and Birth Defects. 4ª Edição. Filadélfia: W.B. Saunders Company, 1993]

    3.“Although life is a continuous process, fertilization is a critical landmark because, under ordinary circumstances, a new, genetically distinct human organism is thereby formed.(…) The combination of 23 chromossomes present in each pronucleus results in 46 chromossomes in the zigote. Thus the diploid number is restored and the embryonic genome is formed. The embryo now exists as a genetic unity.” [O’Rahilly, Ronan and Muller, Fabiola. Human Embriology and Teratology. 2ª Edição. Nova Iorque: Wiley-Liss, 1996]”Esta citação provém de um Relatório de um Comissâo da Assembleia da República, que se pronunciou acerca dos projectos apresentados sobre a distribuição gratuita e sem receita médica da chamada “contracepção de emergência”;

    d) “existe um novo ser humano desde a concepção (fertilização)”RUI NUNES, O Diagnóstico pré-implantatório, in Bioética (coord. de Luís Archer, Jorge Biscaia e Walter Osswald), Editorial Verbo, Lisboa-São Paulo, 1996, p. 183).

    Recentemente, o Prof. Dr. Daniel Serrão, especialista nesta matéria, também referia: “Não há nenhuma dúvida científica nem nenhuma ambiguidade: o embrião unicelular que resulta da conjugação dos gâmetas masculino e feminino está vivo, como estavam vivos os gâmetas que o constituíram;” (…) “este novo ser vivo é um ser vivo humano. Como eram humanos os gâmetas que o constituíram.” (…) “Em biologia não tem interesse valorizar os diferentes aspectos do corpo o longo do tempo, do género “às 10 semanas já há um coração a bater ou já há dedos nas mãos” porque o feto não é mais ou menos humano em função das características corporais que se vão constituindo com o desenvolvimento. O desenvolvimento é um processo que se desenrola no tempo e é comandado pela informação genómica intrínseca e específica de cada espécie.” (…) “Do meu ponto de vista e com base apenas nos factos científicos, o embrião humano tem desde o seu aparecimento na biologia, direito absoluto à vida e ao desenvolvimento, como o tem qualquer embrião de qualquer outra espécie. Porque tudo o que é vivo apela a viver e é este apelo que tem de ser acolhido para que a vida continue.”

  7. “o embrião unicelular que resulta da conjugação dos gâmetas masculino e feminino está vivo, como estavam vivos os gâmetas que o constituíram;” (…) “este novo ser vivo é um ser vivo humano. Como eram humanos os gâmetas que o constituíram.”

    Portanto, deve ser ilegal “abortar” gâmetas?

  8. D Costa diz:

    Miguel,

    Não comentou ou contestou nenhuma dos ideias principais do que escrevi. Fico na duvida (sinceramente…) sobre que ilação tirar da sua pergunta, dado que esta é desprovida de sentido e de contexto…

    Porventura considera que os cientistas citados falam do que não sabem?

    O “non sense” da sua questão radica em dois factos: primeiro, estamos a debater um referendo sobre aborto até às 10 semanas (no dia em que houver um referendo sobre gâmetas então aí a questão fará algum sentido…) e, mais importante ainda, o próprio Daniel Serrão, nesta citação refere que o direito à vida deve ser assegurado ao “embrião humano”, pelo que ele próprio dá a resposta.

    Não vale a pena procurar o ridículo onde ele não existe – sobretudo quando assim se perde oportunidade para discutir o que realmente interessa.

  9. Certo, D Costa, mas, tal como na arte, também as correntes influenciam as investigações e consequentes conclusões científicas.

    Na minha óptica, pouco distingue um zigoto humano com poucas horas, e, como tal, nada diferenciado, de outro qualquer aglomerado celular… Sim, é vida, tal como é uma amiba ou um feijão, mas não vida humana! Será o sistema nervoso central que nos distinguirá como animais, e esse só está completamente formado no fim do primeiro trimestre…

    De qualquer forma, julgo que todas as discussões metafísicas e filosóficas por esta altura se têm esquecido de um facto que já damos como adquirido, ou assimilado… A contracepção de emergência! A chamada “pílula do dia seguinte”, que impede a fixação do óvulo fertilizado, o zigoto, como referia, “o embrião unicelular que resulta da conjugação dos gâmetas masculino e feminino está vivo, como estavam vivos os gâmetas que o constituíram;” (…) “este novo ser vivo é um ser vivo humano. Como eram humanos os gâmetas que o constituíram.”. Tanto não penso que a utilização da contracepção de emergência deveria ser ilegal, como não julgo que a masturbação seja crime, já que, como nos diz a referência bibliográfica que aponta, como acho que a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas deveria ser despenalizada!
    Sendo a minha opinião, não me esqueço que esta questão pode ser vista de diferentes formas e consciências… como tal respeito!
    Não posso é deixar de dizer que, consciências e doutrinas à parte, a legislação actual não faz sentido e o SIM é a resposta óbvia e lógica…

  10. “…a Ciência, desapaixonada e isenta”

    O imaginário contemporâneo é muito dado a ficções, sobretudo às ditas ficções científicas. Por isso vai largando estas pérolas.
    A ciência só pode nascer e permanecer na paixão. E se fosse isenta, não seria ciência, mas sim conversa de tasca entre muitas pipas de tinto.

  11. O debate sobre o aborto implica um debate mais amplo sobre temas como ciência, abertura de espírito, progresso, conservadorismo, paixão, moralidade, legalidade, sexualidade, política, carreirismo e consumismo.
    É cómico ver a este respeito as posições que vão transparecendo neste e noutros blogues. Que tal ler mais? Que tal estudar mais? Que tal tentar reduzir o número anual per capita de disparates? A sinfonia tornar-se-ia talvez menos consonante, menos “sim” vs. “não”.

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