Bene trovato

O Nuno Ramos de Almeida, treinado na difícil escola da exegética zizekiana, descobriu, a partir de um post na aparência anódino de José Pacheco Pereira, maneira de subverter o subversor e arrancar às garras da reacção a palavra “livre”. Parabéns, Nuno; eu acrescentaria em tua defesa que os italianos, sempre sagazes, distinguem mesmo entre liberalismo e liberismo, referindo-se este à doutrina económica do laissez-faire e aquele à doutrina política e moral que fundamenta e justifica as práticas e instituições liberais. Conseguirão os tristes liberais portugueses, cujo credo se resume à defesa da tradição moral e à desregulação da economia, alcançar algum dia que o liberalismo – o verdadeiro, o das Luzes, o que persegue a ideia prometeica da autonomia individual – era, parafraseando Charles Taylor, a fighting creed, armado com pretensões universais relativas à natureza humana, às virtualidades da ciência e ao progresso moral, nos antípodas quase da vulgata hayekiana que é o alfa e o ómega do seu horizonte político? Continua, Nuno, que ainda tens muito que fazer.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Bene trovato

  1. Sérgio diz:

    Pois, o (neo)liberalismo na boca e na pena dos seus ideólogos (portugueses) tem o progresso da Humanidade em muito fraca conta, de facto.
    Atenciosamente.

  2. Ezequiel diz:

    Esta é uma discussão com pano para mangas e cuecas. Como liberal, sinto-me verdadeiramente indignado com o neo-liberalismo (conservador e economicista e vulgar) Português. Todavia, tb é importante não esquecer que o liberalismo de Locke difere do liberalismo de Mill..e do de Kant… Talvez seja isto que distingue o liberalismo: a ambiguidade conceptual que emana do seu pluralismo intrinseco. Gale Stokes, historiador, escreveu num artigo sobre a europa de leste (não me recordo qual, foi há mais de 11 anos) que o liberalismo não é um dogma, um corpo de principios imutáveis e inflexiveis, mas um conjunto relativamente indeterminado de sensibilidades mais ou menos estruturadas. Parece-me uma distinção relevante. É verdade que todos os movimentos filosóficos são inevitavelmente plurais (seria contra natura). No entanto, são poucos os movimentos filosóficos explicitamente politícos que “sofrem” da “malaise” da flexibilidade conceptual eh he eh ee e Bem bom que é assim!!! É o antidoto perfeito contra a dogmatização. Nice, isn´t it??? 🙂

  3. Ezequiel diz:

    sobre a europa de leste….no qual afirma que o liberalismo….

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