Sobre a natureza humana

Parece fácil distinguir um cão de um gato, ou dizer como é que um gato é, apesar e para lá de todas as diferenças que caracterizam cada indivíduo da espécie gato, mas o mesmo exercício parece bastante mais difícil de realizar em relação ao homem. Existirá uma natureza humana, para lá de todas as variações pessoais que a humanidade integra e apesar de todos os acidentes culturais que a compartimentam em incontáveis tribos, ou essa é uma construção conceptual sem correspondência com a realidade? A questão não se confunde com a de saber se existem verdades absolutas, mas tem com ela evidentes pontos de ligação: quando Montaigne dizia “verité en deça des Pyrénées, fausseté au-delà”, prenunciava Joseph de Maistre quando este diz, perto de dois séculos depois, que “il n’y a point d’homme dans le monde”: existem franceses, italianos, russos, o que for, mas “homens” não – isso seria uma invenção das Luzes e dos seus cosmopolitas sem pátria. Esta ideia da singularidade geral da humanidade (passe o paradoxo) alimentou durante sucessivas gerações as várias correntes político-filosóficas que, de um modo ou outro, utilizaram a diferença cultural como fundamento do relativismo ético; modernamente, louvam-se na concepção antropológica (nomeadamente da antropologia norte-americana do séc. XX, de Franz Boas e seus discípulos, Ruth Benedict e Herskovits, sobretudo) segundo a qual, na sintética fórmula de Rorty, “the self, the human subject, is simply whatever acculturation makes of it”. É ela que permite dizer que os direitos do Homem são uma “ideologia”, interessada e contingente como todas as ideologias sempre são, e que, por exemplo, a execução de Saddam Hussein deve julgada segunda a escala de valores da civilização e do país que eram os seus. Será mesmo assim? A pena de morte, o acto legitimado pelo poder do Estado de pôr termo à vida de uma pessoa, como retribuição, como castigo ou como exemplo, fora de uma circunstância de legítima defesa ou de estado de necessidade, pode ser objecto de dois julgamentos diferentes, em função da latitude, da história, da religião – em suma, da “cultura”? O estrebuchar de alguém na ponta da corda, a dor, o medo, a perda, podem ter cor? Eu acho que não, e não me importo que me chamem eurocêntrico, imperialista cultural ou outro disparate qualquer: para mim, a crença na existência de várias “humanidades” é o princípio que leva a tolerar as desumanidades.
Consideração marginal sobre o mesmo tema: não faltará em Marx uma antropologia, uma consideração da natureza humana que impeça a redução do homem, em última instância, ao homo faber? Eu explico-me: Marx, como qualquer universitário que se preze, tem uma intuição que procura justificar a posteriori. Essa intuição primeira, genial e libertadora, que nasce da crítica da religião, é a da alienação em razão das condições materiais da vida; a explicação posterior é a teoria materialista da história, de que Marx vai retirando depois ao longo da vida, uma vezes melhor, outras pior, as consequências. Parece-me que o verdadeiro significado da cisão já clássica que alguns operam na obra de Marx – que oporia o “jovem” Marx do “Manuscrito”, nomeadamente, ao Marx da maturidade e do materialismo histórico – é este, e descreve afinal os dois passos de uma operação intelectual que lhe consumiu a vida inteira. Por outras palavras, apesar, repito, da intenção ética inicial de Marx, a sua obra enreda-se depois (eu diria necessariamente) no objectivismo da explicação económica e Marx, que pouco ou nada diz sobre o socialismo e o comunismo, pouco ou nada discorre também sobre o seu actor principal: a humanidade, livre dos constrangimentos da sociedade de classes. Que Marx tinha uma visão optimista do homem, parece claro pela célebre passagem de “A Ideologia Alemã”, segundo a qual, nessa idade de ouro em que a humanidade levará escrito na sua bandeira “a cada qual segundo as necessidades e de cada qual segundo as suas capacidades”, o indivíduo poderia fazer uma coisa hoje e outra no dia seguinte, caçar de manhã, pescar à tarde, depois apascentar e a seguir ao jantar praticar a crítica selon son bon plaisir; mas Marx escreveu antes de Freud, e também não conheceu os abismos a que humanidade desceu depois da sua morte, no “curto século XX” – ou seja, ignorou na sua reflexão as categorias filosóficas fundamentais da animalidade e da maldade. Será o altruísmo um requisito essencial do socialismo? E poderá haver comunismo com homens imperfeitos, como os homens são? Não sei.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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12 respostas a Sobre a natureza humana

  1. Caro António,

    Parabéns pelo texto! e parabéns sobretudo pela forma como o termina. Eu acho que o principal problema de Marx é o de não ter uma visão trágica da existência humana. Ou seja: o de achar que a reconciliação é possível. Pós-marxistas como Laclau, Butler e Zizek defendem que não há universal que não esteja contaminado pelo particular -o que torna a utopia redentora impossível-, e, pelo menos nisso, concordo com eles. Fartei-me de escrever sobre esta questão no meu blog (parado há quase um ano) e mantenho a mesma opinião: o marxismo e o neoliberalismo são o espelho um do outro, pois ambos rejeitam a política. A alternativa é o reconhecimento e afirmação de um pluralismo incontornável. Taylor (insisto nele pois o meu phd é sobre Taylor) rejeita todas as formas de clausura, enfatizando a validade/relevância de uma pluralidade de valores (dentro de um saudável espírito moderno) que, na sua opinião, caracterizam a nossa condição histórica. Para Taylor a modernidade é ela própria contraditória/em tensão. Ou seja, e simplificando a coisa: o iluminismo radical e a crítica/reacção romântica são parte integrante/incontornável da nossa condição. Mas também eu tenho dúvidas (inquietações?), e uma das coisas em que questiono Charles Taylor (cujo pluralismo e abertura admiro) é se todos os valores não serão tendencialmente hegemónicos/totalitários? Ou seja, seguir Heidegger e o seu diagnóstico do technological understanding of being como destino totalitário do ocidente (Adorno repudiava Heidegger mas acaba por estar mais próximo dele do que pensava…) Depois temos o Real traumático de Zizek e a sua unidade dialéctica entre os opostos (a reacção romântica e o liberalismo pertencem a uma unidade que importa rejeitar, quanto a transcendê-lo não diz mais nada do que o gesto revolucionário, demand the impossible e coisas que me parecem vazias – Badiou e o seu Truth as Event parece-me que vai pelo mesmo caminho) Outros como Pippin (e.g. ´Modernism as a Philosophical Problem´) parecem deixar-nos com a crítica como mero gesto estético, politicamente vazio. Aqui a modernidade gera uma estética de perda, melancolia, etc… (T S Elliot, Heidegger, Nietzsche, etc…) sem que aponte verdadeiramente caminhos. Eu gosto desta malta toda e revejo-me na maioria das suas inquietações. O neoliberalismo é totalitário (é uma utopia redentora), mas o que fazer não sei. Ou então façamos como Heidegger: Only a God can save us now. Também não ajuda. Por isso termino de forma semelhante: Não sei , mas desconfio que o totalitarismo liberal (na concepção instrumental/economicista/totalitária do mesmo) não funciona. Ou talvez Rorty tenha razão e o problema seja pensarmos demais. Ou seja: relax! …também acho que não dá. Preocupante mesmo é o Strauss ter razão…

    Cumprimentos,
    Joao Galamba

  2. Sobre o tema central do seu post, eu acho que o melhor é rejeitar a dicotomia relativo e universal. Ou seja, abandonar a filosofia moral enquanto forma de epistemologia (basicamente, o foundationalism) como sugere Rorty sem cair nos seus excessos. Rorty é como Nietzsche, pois não consegue evitar a sombra do Platonismo. Essa dicotomia só pode ser transcendida pela… hermeneutica. Eu gosto do Rorty mas em doses moderadas e apenas como critico do Platonismo. Sobre isto deixo-lhe aqui um artigo que acho fundamental e que o talvez o interesse http://www.focusing.org/apm_papers/madison2.html

    Peço desculpa pela extensão dos comments.
    Cumprimentos
    Joao

  3. Ezequiel diz:

    Caro António&João,

    Eu também gosto de Rorty, temperado com Adorno. Quanto ao Nietzsche, é uma pena não ter tido a possibilidade de ler Adorno. Se o tivesse feito, teria, certamente, fornicado a sua bem amada enfermeira e sempre se teria divertido qualquer coisinha. Heidegger, sem Taylor, por favor. Imagino-os aos dois a divagar na floresta negra a contemplar o pardal ubermenshiano perneta. Eu gosto de Levinas, sem Buber, mas não estou contaminado, ainda, por qualquer particular. Sim, o marxismo e o liberalismo, são duas faces da mesma moeda. O Cohen, de Oxford, anda a falar disto há anos e ninguém lhe presta atenção. Que falta de educação. A única diferençazinha é que o liberalismo não assume necessariamente uma verdade metafisica absoluta e incorruptivel enquanto o marxismo está indelevelmente impregnado por uma cientificidade que induz a ilusão da infalibilidade cognitiva que, por sua vez, leva os marxistas e outros auto proclamados iluminados à hegemonia epistemologica e, daí, ao mais ignobil totalitarismo (just kidding, this is fun!). O liberalismo, bem, é aquela coisa, a verdade é algo nebuloso, plural. Além deste detalhe inconsequente, há uma confluencia profunda(?) entre o liberalismo e o marxismo. A tese do João que ” Essa dicotomia só pode ser transcendida pela… hermeneutica”, foi elaborada pelo mestre Marinho há muito na républica Rais te Parta (em Coimbra), depois de uma sofisticada e intensiva ingestão de fluidos…”emme, é a conversar que a malta se entende…” Esta também é uma distopia, uma utopia contaminada por um particular e, por isso, impura. Foda-se. Nada de utopias sujas. Limpinhas, bem limpinhas, não vá o panasca do Platão ficar chateado.

    (Just kidding mate)

    Abraços aos dois

    ps. Nice article&comments. Congrats. Z

  4. Ezequiel diz:

    ps: eu gosto da Rachel Weiscz

  5. Ezequiel diz:

    E, claro, António…os Franceses não são homens, como é universalmente sabido. São RÃS.

  6. Ezequiel diz:

    E, perdoem-me a impertinencia do perdigoto, a tese das humanidades (no plural) aplica-se também ao “virar da esquina”…Eu, por exemplo, não percebo o cara de cú do meu vizinho, nem o meu tio Venceslau, nem a minha prima Julia…

  7. Ezequiel diz:

    Bolas, quase que me esquecia:

    Caro João,

    Gostaria que me explicasses como é que Adorno está mais proximo do Heidie do que pensava? Estou curioso.
    Cumprimentos, z

  8. Ezequiel diz:

    Meus caros António e João,
    Um post e comments muito interessantes. Ontem tentei escrever alguma coisa de inteligivel mas não consegui suprimir o meu infantilismo prolongado.

    1- a questão que o António coloca contraria uma evidencia empirica: a da simultaneidade da universalidade e da pluralidade-diferença. Se adoptarmos a perspectiva da ciencia cognitiva ou da genética (ou do comportamento animal) etc, descobrimos, inevitavelmente, uma natureza humana comum. Logo, a interrogação dicotomica entre o universalismo puro ou a diferença pura é um non sequitur.

    2-Na minha opinião, o relativismo ético não surge necessariamente da constatação da diferença cultural. Surge da propria sensibilidade-deliberação ética, ou seja, a um nivel ainda mais elementar e não menos importante do que a objectivicação “diferença cultural.” É evidente que é ao nivel das diferenças entre culturas que o relativismo ético pode ser mais amplamente discernido e projectado. Mas esta objectivicação de cultura é uma manobra perigosa. Existem impulsos universalistas em qq cultura, de expressividade (i.e Taylor), de hospitalidade. O propria acto e possibilidade de interpretação de uma cultura radicalmente diferente valida a presença de algo universal (que, note-se, não se pode reduzir a uma capacidade cognitiva comum à lá kant…é mais do que isto…pq não se trata apenar de interpretar sentidos mas de compreender e explicar praticas)

    3- A tese de rorty aqui apresentada é tipicamente superficial porque pressupoe um modelo causal simplista (aliás, outra coisa não seria de esperar de Rorty): “Somos aquilo que a cultura faz de nós”

    Bolas, tenho que ir.
    cumprimentos, z

  9. Ezequiel diz:

    apesar de Rorty estar a falar de acculturation, um conceito que reserva algum espaço de manobra para o sujeito, o verdadeiro sentido é o da constituição-determinação do sujeito pela cultura. Há poucos dias disseram-me o seguinte. Um amigo de um amigo visitou a sua antiga republica em Coimbra, a rás-te-parta. Ficou chocado ao constatar que nenhum dos membros da républica conheciam a historia do ras te parta. Ora, como é que, neste caso, podemos falar em “acculturation” quando os “seres interpretativos” são ignorantes?? Ou seja, percebemos que acculturation é um processo mt mais complexo do que uma simples imersão numa corrente histórica.
    tou compressa, z

  10. Ezequiel diz:

    e tb não compreendo como é que o etnocentrismo de Rorty é compativel com a constituição ironica de novos vocabulários pelo sujeito..pelos vistos os vocabs estão condicionados??? Talvez o João possa explicar isto.

  11. teresa diz:

    Creio que a fórmula de Rorty é um tanto redutora. A aculturação é certamente um factor importante no desenvolvimento do EU, e na definição da personalidade do sujeito humano, mas não é tudo.
    Cada sujeito tem em si algo que o individualiza, que o torna capaz de pensar, que o faz, enfim, um ser distinto dos outros.
    Aceitar, pura e simplesmente, que o sujeito é determinado pela aculturação, é o mesmo que dizermos que a sociedade exerce sobre nós uma coação absoluta, da qual não temos capacidade para fugir.
    É lógico que o ambiente que nos rodeia nos influencia, mas pode também levar-nos à indignação e à revolta.
    Caso assim não fosse, era impossível pensarmos em evolução da Humanidade.
    (Caro Ezequiel: Custa-me saber que hoje, em Coimbra, as republicas perderam importância. Quando antes havia um elo entre toda a malta que por lá passava, em tempos e com idades diferentes, hoje nem se conhece a história da republica de que se é membro…)

  12. Ezequiel diz:

    Cara Teresa,

    Estava com mt pressa para ir trabalhar. Não sou grande admirador dos poucos argumentos que conheço do Rorty. A relação da verdade que ele transforma em arbitrariedade literária é simplista e superificial. O mesmo se aplica a Baudrillard e todos os que negam a importancia da verdade como relação primordial. O João saberá, certamente, explicar isto melhor do que eu. O Rorty tb acredita na capacidade criativa ou auto-ironica do sujeito-individuo. No Ironia, contigencia e solidariedade (livro) ele invoca esta capacidade criativa que se manifesta na “inventação de novos vocabulários” bla bla bla. Não me lembro bem dos detalhes destas teses sinuosas. Não durmo há dois dias. Estou mt cansado. Nem consigo pensar direito.

    qt a ras te parta: com o devido respeito, eu não disse que as reps já nao teem qq imptcia. Pelo que me dizem, continuam a ser mt impts. Só estive em coimbra 1 vez e fiquei na 1 de maio. O que o amigo do meu primo diz é que os ocupantes de hoje são mais yuppies futuristas do que revolucionarios nostalgicos…”presos” pela memoria e pelos rituais, ao passado destas mini-comunas..este amigo visitou a rasteparta e sofreu um trauma…” perderam a memoria historica” disse-me ele…às tantas tiraram a fotografia dele das paredes e ele ficou chocado eh ehe he e e (estou a brincar…com a minha sorte… um dos membros da rtparta lê este bloge e fica ofendido…bem, se ficar, bordamerda)
    Gotta go to sleep Teresa!

    ps: Stanley Cavell is far more interesting than Rorty

    night night lullaby, beijin, z

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