Mais um post para os Sim da direita

[ou: Desta vez, sem reserva mental – publicado originalmente no Sim no Referendo]

É muito espertalhão o video do Marcelo, sobretudo aquele em que ele diz que a lei actual já não é aplicada. É esperto porque estimula a desconfiança intrínseca das pessoas nas instituições, no Estado, nos governantes, nos políticos: «nós sabemos para que servem as leis, nunca as aplicam, os governos mudam mas são todos iguais – não é?» Mas o principal trunfo nem é esse: o maior trunfo é a confusão. Ao fim de um video – quanto mais três – já ninguém sabe de que está o Professor a falar – despenalização, liberalização, eu sei lá o que mais.
Como está mais que estudado em toda a parte do mundo, a melhor maneira de desmobilizar o eleitorado em referendos é obscurecer a pergunta.
Longe da simplicidade do Sim e do Não, depois de uma boa campanha eleitoral e bastante barulho, qualquer pergunta fica tudo menos clara. Todos os argumentos – mesmo os argumentos contra Marcelo – jogam a favor dele, se a pergunta parecer técnica, difícil, pouco clara, duvidosa nos seus termos.
Acho que a maioria das pessoas realmente pensa que as mulheres não devem ser julgadas por aborto, e que devem poder fazer os abortos que tiverem que ser feitos em condições de segurança nos hospitais. Mas basta que tudo pareça cheio de esquemas,
uma discussão de políticos e de juristas, cheios de truques e de maroscas e de agendas escondidas de partidos, e o cidadão corre rapidamente para os braços do cinismo e da desistência.
Já se viu muitas vezes, em toda a parte do mundo. A esperteza do Marcelo foi convidar à confusão. São precisas pessoas com semelhante visibilidade – e, já agora, da mesma área política – para mostrar que a escolha é clara.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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