Pacheco (2)

Eu disse que o texto do Pacheco Pereira era um monumento de arrogância contra a arrogância: permitam-me que explique. Ele coloca-se do ponto de vista da experiência das mulheres, e a meu ver muito bem: não nego que o aborto seja uma experiência primordialmente feminina. Mas já me custa mais imaginar que o dilema do aborto seja uma experiência exclusivamente feminina, e que Pacheco Pereira seja, apesar de homem, o único habilitado a compreender essa experiência. Há uma coisa que me impressiona muito: é o facto de Pacheco Pereira falar como se – por respeito mesmo à experiência concreta da vida das mulheres – não se pudesse fazer campanha em nome dessa vida. Como se essa experiência não pudesse ser invocada. Como se tivéssemos de abandonar o campo, e deixá-lo livre aos exageros e aos radicalismos.

Já vi argumentos de todo o tipo a explicar que não posso discutir o assunto: ou porque não sou mulher, ou porque sou muito classe média e, enfim, isto só pode ser discutido por mulheres pobres, que são justamente as que nunca discutem: ninguém pode falar em nome delas. Então por isso deixamos o terreno aberto aos defensores do Não, aos clowns, aos Marcelo Rebelo de Sousa, aos teatreiros do video. Ora nós, os homens, também havemos de poder dizer alguma coisa: também havemos de ter a nossa experiência subjectiva. Muitos de nós contactaram directamente com a experiência do aborto clandestino, muitos de nós recolheram o dinheiro em notas, entregaram-no contado, assinaram um papel mentiroso falando em aborto «espontâneo» e em «raspagem», viram sumir a mulher ou namorada ou simplesmente a amiga por uma porta para fazer um aborto, em condições apenas imaginadas mas sempre desconhecidas, e ela aparecer uma, duas, três horas depois, bem, mal, assim-assim mas provavelmente não muito feliz. (Peço desculpa por a descrição ser tão middle-class: é que eu vivo no Bairro Alto e o âmbito das vidas com que contacto é limitado: para quem é pobre é tudo muito pior.) E há muitos de nós que não tiveram esta experiência directa mas que já várias vezes contaram os dias no atraso da menstruação, e pensaram duas vezes, e imaginaram e tiveram que lidar com o que aconteceria. Deixem-me falar de nós os homens, que não pretendo falar pelas mulheres: não somos todos propriamente indiferentes e alguns de nós já pensaram nos resultados possíveis, no sofrimento do corpo da mulher que está ao nosso lado, porque é nossa mulher ou namorada ou amiga ou irmã ou tia ou simplesmente empregada em casa ou no café da esquina.

O Bloco de Esquerda tem as costas largas, e teria de ser inventado se ainda não existisse. Mas há uma coisa que me choca como muito «irreal» nesta campanha, e essa nada tem que ver com a participação do BE e o radicalismo. É que de cada vez que começamos a falar sobre o aborto, a discussão tende a tornar-se numa bizantinice revestida de hipocrisia. Já nem falo dos milhares e milhares e milhares de mulheres que abortaram e abortarão; é só esta parvoíce de imaginar que o sexo é «seguro», que toda a gente pratica sexo «seguro» e que toda a gente assume as consequências de qualquer relação sexual sob a forma de um filho. Nem aqui, nem na China, nem no blogue do não.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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