Voto

alvarocunhal.jpg

No concurso dos “Grandes Portugueses”, promovido pela RTP, gosto de Pessoa e de Camões. Afinal, estamos num país de políticos muito pequenos. Simpatizo com Aristides Sousa Mendes, mas vou votar em Álvaro Cunhal. Não é voto útil contra Salazar, é convicção. Estou farto de meias tintas, de gente sem coragem, nem inteligência. O concurso serve para pouca coisa, mas numa sociedade que se rendeu à injustiça, pode lembrar gente que, numa altura em que muitos preferiram dobrar a cerviz, disse: “não”. Álvaro Cunhal ajudou-nos a conquistar a liberdade. Enganou-se (enganou-nos) sobre a União Soviética, mas não renegou as promessas da Revolução de Outubro. Foi prisioneiro de muitos dos sonhos do Século XX, mas nunca deixou de acreditar que era possível vivermos num mundo melhor. Muito desse Século está preso nesta dialéctica sangrenta. Nas palavras do poeta Ossip Mandelstam, “para arrancar o Século à sua prisão, para começar um mundo novo” era preciso fazer “correr o sangue das vértebras de duas épocas”. Num debate de Cunhal com alunos da Faculdade de Direito de Lisboa, houve quem lhe perguntasse se achava que a sua vida tinha valido a pena, depois da queda da União Soviética. O dirigente comunista respondeu, contando uma história de um homem revoltado da antiga Grécia, a quem os Deuses tinham castigado com inúmeras desgraças, que tinha atirado uma flecha aos céus contra a adversidade. A flecha subiu, subiu e quando caiu vinha com sangue. Sangue dos Deuses.
Nota pequenina: Para “advogado de defesa” de Cunhal mais valia terem convidado Pacheco Pereira e terem deixado de fora aquela espécime de PCP tablóide, que torna qualquer causa num diálogo de teatro de revista mal declamado. Mas bem vistas as coisas, havia pior: podia ser o Morais e Castro.

Nota grande: não tinha ainda lido o Bruno no Avatares. Recomendo vivamente os textos que escreveu sobre o assunto.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , . Bookmark the permalink.

15 respostas a Voto

  1. xatoo diz:

    Cunhal, um reformista ortodoxo? é o melhor português?
    então e o Bento Gonçalves?

    ps(desabafo áparte)
    prática democratica é por aqui, pá
    quem tem o máximo respeito pelo debate e pela “opinião dos outros que sabem pensar”,,, é o Ivan Nunes, que tem sempre os comentários em off
    é gente como ele, com esta filosofia, que nos governa.(olha se ele lá chega!)

  2. ui ui… ao menos o estalinista assumiu-se!

  3. luisatoda diz:

    Quê!?…Ajudou-te a conquistar a liberdade?…Bem se vê seria um puto ou não existia, no verão quente de 1975…Por vontade desse indivíduo, Portugal entraria pelas goelas dentro da Rússia soviética…o Sol desse senhor…nascido em Portugal!…Não acredita? Pergunte ao seu pai ou seu avô.
    Cunhal foi um pirata… convicto…mas pirata… Aparece entre os dez porque o exército vermelho dos comunistas se encarregaram de despejar votos no nome dele. honra lhes seja reconhecida. Comunistas…mas corentes!…Os pink-roses deveriam fazer o mesmo por esse português que nos livrou de Cunhal e ficou em 12º!…É a inexplicável fatalidade da raça lusitana!!!…seu fado…por isso e que detesto o fado…morno e choco…
    Cunhal foi um português sinistro…morreu com a obra a meio…

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Cara Luisa Toda,
    Está por provar que Cunhal tivesse instaurado uma ditadura em Portugal. É factual que Cunhal bateu-se, como muito poucos, contra a ditadura fascista em Portugal. O combate de Álvaro Cunhal, permite-nos, a si e a mim, discordarmos democraticamente.

    Com toda a consideração,
    Nuno

  5. luisatoda diz:

    Está mais que provado. Vivi as horas negras do verão quente, em Almada. Não fosse o 25 de novembro e teríamos, durante não sei por quanto tempo, uma ditadura vermelha, à maneira da Roménia…etc…etc…Leia os jornais da época. Hoje estamos em liberdade e podemos escrever o que estou a escrever, não por causa dele…acredite…( ele, tendo combatido, é certo, a ditadura de Salazar, por outras razões que não as nossas, regressou de comboio, das estâncias turisticas, soviéticas, limitou-se a aproveitar o ciclone do MFA… e qual milhafre ou coruja…apareceu logo com o cheiro do rescaldo.
    Salazar também não, claro. Matou os meus pais, na flor da idade, com 40 e 52 anos, por falta de assistência…com os cofres a abarrotar de toneladas geladas de ouro!…a mim, queria que fosse um analfabeto, mas feliz…no remanso do verde-minho, recheado de campanários…e escolas sem aquecimento, nem retretes…
    De certeza, que esses dois patriotas se riem a bandeiras despregadas lá no inferno que, justamente, bem mereceram.
    Um abraço

  6. Nuno Costa diz:

    Curioso pormenor o de citar Ossip Mandelstam um poeta perseguido na URSS que Cunhal tanto apreciava… de facto um grande lutador pela liberdade. Há no seu texto uma premissa errada: procurar derrubar uma ditadura não implica necessariamente que se esteja a lutar pela liberdade. Dou-lhe apenas dois exemplos Jonas Savimbi e Fidel Castro…

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Nuno Costa,
    Cunhal defendia no “Rumo à Vitória” (escrito no final dos anos 60) o derrube do fascismo e a instauração de uma democracia com eleições e pluripartidarismo. E afirmava nos seus esritos que qualquer evolução para o socialismo tinha de ser feita no quadro da disputa política democrática. Se o critério de classificação de Cunhal está na propalada deriva totalitária no “verão quente”, então temos que analisar todos os personagens da
    época à mesma luz. Nesse caso, como chamariamos aos “democratas” que colaboraram, na época, com a “rede bombista” a assassinar pessoas e a destruir sedes do PCP? Fachos?

  8. João diz:

    Ou o que dizer daqueles, à época muito radicais, que nesses meses achavam o PC demasiado moderado e que agora dizem precisamente o contrário. É vê-los por todo o lado, do ps ao psd….Agora acham que o pc foi muito radical, na época achavam-no muito moderado…
    A coerência de Cunhal talvez faça confusão a muita dessa gente…
    desses navegantes ao sabor das correntes do oportunismo.
    A referência a Almada de um dos comentadores não deixa de ser interessante…. A democracia em Almada….

    quanto à Odete essa inimizade fez-me lembrar uma cena de um congresso do pc…. um diálogo entre vocês os dois….

  9. F Gomes diz:

    Caro Nuno Ramos de Almeida,
    Álvaro Cunhal foi um anti-fascista que tem a seu crédito, o ter mantido a pressão sobre o Estado Novo com a excelente organização do PCP. Mas no pós 25 de Abril, não há dúvida que se chegasse ao poder, teríamos uma deriva totalitária de sinal contrário ao Estado Novo. A prova disso, está bem à vista: a actual organização do PCP, onde a disciplina partidária é férrea, onde não há lugar para vozes discordantes, ou seja, não há lugar no
    interior do PCP ao contraditório. Se isto não é totalitarismo!!!
    Não deixa de ser no entanto um Grande Português, quanto mais não seja pela sua cultura, deixando-nos obras reveladoras do seu génio e, pela coerência até ao último dos seus dias.
    Já agora aproveito para dizer que vou votar no Infante D. Henrique, como já o tinha feito da primeira vez.

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Bem-vindo João (desde o Aspirina),

    Na altura gostava mais da Odete Santos, apesar dela catalogar a homossexualidade como doença e fazer elogios ao Estaline, do que hoje. Vê lá tu. É uma mulher que está sempre a ultrapassar-se… quando a gente pensa que ela chegou ao nível mais baixo, eis que ela consegue pior…

  11. João diz:

    Considero o 5dias um dos melhores sitios para ler opiniões de esquerda (que não as minhas)

    A Odete excede-se, é um facto, mas a ideia do Pacheco Pereira também não era muito feliz.

    Acho mesmo, pela forma pouco sectária com que abordas estas temáticas, que serias um grande defensor do Cunhal.

  12. Ricardo Baptista diz:

    então não publicam o link que recomendei sobre este tema? e ainda acusam outros de intolerância…

  13. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Ricardo Baptista,
    Faça-me o favor de mandar o link outra vez, que isto teve um problema com o filtro que barrava o spam.

    Grato pela atenção,
    Nuno

  14. Ricardo Baptista diz:

    era sobre a troca de argumentos entre o Bruno do Avatares e o Tiago do Kontratempos, acho que está um debate muito interessante.

  15. Pingback: O Insurgente » Blog Archive » Os bloquistas fãs de Cunhal e o triste fado dos arrastados

Os comentários estão fechados.