Não fales com estranhos

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O último Expresso noticiava que foi conduzido um inquérito a 100 mil jovens, em 800 escolas públicas, entre os 11 e os 18 anos, sobre a vida sexual dos pais. Este inquérito foi da responsabilidade do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT), com a chancela dos ministérios da Saúde e da Educação. Os alunos foram questionados se os pais ou substitutos se agridem (por exemplo com murros e pontapés), se insultam – e com que frequência – se têm vida sexual contra a vontade da mãe, se o pai impede a mãe de falar em público, se um dos pais impede ao outro o acesso ao dinheiro. Para além do absurdo e da inutilidade deste inquérito, nem todas as escolas solicitaram autorização às associações de pais. Os alunos nem sequer foram previamente esclarecidos sobre os temas a que tinham que responder.
            Este questionário continha outros aspectos insólitos e que só podem levar a distorções grosseiras como perguntar quem leva à escola, mas só permitir uma das respostas: pai ou mãe, como se não pudessem ser os dois ou não pudessem alternar.
            A senhora técnica Fernanda Feijão justificou este inquérito, em particular uma das matérias que mais críticas suscitou – as perguntas sobre agressões – alegando que a violência doméstica é crime público. Ao mesmo tempo, e tentando safar-se da devassa, abuso e aspectos manipulatórios do interrogatório, garantiu o anonimato e sigilo. Logo, evidentemente, de nada adianta relembrar que a violência doméstica é crime público. Ninguém – supondo que, efectivamente, foi assegurado o anonimato, podia denunciar o crime a partir das respostas dadas pelas crianças. Mesmo que não houvesse anonimato, tendo em conta que são crianças a responder – e incitadas a responder – uma outra averiguação teria que ser conduzida.
            Acresce que os inquéritos eram iguais para todos. É extraordinário como é que o IDT, pejado de técnicos de saúde mental, pode construir um questionário idêntico para estados desenvolvimentais tão diferentes. É inacreditável que o IDT seja responsável por um questionário que inclui perguntas sobre a vida sexual dos pais que, naturalmente, carecem de qualquer fidedignidade. Não apenas isso pressupõe que as crianças têm acesso a essa informação (!) como esquece que as respostas das crianças, tendo ou não conhecimento “real”, serão enviesadas pelo seu próprio imaginário. Será que os técnicos do IDT não entendem que conduzir este tipo de perguntas induz mesmo – e desnecessariamente – a determinadas fantasias nas crianças, podendo até perturbar a relação da criança com os seus pais?

Faz lembrar as perguntinhas metediças, em jeito de coscuvilhice velhaca, das velhas da vida alheia, à soleira da porta, de sorriso untuoso: “Então, meu menino, a tua mamã, está boazinha? O paizinho já não bebe tanto, pois não? Olha, entra aqui para comer um bolinho, meu anjo”.
Do ponto de vista técnico este inquérito é miserável. Chumbava em qualquer trabalhinho do primeiro ano da faculdade. Eticamente é abaixo de cão. É inconsequente, como já sublinhei antes a propósito da violência doméstica.

A tal senhora Fernanda Feijão diz que este é um questionário que faz pensar”. Sem dúvida. Faz pensar nos limites da intrusão do Estado na vida dos cidadãos – através de crianças, ainda por cima. Faz pensar ao ponto que chegámos.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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5 respostas a Não fales com estranhos

  1. Baralhado. Em irmandade com Vasco Pulido Valente?

  2. Ezequiel diz:

    eh eh ehe he eh eh e heh isto é de chorar a rir…! Mas eles pensam que os putos são psychos??? Esta mecanização (robotização) forçada do pensamento é assustadora, além de ser absurda!! Que imbecilidade!!

  3. Se o Ministro das Finanças lançasse um imposto sobre palermice, esta obra da Sra. Fernanda Feijão resolvia o problema do déficite e ainda dava para pagar a OTA mais o TGV!

  4. jb diz:

    Não vejo qual o problema do inquérito.

  5. ONDINA MANSO diz:

    é mais um iquerito…so isso!

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