O enguiço nacional

[da Blitz de outubro 2006]

Para contextualizar: vivemos num país onde supostamente não se consegue encontrar um clássico da literatura nacional em lado nenhum. Ninguém quer ler, ninguém quer comprar, ninguém quer vender. O país está a morrer, é um coio de ignorantes, aliás sempre foi. É o que dizem senhores e senhoras de ar severo. Não se consegue encontrar um clássico — em lado nenhum — muito menos uma obra menor, como por exemplo O Mandarim. E no entanto. Outro dia comprei O Mandarim, de Eça de Queirós, por um euro. Lá estava ele, um eurinho somente, na banca de jornais. Segundo parece, fizeram uns cem mil e desapareceram todos em poucos dias. Eu fiquei com um.

Enquanto esperava pela pita shoarma sem salada, de pé em frente ao balcão, fui lendo o resumo na contra-capa. Além de um excerto longo da obra, as informações básicas: novela publicada pela primeira vez em 1880, de estilo fantasioso, foi criticado pelos companheiros realistas de Eça de Queirós, etc. E depois acrescenta-se isto: “Cento e vinte seis anos depois, Portugal continua lá, mordazmente retratado”.
Já cá faltava esta.

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Cinco segundos de pausa para vos fazer subir três linhas. Reparem naquela maravilha do lugar-comum: dois pelo preço de um. Para começar: “não sei quantos anos depois, Portugal continua lá”. Evidentemente. Portugal continua. Como poderia não continuar, sempre o mesmo século após século após século? O que valia para 1880 também vale certamente para 2006. Portugal vê-se uma vez e está visto.

Depois vem este “mordazmente retratado”, que não poderia faltar tratando-se de Eça de Queirós, mas poderia ser um “genialmente satirizado” ou um “friamente analisado”, como poderia ser “um duro retrato” ou “uma pintura sarcástica”. Parte-se do princípio que Eça de Queirós não fazia outra coisa senão:

1. retratar. O termo não cai ali por acaso: tudo o que está em Eça deve ser considerado realidade objectiva, como numa fotografia.
2. mordazmente. Porque o objecto do seu retrato, evidentemente, não mereceria outra coisa, nem outro tipo de retrato poderia ser feito dele.
3. Portugal. E que outro tema poderia haver? A única coisa que merece a atenção de um escritor português é Portugal, o pai, a mãe e a tia de todos os portugueses.

Tudo bem. Vamos admitir que este é um ponto de partida. Mas não teria Eça nada mais para fazer senão consumir-se pelo seu país natal, onde aliás passava pouco tempo, e isto sem intervalo, sem respiração, sem descanso? Nunca tiraria Eça de Queirós umas férias de Portugal?

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Já agora, há outra coisa notável naquela frase: não ter nada a ver com o bendito livro. O Mandarim não é especialmente mordaz sobre Portugal. Tampouco é um retrato do país, na medida em que não basta a acção decorrer num lugar para o livro ter pretensões a retrato desse lugar. Se assim fosse, O Mandarim seria também um “retrato mordaz” da China, porque metade do livro se passa nesse grande país asiático, “do Norte ao Sul e do Oeste a Leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo”, onde Eça de Queirós nunca pôs os pés.

Quem for ler O Mandarim à procura de Portugal não chega muito longe. Pior ainda: perderá uma excelente pequena obra de literatura, uma das melhores novelas do século XIX (apesar de alguns defeitos evidente, por exemplo uma perda progressiva de objectividade do meio para a frente). O Mandarim conta a história de Teodoro, também conhecido por “Enguiço”, um triste funcionário público que vive com outros solteirões na casa de hóspedes de uma certa Dona Augusta, à Travessa da Conceição. Uma certa noite, enquanto lê à luz da vela, aparece-lhe o Diabo. O Diabo aponta-lhe uma campainha (que imaginaremos redonda, como as dos balcões de hotéis antigos) e diz-lhe que se tocar nela matará nos confins da China um mandarim “mais rico que todos os homens”; em troca, será Teodoro o herdeiro da sua fortuna. Que fazer?

***

A passagem em que o Diabo tenta Teodoro com a fortuna do mandarim Ti-Chin-Fú é, para mim, o melhor momento da novela:

«Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há sobre este globo coisas prodigiosas: vinhos de Borgonha, como por exemplo o Romanée-Conti de 58 e o Chambertin de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze mil réis; e quem bebe o primeiro cálice, não hesitará, para beber o segundo, em assassinar o seu pai…». «Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais Royal, o baile Laborde, o Café Anglais… só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres — diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma folha de vinha. Hoje,Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos… Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para o cinco dedos de um cristão, percorrer, palpar estas maravilhas macias; — mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins…». «De resto as suas pupilas já rebrilham… Ora todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês…».

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Eça de Queirós estava no seu direito inalienável de escrever sobre um país que não conhecia, a China. E também tinha o direito de iniciar a acção da novela na Travessa da Conceição sem estar obrigado a fazer o retrato mordaz e perpétuo da Travessa da Conceição ou do país onde ela se encontra. Mas a nós ninguém obriga a uma leitura claustrofóbica de tudo quanto o homem escreveu, muito menos proclamar a sua eterna validade.

Temos de reconhecer isto: chega o momento, na obra de um grande escritor, em que o país de origem se torna instrumental. Mesmo que aparentemente o autor viva obcecado com ele. Mesmo que nos garanta que não pensa noutra coisa e que não escreve sobre mais nada. Na verdade, o grande escritor está principalmente ocupado em ser (em tornar-se) um grande escritor. Aliás, é por ele ser um grande escritor que nos reconhecemos naquilo que lemos; não por esse disparate de Portugal ser diferente de tudo o resto e continuar sempre o mesmo. Ou não haveria amanuenses solteirões e tristonhos na São Petersburgo de Nikolai Gogol? Na Nova Iorque de Herman Melville? No Rio de Janeiro de Machado de Assis?

Mesmo que não se tenha dado conta, o grande escritor estendeu a mão para a campainha, deu-lhe um toque seco, e fez desaparecer o seu país. Sem remorsos: fê-lo para ganhar uma fortuna maior do que a de um mandarim do outro lado do mundo. Todos saíram a ganhar. Tu que me lês e és mortal, tocarás a campainha?

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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4 respostas a O enguiço nacional

  1. Sérgio diz:

    Pois, é o que dá o excesso de identidade.

  2. Paulo Varela Gomes diz:

    Lá diz a minha mulher: o truque é a gente tentar cruzar-se com Portugal o mínimo possível.

  3. philonenko diz:

    Brilhante, mas na verdade não disse nada; autores como o Eça, James e Flaubert não se lêem assim.
    Já agora, leia um texto de Borges acerca de “O Mandarim” (in “Biblioteca Personal”), e também alguns textos ensaísticos de Nabokov, que ensinam a evitar ideias gerais.

  4. Filipe Paulo diz:

    Sou Angolano
    Gostaria ter um intercambio com a vossa pagina sobre o Jazz
    A curiosidade devesse o talento neste estilo e quero aprofundar
    meus conhecimentos

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