Filipe Moura: Jay Leno e as “lojas de chineses”

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Noutro dia preparava-me para assistir à entrevista ao Barack Obama no programa do Jay Leno, desde este mês em exibição no canal SIC Mulher.
Depois do monólogo de stand-up comedy inicial, há aquela altura em que o Jay goza com erros ortográficos e gramaticais. Desta vez deu-lhe para olhar para os artigos que se compram nas lojas que, nos EUA, se chamam “de 99 cêntimos”. Está certo que o equivalente deste tipo de comércio em Portugal é frequentemente explorado por chineses. Mas não é esta etnia que detém o exclusivo deste sector do comércio. E nos EUA ainda menos – os chineses detêm um comércio muito mais diversificado, e existem muitas “99 cent stores” que não são exploradas por chineses.
Ainda mais falando o Jay Leno num contexto americano, não é de todo correcto traduzir “99 cent store” por “loja de chineses”, principalmente existindo em português uma designação que, apesar da conversão ao euro, continua a ser usada desde o tempo do escudo, quando estas lojas cá apareceram: a “loja dos trezentos”. Parece-me uma designação muito mais correcta do que “loja dos chineses”. Mas a tradução que apareceu no programa foi mesmo “lojas dos chineses”. E não foi só uma vez. O Jay gozou com muitos produtos de 99 cêntimos – baixa qualidade, erros ortográficos e tal -, e cada um deles era identificado na legendagem como “mais um daqueles produtos das lojas dos chineses”. Assistimos na legendagem a um festival de achincalhamento gratuito das “lojas de chineses”, que não tinha nada a ver com o que era falado.

Um pormenor elucidativo ainda estava para vir. Houve uma altura em que o Jay Leno apontou um erro ortográfico crasso num brinquedo para miúdos de muito tenra idade. De seguida acrescentou “fortunately at this stage children can’t read”, ou seja, felizmente as crianças que supostamente utilizariam o brinquedo ainda não tinham idade para ler.
Sabem qual foi a tradução na legendagem? “Felizmente os miúdos hoje em dia são uns analfabetos”!!!

No final do programa é identificada a empresa responsável pela
legendagem: www.pluridioma.pt. Entre os tradutores empregados deve haver algum militante do PNR.

(PS – And now, for something completely different: quem terá sido a cabecinha que teve a ideia de programar o Jay Leno e o Conan O’Brien
exactamente à mesma hora, em dois canais temáticos da SIC – SIC Mulher e SIC Radical, que deveriam ser complementares e não estar em concorrência directa -, sabendo que o público alvo de ambos os programas, nos EUA e ainda mais em Portugal, é exactamente o mesmo? Vamos corrigir isso?)

Filipe Moura

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a Filipe Moura: Jay Leno e as “lojas de chineses”

  1. pedro a. diz:

    Sem querer passar por PNR, deve ser algum tradutor brasileiro…
    LOL!

  2. F Gomes diz:

    A tradução e legendagem, pelo menos em Portugal, só por si, chega para nos fartarmos de rir. Aqui vai mais um exemplo.
    Não me lembro em que filme foi, mas lembro-me que se passava numa festa de salão do século XIX. A certa altura alguém levanta uma taça de champanhe e disse: “Let’s make a toast!” ao que o nosso irrepreensível tradutor legendou: “Vamos fazer uma torrada!”

  3. MB diz:

    A série Jay Leno não é traduzida pela Pluridioma, mas sim pela Ideias e Letras… Cada um a seu dono.

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