Na cova dos lobos

[do Blitz de novembro]

Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de falar de tais coisas, que são para ele demasiado pessoais, mas que no entanto pode aproveitar para citar um provérbio húngaro. E o provérbio diz assim: “na cova dos lobos não há ateus”.

Houve ali qualquer coisa que me deixou desconfiado. Não digo na religiosidade de Lobo Antunes, de que não vou falar uma vez que o próprio não gosta de falar dela. Mas no provérbio húngaro. Naquela ideia de que, quando colocados perante uma situação de vida ou de morte, um ateu manda a sua filosofia às urtigas e, em vez de fugir dali a sete pés, chega à conclusão de que o universo foi criado por (digamos) um senhor de barbas. É uma ideia talvez rebuscada demais, a deste provérbio húngaro, embora a culpa não seja dos húngaros nem da língua húngara, esse mistério.

Há outras versões, entre as quais uma anglo-saxónica, que diz “não há ateus em trincheiras”, embora a origem talvez seja comum, porque “trincheira” em inglês americano é foxhole, buraco de raposa. E, de novo, é uma ideia esquisita, essa de os ateus não se meterem em trincheiras, e portanto supostamente não estarem interessados na segurança dos seus compatriotas. É como quem diz, mais uma vez, numa questão de guerra ou de paz, é melhor não teres um ateu ao teu lado mas antes um gajo que acredita na vida eterna. Não só há aqui qualquer coisa que não cola, como a história também não encaixa: nesse caso, porque deram os anarquistas tanta luta na Guerra Civil de Espanha? E porque foi uma brigada deles a primeira a entrar em Paris, a seguir à libertação?

***

Mas o que verdadeiramente me chamou a atenção, no fim de contas, é que aquela frase — ou aquele tipo de frase — era algo que eu aqui há tempos seria capaz de dizer. Lembrou-me de mim, aqui há anos, falando com amigos religiosos, e explicando-lhes como eu não era religioso, mas que também me sentia capaz de “sentir” a espiritualidade. Ou que não tinha fé mas que gostaria de ter. Ou — como no provérbio húngaro — que talvez não tivesse fé porque nunca tinha passado por uma situação que me levasse “a esse caminho” (não era bem verdade, e o estilo também não era o melhor). Ou ainda — coisa que o provérbio húngaro também sugere — que no fundo todos precisamos de acreditar em alguma coisa, talvez até todos nas mesmas coisas.

Que enorme disparate. Mas era a minha maneira de ser simpático e compensar o ar desconsolado de quem me perguntava se eu não tinha fé. E nessas ocasiões em que nos fazem sentir que temos qualquer coisa a menos, a tendência de qualquer um é dizer “não tenho olfacto, mas a minha audição é bastante apurada”. Demora alguns anos até se conseguir dizer: “não tenho olfacto, e ainda bem, isso evita-me alguns embaraços”. E demora ainda mais alguns anos até se dizer “não olhe para mim como se eu tivesse qualquer coisa a menos, a fé não é como o olfacto, já muita sorte é quando não é como a congestão nasal”.

Mais uma vez, os anglo-saxónicos são especialmente sacanas na maneira como tratam os descrentes. Para além de lançaram o boato de que eles são maus companheiros de trincheira, chamam-lhes “godless” como quem lhes chama órfãos (“fatherless”) ou zarolhos (“eyeless”). O nome é quase ofensivo e em particular os ateus americanos fazem tudo o que podem para lhe escapar, inclusive inventar novos nomes para se designarem (o último foi “brights”). Compreendo a preocupação, porque a história nos diz que é mais fácil o eleitorado dos EUA eleger um mentiroso irresponsável para a Casa Branca do que qualquer “godless”. Mas acho que, como em tantos insultos, o melhor seria assumi-lo com orgulho. E agora vou contar-vos uma coisa que se passou comigo.

***

Um dia, preso dentro do carro num engarrafamento, olhando para o céu cor-de-laranja do fim da tarde e os bandos de estorninhos em frente à ponte sobre o Tejo, deixei vaguear os pensamentos até pessoas minhas conhecidas que acreditam na vida eterna. Ora, a vida eterna é um desafio difícil. Mais difícil do que Deus. No mundo que temos, quase não se dá pela diferença de Deus existir ou não. Mas quem não gostaria da vida eterna?

Aliás, é pela vida eterna que a religião melhor nos pega. Blaise Pascal, matemático do século XVII e um dos homens mais inteligente de sempre, percebeu-o quando imaginou a experiência a que chamamos a “aposta pascaliana”. A aposta é simples: se eu achar que Deus não existe, e ele existir, perco; se eu acreditar em Deus e ele não existir, também perco; mas se eu acreditar em Deus e ele existir, ganho a vida eterna. Dito assim, que mal me faz acreditar mesmo que as hipóteses de ganhar sejam ínfimas? Blaise Pascal respondeu à pergunta largando a matemática e entrando num convento, o que prova que os homens, por mais inteligentes que sejam, não se devem meter em apostas.

Ninguém de bom senso apostaria a sua casa, se tivesse uma só. Apostar a vida num convento, na hipótese de ganhar uma vida eterna, é como apostar a nossa única casa, na hipótese de ganhar um palácio. Ganhar um palácio seria excelente, mas o mais certo é ficarmos sem nada.

De caminho, isto ajudou-me a perceber porque razão andam infelizes muitas das pessoas que eu conheço e que acreditam na vida eterna. Se temos a vida eterna, podemos desperdiçar esta com queixinhas e queixumes (até porque se diz que as queixinhas e os queixumes pesam na hora de ganhar a vida eterna). Se não se acreditar na vida eterna, as queixinhas e o queixumes são piores do que uma perda de tempo. São uma perda de vida. E foi assim que o semáforo abriu e eu disse baixinho para mim: “só tenho uma vida”, e sorrindo, “só tenho uma vida, é óptimo, é a melhor notícia que me podiam dar”.

E antes que alguém note que isto se parece com uma experiência religiosa (os religiosos, quando um ateu fala da sua filosofia, gostam de vingar-se dizendo que, afinal, “parece um religião”), devo dizer que, apesar do pôr-do-Sol e dos passarinhos, não senti esta conclusão como uma experiência religiosa. Foi mais como se me dissessem que este ano não preciso de pagar os impostos. Ou que é feriado e não preciso de me levantar da cama. Foi mais assim: olha, não há vida eterna, menos uma coisa com que me preocupar.

***

Em tempos gostei de citar Umberto Eco e dizer: “sou um optimista trágico”, ou seja, alguém que é um optimista a longo prazo mas um pessimista no imediato. Vocês sabem: alguém que acha que vai haver guerras e sofrimento, mortandades terríveis, mas que a humanidade vai sair delas mais sábia. No fim do caminho, a capacidade dos humanos para a linguagem, para conversarem e se entenderem, levará finalmente a melhor.

Hoje vejo como estava errado. O optimismo a longo prazo não faz sentido. É a curto prazo que há razões para optimismo, ou melhor, uma grande razão que contém todas as outras. A curto prazo, estaremos vivos. A curto prazo só faz sentido ser optimista: acredito que estarei vivo durante os próximos dias. A longo prazo, há uma grande razão para pessimismo e uma enorme probabilidade de não estarmos vivos.

Aliás, é por isso que, na cova dos lobos, raras ou nenhumas são as pessoas que se deixam ficar rezando à espera que os lobos se decidam. Deixem cair um suicida, um crente na vida eterna e uma pessoa altamente espiritualizada na cova dos lobos, e vejam se eles não gritam, não esperneiam e não correm o mais que podem. É que, na cova dos lobos, ninguém se lembra de provérbios húngaros nem fica à espera da salvação. Na cova dos lobos, só há ateus.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

26 respostas a Na cova dos lobos

  1. Gonçalo Leite Velho diz:

    Não sei porquê isto lembra-me o Zizek (2001). Não pelo facto da crónica do Rui estar de acordo com o que o Zizek diz, mas mais por revelar esse aparente lado interno e pessoal da crença que se apresenta numa dada forma de ateísmo. Parece quase inócua, ou seja o ateísmo como não-crença, numa diferença face ao outro mas que provém do interior do ser (uma espécie de: “pensando para os meus botões acredito que…”).
    Mas não é somente interior pois não? Ela afinal vem de um quadro mais alargado. Porque não reconhecer isso? Porquê ceder ao jogo da crença como algo que pertence à intimidade de cada um?

    Zizek, S. (2001) On Belief. London:Routledge

  2. Manel diz:

    Um post absolutamente “bright”, em todos os sentidos da palavra.

  3. teresa diz:

    Sem querer tomar qualquer posição sobre a questão do ateismo, apenas gostaria de deixar um comentário sobre o provérbio hungaro que referiu: tal expressão popular significa, unicamente, que, numa situação de aflição, e esgotados os meios humanos de salvamento, qualquer um recorre a meios (sobre)naturais para livrar a sua pele, nada mais. Se isso é verdade ou não, cada um é que saberá…
    Quanto ao resto, e estender a interpertação à ideia de que o ateu é mau companheiro em determinadas circunstâncias, é demasiado extensivo, ou mesmo fora das margens do ditame popular.

  4. Seven Van diz:

    Brilhante, genial,… não há adjectivos capazes para tanto brilhantismo.

  5. João Miguel Almeida diz:

    Um texto brilhante, como de costume. Mas não concordo com essa interpretação dos provérbios húngaros e ingleses de que «os ateus são maus companheiros de trincheira». Não creio que o provérbio diga respeito às reacções dos outros, mas à reacção de um «eu» numa situação em que não pode fazer nada para se safar numa situação e tem de acreditar em alguma coisa para não sucumbir ao medo. Não necessariamente em Deus, no sentido teológico rigoroso, mas em algum tipo de protecção sobrenatural.
    Já agora também há crentes que dizem: «fia-te na virgem e não corras». A questão é que na «cova dos lobos» não se pode fugir para lado nenhum. A análise dos provérbios é complicada. A Espanha é dos países mais católicos do mundo e também aquele com maior quantidade de expressões blasfemas.
    Quanto à questão da eternidade, os ateus agora também possuem a sua hipótese: é ler «A Possibilidade de uma ilha» de Houllebecq. Gostei do romance, mas porque não estava em fase de precisar de me animar.

  6. Francis Seleck diz:

    Gostei de ler!

  7. Tiago Franco diz:

    O testemunho do Rui parece-me a mim uma experiência de conversão. Há um antes e um depois, e vejo que se sente francamente melhor durante o depois. Claro que um ateu também é um religioso da sua própria religião. Com os últimos estudos da psicologia (que tanto corroem os religiosos), não sei como é que ainda há dúvidas nisso. Mas diferente disso é acreditar em Deus, com a mesma certeza prática de que um estalo na cara aleija.

    Quanto ao provérbio, e como não podia deixar de ser, ambas a interpretações estão mal. Na cova dos lobos, descobrem-se quem são os ateus e os crentes. Acho que não vale a pena estar a lembrar aqui a quantidade de crentes que morreram crentes à boca dos leões no circo romano (que me parece a mim uma experiência bastante próxima de estar encurralado numa cova de lobos, com o extra de também haverem lobos na assistência).

    Cumprimentos

  8. Obrigado a todos pelos comentários. Vou (pelo menos por agora) responder apenas a este do Tiago a quem parece que este post descreve uma experiência de conversão. Fé, crença, conversão… Parece-me um canhão de uma palavra para acertar num mosquito de uma experiência. Será conversão um gajo que já não acreditava na vida eterna ter chegado à conclusão que não só a vida eterna não existia como até era mais simpático ela não existir? Como digo no texto, não foi assim que me pareceu na altura… e, apesar de tudo, sei reconhecer experiências mais próximas da conversão (o apaixonar-se, o adoptar uma causa, etc.).

    Em termos gerais, creio que querer definir a não-crença como uma espécie de crença é um equívoco. Nele caem com naturalidade as pessoas religiosas (porque têm tendência a ver a realidade através do prisma que é o seu), mas é muito comum em muitas descrições que as pessoas fazem do agnosticismo, etc. Diz-se, por exemplo, que fulano tem “fé” no ateísmo, que afinal a sua “crença na dúvida” é uma crença como qualquer outra, por aí adiante.

    Cada um usa as palavras que quer. Simplesmente, parece-me tão desadequado falar de “fé”, “crença” ou “conversão” forçosamente a propósito de qualquer reflexão ou experiência filosófica, como um crítico de arte que só usasse categorias da crítica de arte para tudo, da política ao sexo e à ciência.

    Vou dar o exemplo, partindo do princípio que o Tiago não acredita em Astarte. A sua não-crença em Astarte será uma espécie de fé? É você um crente fervoroso na não-crença em Astarte? Parece-me mais provável que não acredite nela, ponto final. Agora suponhamos que o Tiago não sabia da existência de Astarte, nem que se tratava de uma deusa fenício-babilónica. Imagine-se que toma conhecimento do mito de Astarte, e que nem lhe passa pela cabeça que ele possa ser real, e que muito menos possa sequer considerar em devotar-se a Astarte, e até que sinta um certo alívio por não andar a carregar com crenças semelhantes na sua vida. Poderia então eu dizer que o Tiago passou por uma experiência de conversão à não-crença em Astarte? Que há nitidamente um antes e um depois na sua história, e que se sente francamente melhor depois de não-acreditar em Astarte?

    Pode chamar-lhe “conversão”, se quiser. Eu acho que até “desconversão” estaria longe de ser adequado. Você simplesmente nunca acreditou em Astarte, e apenas se lembrou de que estava bem sem acreditar. Houve um antes e um depois? Claro. Há sempre um antes e um depois em qualquer história.

  9. luisatoda diz:

    Ó Rui, olha que o (nosso )amigo Lobo Antunes até terá a sua razão: se não houvesse uma vida para lá desta…com Deus…que sentido teria toda esta trapalhada toda?…seria a dúvida permanente, a insegurança, a desconfiança, uma injustiça, a solidão…etc. etc…

  10. António Figueira diz:

    E porque é que esta trapalhada toda há-de ter um sentido? Antes a dúvida permanente que a falsa certeza.

  11. Muito bem dito: “Antes a dúvida permanente que a falsa certeza.”
    Afinal só assim nasce a verdadeira tolerânçia.

  12. Manel diz:

    O que eu acho mais engraçado no ser humano, com todas as evidências de que é apenas um macaco evoluído [apenas, é como quem diz, que não é nada pouco], é a sua tendência para a presunção de que a sua vida tem de ter um sentido que o transcenda, de que a sua consciência não é mero resultado de uma evolução e que, por conseguinte, há algo para lá da morte que o espera. É, para mim, uma coisa muito pouco religiosa, pois insiste em colocar-nos num patamar diferente dos outros seres vivos e sobretudo dos outros animais – quando o que nos distingue é esta consciência [este enorme e misterioso cérebro] que nos torna tão doloroso acreditar que a morte seja o seu fim. Não será o fim da matéria nem da energia, mas isso não são evangelhos, é Lavoisier. É pena, penso eu, que a palavra religião esteja tão longe da noção de religação e tão colada ao antropomorfismo, a deuses feitos à imagem do homem. A religação está toda nas palavras do George Harrison: “and to see you’re really only very small and life flows on within you and without you”. Estamos sós, mas estamos todos sós, donde não estarmos sós; somos a diferença e a indiferença, insubstituíveis e ignoráveis. Eu cá sou uma ateia muito religiosa, essa é que é essa. E absolutamente pagã.

  13. teresa diz:

    Porque é que o sentido do que aqui vivemos haveria de ser um outro mundo, uma outra vida?
    Se esse fosse o sentido da vida, a vida não teria qualquer sentido!
    O sentido da vida é aquilo que cada um de nós faz no dia-a-dia.
    Se tivermos em conta o tempo, contabilizado no nosso relógio de pulso (visto apenas na óptica de um individuo) 1 hora pode ser muito tempo, 1 mês é ainda mais, claro, e então 1 ano, 1 vida…). Mas se contabilizarmos o tempo pelo relógio Universal, descobrimos que milhares de anos-luz são apenas uma fracção de segundo.
    Ou seja, somos tão pequeninos… tão insignificantes… e tão pretensiosos.
    Eu/Deus – Eu/Ser Superior – Eu/Insubstituível.
    O sentido da vida deve ser a evolução do indivíduo como pessoa – p. ex. fazer bem aos outros AQUI -, e a consequente evolução da humanidade.
    Pensarmos que o sentido da vida é uma outra vida que vai haver não sei aonde, porque não sei o quê, é uma perda de tempo e um desperdício da vida que temos, que é esta, aqui e agora, e nem sequer sabemos por quanto tempo.

  14. Manel diz:

    Assino em baixo, Teresa.

  15. Eu que já me tinha deliciado com o artigo (e o seu engenho), sem concordar com o remate natural para um ateu de que é melhor não existir vida eterna (sou católico, sim), apenas assinalo para debate que o ateu não terá “crença” nem “fé” na sua não-crença. Mas há ateísmos (os -ismos) que se publicam diariamente numa versão crente da sua única verdade, numa versão intolerante das fogueiras inquisitoriais, sem pingo de vontade em dialogar. A minha “falsa certeza”, como escreve o António Figueira”, constrói-se, se calhar, mais de (ou, pelo menos, tantas) dúvidas permanentes que a sua certeza na permanente dúvida.

  16. António Figueira diz:

    Caro Miguel,
    Perdoe-me que o contradiga, mas a “falsa certeza” a que eu me referia não era (necessariamente) a sua; eu referia-me a um comentário anterior, em que alguém justificava Deus com a necessidade de dar um sentido à existência – posição que me parece, por um lado pouco corajosa (porque se recusa a enfrentar a provável ausência de sentido dessa mesma existência), e por outro, como creio que foi o assinado Manel (mas que escreve no feminino?!) que já disse, extremamente presumida. Pessoalmente, parece-me muito mais crível que o homem tenha criado Deus do que o contrário, mas nem sequer me passa pela cabeça tentar fazer proselitismo…
    Cordialmente, AF

  17. luisatoda diz:

    Antes de mais, parabéns ao Rui. É delicioso ler e segui-lo no seu escrito. Não sou filósofo, mas todos temos a nossa filosofia, pelo menos, enquanto não enlouquecermos. por isso, ao António figueira e ao André vejo-os a viajar , dentro dum comboio muito engatilhado de dúvidas, e seguem descansados, satisfeitos, sem saberem donde vem e para onde vai o comboio…Ainda não descarrilou…enquanto puderem mudar de carruagem…se algum companheiro os chatearem demais…e lá vão, saciados com o ouvirem “pouca terra…pouca terra…uhh!..Uhh…” Mas será assim? Lá bem no fundo? Quando todo mundo dorme e não vem o sono?…Para onde é que esta droga segue?…O revisor, mesmo que saia a meio, deve saber…e lá vai uma olhadela pela janela a ver se alcança o nome duma terrinha ou estação…
    Nadsa mau.

  18. Obrigado pelo esclarecimento, António. Retiro-lhe qualquer remoque a si, e mantenho a frase para muitos que, como defendo, fazem do ateísmo uma versão crente de verdade única. De resto, de acordo: longe de mim, também querer fazer proselitismo com quem quer que seja.

  19. Tiago Franco diz:

    Caro Rui

    A maior parte do meu parágrafo ser só a reinar consigo, e com o estereótipo de espiritualidade e religiosidade que a grande maioria tem. Daí que tenha usado a expressão “experiência de conversão”. E como você usou os passarinhos e o cenário (bem sei, a reinar connosco, os religiosos). Não leve a sério.

    A única coisa que disse com convicção foi o segundo parágrafo, que ainda acho que vence a sua interpretação e a do Lobo Antunes juntas. A ideia é: “se querem interpretar e tirar conclusões sobre a crença dos homens em Deus com base em situações extremas de adrenalina e irreflexão existencial, então interpretem lá isto”.

    Ah, e quanto aos que acham que os religiosos se sobrevalorizam por esperarem a vida eterna, olhem que pelo menos o livro dos cristãos não nos enche o ego por aí além.

    Ahh, e sobre as dúvidas. O religioso tem a certeza que tem dúvidas, porque obediência ao seu deus. Está inerente ao valor do respeito e do amor. E nós temos um livro para interpretar, já os ateus têm-se a eles mesmos. Estão muito mais no direito de decidir não ter dúvidas.

    Ahhh, neste tenho de bater: “Em termos gerais, creio que querer definir a não-crença como uma espécie de crença é um equívoco. Nele caem com naturalidade as pessoas religiosas (porque têm tendência a ver a realidade através do prisma que é o seu)”

    Isto não é equívoco coisa nenhuma. Digo-o eu, português que frequentou o ensino português, e cristão que creceu em família protestante. Não queira falar de prismas a religiosos europeus, não se esqueça que eles aprenderam a bíblia e o Darwin, enquanto que os outros só se ficam pelo segundo. Acho que nestas circunstâncias, fica bem claro quem é que está mais habilitado para falar sobre os prismas dos outros e ser compreensivo com eles.
    Mais, se antigamente os cientistas riam-se do Darwin, e agora toda a gente se ri dos religiosos, tenho boas razões para concluir que a “razão instantânea” está do lado de quem não se ri (não que o Rui se tenha “rido”; mas a condescencência na análise do outro prisma faz-me logo lembrar angústias passadas (é reflexo condicionado com certeza)). Porque a história repete-se, não é?

  20. luisatoda diz:

    Ao Manel, diria apenas que me custa acreditar que te contentes com a ideia de que o homem é apenas um (animal) macaco mais evoluido, que a aquilo que nós aceitamos ter como “consciência”, seja fruto de uma evolução, de algo, a partir da arquitectura, cerebral, ou lá o que seja, do macaco. ´Custa-me crer que admitas não existir um fosso enorme, de carácter qualitativo, entre o homem e o macaco, que, em nós tudo se reduza ao mensurável, logo sujeito á lei de Lavoisier…Não lhe chamemos religião ou outro nome que é costume dar a essa dimensão, evidentemente meta-macacoide…que nos avassala, a partir de muito dentro de nós. Se a situarmos no campo meramente macacóide, aí, sim, é que surgem todas as interrogações e dúvidas, sem resposta, caímos no círculo fechado e asfixiado, descrito nas palavras do George Harrison…que citaste, no qual seríamos umas baratas tontas…à procura da saída. Quando, afinal, a realidade é bem mais simples…
    Basta que, humildemente,
    – deixemos de aceitar que não somos só macacos…
    – que a nossa inteligência é muito mais do que energia…é outra coisa;
    – que tudo que nos rodeia e que nós dominamos, até certo ponto, sempre inesgotável, embora não eterno, não é obra do acaso…
    O resto virá por acréscimo…

  21. Manel diz:

    Com perdão da franqueza, luísa, mas humildade é o que não encontro nas suas palavras, ou deveria dizer, nas suas directrizes. E na ideia de que não somos meros animais cuja evolução atirou para outros patamares de percepção e entendimento – ao mesmo tempo que baralhou alguns instintos e capacidades animais -, encontro também muito pouca humildade de espécie, chamemos-lhe assim. O seu comentário é em si mesmo um exemplo dessa presunção da “fé”, que para mim tem pouco de religioso e muito de conforto fácil. E acho graça à imagem da barata tonta: pois que outra melhor pode descrever o ser humano e estas múltiplas sociedades auto-destrutivas que temos o condão de produzir, nos mais diversos graus do relacionamento humano, e tantas vezes com a benção de igrejas diversas?

    Caro António, as aparências iludem. 😉

  22. António Figueira diz:

    Caro/a Manel,
    Rien contre! (a cada um(a) as suas escolhas)
    Cordialmente, António

  23. Manel diz:

    E tenho aqui de defender a minha dama betleana: as palavras do Harrison são de uma beleza, de uma clareza, de uma religiosidade e de uma humildade extraordinárias. Disse.

  24. É pena que ainda se confunda Deus, com religião, com igreja católica, com fé…há que saber distinguir conceitos!
    É um excelente artigo mas talvez generalize o que não deve ser generealizado.Mas a verdade é que também já fui assim…por isso consigo compreender.
    Se os seus amigos que “acreditam na vida eterna” a passam constantemente em lamúrias então devo dizer que tenho muita pena por eles…A vida eterna é esta que vivemos agora!Eternidade não tem de ser medida em segundos,horas ou séculos!Se não formos capazes de acordar para a simplicidade e riqueza do mundo e da vida que temos então nunca viveremos verdadeiramente e bem podemos esquecer ideias de eternidade!
    Quanto ao seu “pessimismo”, compreendo porque também fui assim!Valerá mesmo a pena?!
    Realmente parece que quem passou por uma conversão fui eu…e que importa isso?”Conversão” é só mais uma palavra e não é em palavras que baseio a minha existência!

    Quanto aos vários comentários apenas quero acrescentar:
    1-Deus não foi criado pelo Homem, nem este foi criado por Deus!A grande questão não é saber quem pôs o ovo!!
    A verdade é que Cada Homem É Deus independentemente do seu tamanho, e isso é prova suficiente!

    2-Para quê a “dúvida permanente”?Para quê “a certeza absoluta”?Não quero insultar ninguém mas estes termos são rídiculos!Saibam responder a esta pergunta:
    Tenho a Necessidade de Amar e (ainda mais) de Viver (e/ou ser Feliz se assim se quiser entender)??
    Sim? Então que se calem as perguntas,que se calem as certezas, porque esta é a maior de todas!
    Calem-se e Vivam!

    « Os mitos trazem os deuses à terra a fazer de homens. Os sonhos levam os homens ao Céu a fazer de anjos. Mas o Espírito de Amor – e só Ele – enche de tal modo o homem, que faz dele alguém verdadeiramente humano. E humano, mesmo humano em tudo, só se for divino… »

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