Muito, pouco e muito pouco

No ano 2000, nos 250 anos da morte de Bach, a prestimosa editora discográfica “Teldec” preparou uma edição integral das obras do artista que tinha a forma de uma malinha com 153 discos dentro. Confesso que o meu interesse por Bach não vai ao ponto de suportar uma dieta musical composta apenas pela audição das suas obras, e que a visão de tanta abundância, perversamente, provocou em mim um tal enjoo que só há pouco tempo consegui interessar-me a sério por Bach outra vez. Quem comprará aqueles baús de música? Assinantes prováveis das colecções “Philae”, que eu aposto que, na sua esmagadora maioria, não ouvem, num prazo razoável, mais de um décimo dos CD’s que levaram para casa. Pelo contrário, quem leva para sua casa os DVD’s profusamente anunciados dos “Gatos Fedorentos” não se confronta com o problema de conseguir ouvir, uma vez que seja, todos os discos que compra, mas com o de ver muitas vezes um ou dois DVD’s; onde antes havia um problema de consumo “extensivo”, por assim dizer, há agora um problema, a meu ver muito mais agudo, de consumo intensivo. Com efeito, para rentabilizar a operação que fizeram, os compradores dos DVD’s dos “Gatos Fedorentos” deverão vê-los muitas vezes, e rir-se muitas vezes também de todas as suas piadas. Haverá piada que aguente este regime? A mim, a coisa toda parece-me triste. 

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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