Salazar, Cunhal e convicções

Tenho lido algumas pessoas que garantem que Salazar e Cunhal são moralmente iguais. Não falo apenas do Miguel Sousa Tavares, pessoa de quem os jornalistas afirmam ser um grande cronista e os cronistas referem ser um soberbo jornalista, falo de uma opinião mais generalizada. Eu quero aderir a esta procissão: Cunhal e Salazar eram homens de convicções. A pequena diferença é que Cunhal esteve preso e foi torturado porque não abdicou da suas convicções e Salazar mandava prender, torturar e, às vezes, matar aqueles que ameaçavam o poder das suas convicções.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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19 respostas a Salazar, Cunhal e convicções

  1. luis nascimento diz:

    Execelente,Nuno!Curto,eficaz elucidativo.
    o que se diz em relação ao Cunhal é afinal de contas uma tentativa de negação da história e dos seus protagonistas.Comparar Cunhal com Salazar só revela ignorância.Nao defendo as mesmas ideias que denfendia o lider historico do PCP(apoio á invasao da Checoslováquia,negaçao da Perestroika,etc),mas reconheço que foi um dos Grandes Portugueses.Bateu-se galhardamente pela defesa do povo e temos que entender tudo isto á luz do contexto historico em que viveu.

  2. cláudia diz:

    uma diferença que nunca é demais salientar!!!

  3. Vê-se mesmo que só conheceram o Cunhal dos últimos tempos, de cabeleira branca, um ancião simpático, artista polifacetado, uma figura inocente, aparentemente, ao mesmo tempo bonacheira e austera, um sorriso tolerante, de vez em quando, a sublinhar algum dos versículos da sua cartilha de sempre. Religiosamente arredado da sociedade portuguesa, viva e palpitante, não se misturava com o vulgo, só nas campanhas, muito pouca gente sabia por onde ele andava. É verdade. Mas o que estava para trás, e por dentro dele, caso tivesse vingado nos seus intentos, nem queiram saber o que ele faria a este povo…
    Claro que Salazar também não interessou, sobretudo a partir dos anos 50. Por razões mais tacanhas foi um tiranete sovina agarrado à cadeira do poder, perversamente endeusado e mantido por uma minoria de escorpiões …Portugal tudo tinha a ganhar sem estas prendas.

  4. Pois ! Se calhar foi uma questão de oportunidade, já que Cunhal apoiou regimes que prenderam e mataram pessoas por delito de opinião. Se tivesse tido a oportunidade…
    Cumprimentos

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Joaquim Gomes,
    Você que afirma ter um conhecimento tão profundo e intimo de Cunhal podia dar-nos dados dessa maldade ontológica, em vez disso, fica pela figura do nariz de Cleopatra, também conhecido nos meios populares como “se a minha avó tivesse asas voava”. O que é fraco como argumentação.

  6. pedro diz:

    E o Salazar era um ditador tão mau, tão mau, que em vez de mandar fuzilar o sr. Cunhal (como Franco fez com Lorca), deixou-o ir fazer o exame final de curso de direito com a companhia de dois guardas.
    Não quero com isto defender Salazar, mas apenas desmitificar…
    Já agora, gostaria de pedir aos administradores deste blogue para alterarem o vosso link do Big Breasted Blonde Amateurs, uma vez que fui forçado a criar um novo, sendo o novo endereço http://bbba.blogspot.com

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Pedro,
    Tem toda a razão: Salazar era muito bom. Não mandou assassinar Humberto Delgado e tantos outros. Não matou o primeiro secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves, no Campo de Concentração do Tarrafal. Mesmo o Cunhal não foi preso uma dezena de anos, muitos dos quais em solitária. No fundo, só prenderam Cunhal para que ele estudasse para o exame de direito. No fundo, no fundo, o salazarismo era uma democracia musculada.

  8. Gonçalo Soares diz:

    a diferença é que Cunhal lhe faltou a oportunidade.

  9. Gonçalo Soares diz:

    e competência

  10. O Nuno Ramos de Almeida diz, e bem, que Salazar mandou fazer isto, aquilo e mais aquilo. Aparentemente não sabe ou esqueceu-se daquilo que Cunhal também mandou fazer. Antes do 25 de Abril houve portugueses, comunistas ou não, que morreram em circunstâncias muito estranhas. Tão estranhas que apontam o PC e os seus esbirros como autores materiais e/ou morais dessas mortes. Gente que foi perseguida, humilhada, vilipendiada pelo PC. Por ter lá andado ou por, apesar de “antifascista”, nunca ter suportado no PC a sua liberdade e a sua democracia interna muito particulares. Uma realidade com a qual Cunhal, como se sabe, nunca se identificou. Noite após noite penitenciava-se pelo facto do PC não ser nem livre nem democrático. Como se não bastasse, parece que o Dr. Cunhal teve um papel não despiciendo, veja lá, na preparação da repressão da “Primavera” de Praga. Um acontecimento absolutamente pacífico, praticamente esquecido na história da Guerra Fria. Depois houve o pós-25 de Abril e a acção do PC de Cunhal. Anos que deixam a qualquer português amante da liberdade e das instituições democráticas uma enorme saudade do Dr. Cunhal. Caro Nuno, para branquear Cunhal e vê-lo apenas como vítima é preciso um esforço maior. Muito maior.

  11. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Fernando Martins,
    Antes mais nada queria dizer-lhe que é com prazer que o vejo por cá. Sobre a substância, o meu caro “amigo do povo” não especifica nada em concreto. Ainda assim lhe digo, que o caso que deve estar a reportar: o assassinato de Manuel Domingos não tem nada que ver com Cunhal, preso e isolado na época e que o criticou asperamente quando saiu em liberdade.
    Sobre o resto, os senhores não conseguem argumentar muito. Baseiam-se numa suposição que se Cunhal estivesse no poder teria morto milhões. É a vossa opinião, mas não passa disso. Os factos demonstram, por mais que pretenda branquear Salazar, que Cunhal resistiu com coragem à ditadura e Salazar reprimiu com violência aqueles que não aceitavam o fascismo. O resto, desculpe-me a franqueza, é conversa…

  12. Pedro diz:

    Caro Nuno:
    lamento que não me tenha percebido com a clareza suficiente. Queria apenas estabelecer um ponto de diferença entre Salazar e outros ditadores . A verdade é que Cunhal poderia ter sido fuzilado, assim como Mário Soares e muitos outros.
    Nunca quis afirmar que Salazar era bom. Porque não o foi.

  13. Eu quero branquear Salazar? Porquê? Sou salazarista? O Nuno acha que o PC, antes e depois do 25 de Abril, foi um partido democrático e livre. cunhal teve alguma coisa que ver com isso? Porque razão foram assassinados vários militantes. Porque razão saíram tantos e foram perseguidos por antigos camaradas? Humilhados, vexados, violentados! Acha pouco? E Cunhal e a Primavera de Praga? Cunhal alguma vez reconheceu os crimes do comunismo? A existência do Gulag? A repressão da Primavera de Praga foi um passeio? Cunhal não teve uma intervenção directa? E a correcção do desvio de direita no PC depois de Cunhal ter fugido de Peniche? Foi uma coisa pacífica? Acha mesmo que Cunhal, se tivesse mandado, teria mandado democratiamente? Eu desteto Salazar como detesto Cunhal. Detesto Mussolini como detesto Fidel. E por aí fora. Mas enfim, se quer branquear Cunhal, esteja à vontade! Se acha que foi que Salazar, louvo-lhe a fé!

  14. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Fernando Martins,
    A sua comparação entre Cunhal e Salazar branqueia Salazar, na medida, em que considera igual o ditador ao resistente anti-fascista.
    Explico-lhe melhor, com um exemplo, nós podemos criticar o secretário-geral do KPD Ernst Thälmann por ter ficado silencioso sobre os crimes de Estaline, mas não o podemos comparar a Adollfo Hitler. O comunista morreu num campo de concentração, abatido pela Gestapo; Hitler mandou matar milhões de pessoas nos campos de concentração.
    Sobre Cunhal, a sua ladainha é redutora. Eu estou bastante à vontade a esse respeito, saí do PCP por discordâncias em relação à falta de democracia interna e vivi na infância na Checoslováquia, na Argélia e em Portugal na clandestinidade. Conheço bem a história do PCP e acho que o resumo que o Fernando Martins faz é distorcido. Conheço muita gente que foi presa por querer um Portugal livre e a grande maioria deles era comunista.

  15. Morrer na Praia diz:

    Resta dizer que no momento mais perigoso do PREC,Cunhal podia ter contribuido para o deflagrar da tal guerra civil.Mas nao o fez,teve o cuidado de serenar as hostes e evitar uma terrivel confrontaçao,isto tudo articulado com Costa Gomes.Nao esquecer que Melo Antunes faz aquela declaraçao sobre o PCP,precisamente porque houve contençao do seu secretario-geral.Sao factos historicos.Se Cunhal fosse anti-parlamentar como Salazar,teria havido uma guerra civil,depois da derrota do PCP nas eleiçoes constituintes.É de uma ignorância atroz comparar Salazar com Cunhal.Alias o velho ditador tinha algum respeito pelo seu maior adversário.Mas infelizamente,o que temos visto de há uns anos para cá,é um branqueamento do Salazar,protagonizado pelos governos da Coligaçao PSD-PP e por este executivo “socialista”…

  16. Eu vivi toda a minha em Portugal. Nunca militei em qualquer partido político. Falo por mim e por toda a minha família. Pais, tios, avós (excepto os que vieram da Galiza), primos (irmãos não tenho nem nunca tive). A esmagadora maioria dos portugueses é assim.
    Lamento dizer que não é por se dizer que se viveu na clandestinidade e que se diz que se lutou pela liberdade que isso dá qualquer superioridade a quem quer que seja para falar de política e de liberdade, de Salazar e de Cunhal. Já agora, e peço muita desculpa, só por distracção se pode dizer que um comunista luta pela liberdade. Não só porque não é nem nunca houve liberdade em estados em que vigorem regimes comunistas, como não há, genericamente, liberdade dentro dos partidos comunistas (é da sua essência). Nenhum partido comunista tem a liberdade como fim programático e como essência do seu pensamento ou prática política. Estas são questões gerais absolutamente óbvias e verdadeiras. Mas não quer dizer que todos os comunistas odeiem a liberdade ou, para ser mais prosaico, comam criancinhas.
    Porém, nada disto no fundo é importante. Aquilo que verdadeiramente importa, e é por isso que se pode tentar comparar – penso até que sem grande interesse – Salazar a Cunhal, é a circunstância (ou as circunstâncias) em que os dois homens existiram politicamente. Salazar teve nas suas mãos o poder do Estado português. Cunhal não, ou apenas de forma muito diminuída e durante pouco tempo. Neste particular Cunhal leva vantagem sobre Salazar. No entanto, e na sua essência, ambos detestavam a liberdade, a democracia, o capitalismo, os EUA, o parlamentarismo, a Europa, etc., etc.. Eram, por isso, e de certa forma, almas gémeas. Curiosamente aquilo que os aproximava – no fundo o ódio àquilo que Portugal é hoje – é aquilo que os transforma, nos Grandes Portugueses, em merecedores de uma votação nada despicienda. Não me parece que haja muito a acrescentar. Mas talvez os meus simpáticos interlocutores encontrem uma maneira de me convencer que só Salazar, e não Cunhal, era defensor de sociedades fechadas, de regimes políticos autoritários, da supremacia da virtude na vida pública, etc., etc.
    Só uma nota sobre o branquemaento de Salazar. Penso que, genericamente, a historiografia não o tem feito. Os políticos reconheço que sim. Parece-me óbvio que Manuel Monteiro ou Paulo Portas, só para dar dois exemplo, têm uma tara pelo homem (mas se calhar também por Cunhal). Mas parece-me igualmente indiscutível que se tem branqueado muito Álvaro Cunhal (o próprio passou grande parte da sua vida a branquear-se). Basta ver que nos Grandes Portugueses Cunhal foi apresentado como o “resistente” ao “fascismo”. Ora seria ridículo e redutor limitar a sua biografia política aos anos de luta contra Salazar e Caetano. Não só porque, desde 1961, Cunhal viveu no estrangeiro, relativamente longe do fascismo português. Mas porque regressado a Portugal depois do 25 de Abril, Cunhal não se resumiu a ser um espectador ou apenas um político intérprete de causas beneméritas. Por alguma razão será mais fácil encontrar em Portugal gente que deteste Cunhal do que gente sinta o mesmo por Salazar. Alguma coisa, portanto, Cunhal deve ter pensado ou feito que não agradou nem agrada a muitos portugueses, ao ponto de se ter encarado a possibilidade de uma guerra civil que impedisse que Portugal caísse às mãos de uma ditadura comunista.
    Por mim, e como historiador, devo dizer que gosto bastante dos dois. Desse ponto de vista nunca me interessaram muito os políticos democráticos.

  17. João diz:

    Só há um erro no seu raciocínio. Só há liberdade, verdadeira e séria, com igualdade. E o comunismo é igualdade.

    Sem igualdade a liberdade não existe, está mortalmente amputada. Porque só somos realmente livres se somos iguais…

  18. António Azevedo diz:

    Sou de esquerda mas não sou obrigado a engolir o sapo do Cunhal.

    O sr. Nuno Ramos defende-o aqui com unhas e dentes; admira-me, uma vez que declara que saiu do pc – ficou, porém, com um (grande) fraquinho por aquela tutelar figura de fortes convicções, ao que parece.

    A minha convicção é que as suas convicçôes não seriam as mais ortodoxas.

    Lutou que se fartou contra Salazar; houve o 25 de Abril e continuou a lutar sem se fartar contra tudo e contra todos, especialmente contra o P.S. e Mário Soares por quem nutria um azedume exasperante.

    Acompanhei isso tudo e mesmo nós, P.S. eramos considerados reaccionários por quem queria ardentemente ter o exclusivo da revolução, uma vez que tinham sido perseguidos anteriormente, segundo afirmavam.

    E assim tinhamos de os aturar a toda a hora.

    Quanto à eventualidade de serem moralmente iguais, não é coisa de desprezar, não senhor. As afinidades morais ou não, são muitas e já descritas em vários sítios:

    Sentiam indiferença (ou desprezo) pelas pessoas.

    Queriam governar até morrer (sentiam-se indispensáveis). Portanto não admitiam oposição interna ou externa.

    Tinham por mentores verdadeiros malfeitores.

    Detestavam a democracia (e Cunhal por conseguinte todos os grandes lutadores que não pertencessem à esfera russa), Etc. etc.

    Quanto ao comentário do João dizendo que comunismo é liberdade e igualdade, está bem bolada. É simplesmente hilariante.

    E por hoje é tudo. Estou com um sono dos diabos.

    Cumprimentos.

  19. Pedro Miguel diz:

    É uma questão de história avaliar o regime precticado por antónio de Oliveira Salazar, pois se por um lado permanecem críticas ao seu Dirigismo económico , á sua repressão politica, Incutição de espírito de trabalho , por outro podemos reflectir sobre a grande desorganização que a cadeira do poder administrativo em Portugal havia sentindo. No contexto de uma crise embora não sendo a melhor opção para o povo da altura , foi a melhor opção para opovo da actualidade. Pois senão tivesse acontecido aquela ditadura, de que tanto se fala hoje ainda os Portugueses estariam ainda aterrados até ao pescoço com impostos com o fim de cobrir a divida publica.

    Por isso volto a dizer foi mau , mas necessário.
    Pois graças a essa limpeza da divida publica é que hoje a maioria dos Portugueses já tem condições para pedir emprestimos para a compra de um carro ou de uma casa.

    Fascismos ou Comunismos , qualquer um deles indesejaveis mas tanto um como outro tiveram papeis importantes na historia das nações de todo o mundo.

    Por isso desde já fica aqui um agradecimento a todo o Povo que sofreu com as instaurações desses regimes, pois graças ao suor dessas pessoas sofredoras, posso respirar hoje LIBERDADE.

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