Nesta estamos bem de acordo

Também graças a um link do António Figueira, fui remetido para um texto do Eduardo Nogueira Pinto. Transcrevo com cortes (estava um bocado grande), depois da dobra.

Rui Ramos e o óbvio não ululante

Eduardo Nogueira Pinto

Mais um artigo sobre o Iraque. Depois de lê-lo e relê-lo, fico com a seguinte ideia: Rui Ramos não só acha que não era “óbvio”, em 2003, que a invasão do Iraque fosse um erro; como continua a achar que não é “óbvio”, em 2007, que a invasão tenha sido um erro.

(…) Continua a poder dizer-se, em 2007, que a invasão do Iraque não foi um erro. O Irão, por exemplo, acha-a acertadíssima; os xiitas do Iraque também; e o mesmo se diga de alguns bloggers domésticos, notáveis na defesa de causas absurdas, e que assim podem continuar a sua absurda notabilidade. O que me espanta é ver Rui Ramos embarcar nesta cantiga. Não há nada mais maçador que assistir a pessoas que admiramos intelectualmente no penoso papel de negar o óbvio. Para mais, com argumentos como os que se seguem:

“Em 2003, Saddam não dispunha de “armas de destruição maciça”. Mas não podia consentir que isso fosse provado pelos inspectores da ONU, porque precisava de parecer que as tinha. Com o colapso inevitável do regime de contenção, tê-las-ia fatalmente adquirido…”
“… Sem a invasão de 2003, Saddam seria hoje, não o mártir dos sunitas iraquianos, mas um grande líder que desafiara impunemente os EUA, pronto talvez para novas aventuras de grandeza…”

(…) O argumento-chave usado em 2003 para defender a invasão foi um argumento real, e não hipotético. Foi o da existência concreta, corpórea e actual de armas de destruição massiva no Iraque. E não o da mera hipótese abstracta de num qualquer futuro aí poderem vir a existir. (…) Em nome dos mínimos olímpicos de coerência, seria bom que todos aqueles que fundamentaram a invasão nas ADM reconhecessem agora a inexistência do fundamento invocado, em vez de atirar com as cartas ao ar para obrigar a baralhar de novo.

Depois – sempre no campo da especulação – conta-nos Rui Ramos que, não fosse a invasão de 2003, e Saddam seria hoje o grande líder que desafiara impunemente os EUA, quando – e agora já no campo da realidade – foi precisamente após a invasão, e por causa desta e do que se lhe seguiu, que a sensação de impunidade aumentou nos países hostis aos EUA. Pode não ser óbvio para 100% da humanidade, mas se há algo hoje sobejamente consensual na América (incluindo no Partido Republicano), é que a invasão do Iraque e a incapacidade (por muitos prevista) de gerir o que a seguir se passou diminuíram, e muito, o capital de influência político-militar dos EUA no Médio Oriente. Sem que, no meio disso tudo, se tivesse melhorado o que quer que fosse no Médio Oriente.

(…) Para estes agitadores da lógica, não há lições a tirar da invasão do Iraque. Quando os fundamentos que usaram para sustentar a sua tese caem por terra, quando a (sua) história lhes sai contrária às previsões, refugiam-se no relativismo opinativo, invocam todo o tipo de cenários hipotéticos, discutem à margem de qualquer coerência formal e substancial, e acabam a recitar o paradoxo hegeliano, afirmando que a única coisa que se pode aprender com a História é que não há nada para aprender com a História ou, por palavras mais modestas, que uma das poucas coisas óbvias no mundo é que quase nada é “óbvio”. Contra isto, de facto, não há argumentos.

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QUINTA | Ivan Nunes
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