Pesadelo Cego

Enquanto o mundo se assarapantava com o linchamento de Saddam, no Japão foram enforcados, no dia de Natal, 4 prisioneiros. Os japoneses comemoram o Natal americano, note-se.

A pena capital aplicada a esses homens não teve, obviamente, o mediatismo da forca do antigo presidente iraquiano. Não se tratava da execução de um ditador famoso – embora em breve venha a ser, como referirei adiante – mas mesmo que fosse, a probabilidade de algo semelhante suceder seria ínfima. Explico. No Japão, a pena de morte assume contornos igualmente bárbaros. Mas envoltos num secretismo – e sadismo – rigorosos. Para quem quer saber mais, fica o link para o relatório da Amnistia Internacional. Para quem se contenta com o resumo: o governo proíbe a informação sobre a pena de morte. As execuções são levadas a cabo em segredo. O prisioneiro que se encontra à espera de ser dependurado nunca sabe quando vai morrer. Nunca lhe é dada uma data. Só sabem na hora da morte. Entretanto, com apelos e recursos, podem ter decorrido anos. Lentos, deveras lentos, já que vividos em solitária e com contacto humano e exercício físico esporádicos. Muitos, vivendo assim no fio, acabam por enlouquecer ou por se suicidar. Quando sobrevivem ao isolamento e a esta tortura, são enforcados. As famílias só são notificadas depois da morte.

É pouco provável, portanto, que um telemóvel filme uma execução nipónica. A notícia dada pelo Público relativamente à nova vaga de condenações à morte no Japão, por exemplo, foi dada no dia 31 de Dezembro – no mesmo jornal que relatava a morte de Saddam – e era apenas um pequeno, pequeníssimo texto. Contudo, dava conta de um dado muito importante. Em 2006 o Japão bateu o seu recorde de condenações à morte. 44 pessoas foram enforcadas e outras 21 penas capitais ficaram prontas a serem executadas. Aliás, este o número que tem vindo em crescendo e rivaliza com os números do Texas. Entre estas 21 está- ou estará -o enforcamento de Shoko Asahara, o líder da seita Aum Shinrikyo (Verdade Suprema), que perpetrou o ataque com gás sarin no metro de Tóquio, em 1995. Sem dúvida, um dos mais conhecidos ataques terroristas contemporâneos. Que marcou, indelevelmente, a sociedade japonesa. Há 12 anos podíamos não percebê-lo com clareza. Hoje, devemos entender um pouco melhor.

A reacção dos japoneses a esta brutal ofensiva foi tão veemente que fez ressurgir a pena de morte. Embora esta ignomínia exista no Japão desde 1948 (a constituição japonesa promulgada em 1946, durante a ocupação norte-americana, excluía a pena capital – ainda que os ocupantes se ocupassem de, entretanto, ir enforcando japoneses – mas em 1948, o Supremo Tribunal Japonês reviu essa posição), a sua aplicação foi “suspensa” nos anos 80. Realmente, o mais importante factor para o regresso da pena capital foi o abalo profundo que a sociedade nipónica viveu em Março de 1995.

Vale a pena sublinhar que, contudo, desde os anos 50 que as sondagens revelam que a larga maioria dos japoneses apoia a pena de morte. A mais recente sondagem indicava que 80% são a favor. Não que isso justifique que os governos mantenham a pena capital. Apenas indica que – tal como com o caso de Asahara – os políticos nipónicos não se dispõe a contrariar, neste capítulo, o povo. Porém, em todo o mundo, várias foram as ocasiões em que a pena de morte foi abolida desagradando a opinião pública. Em França, foi por decreto – de Miterrand – e contra a opinião da maioria dos franceses. A Polónia acabou com a pena capital em 1997, embora as sondagens mostrassem que 60% dos polacos a defendiam.

Haruki Murakami, o famoso escritor japonês – na verdade, no Japão, Murakami é mais do que um célebre escritor. É um guru. – compôs Underground – O atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa (recentemente editado em Portugal). Aí colige as dezenas de entrevistas que realizou a vítimas do atentado com sarin e as entrevistas que realizou a alguns elementos da Aum. Se ler os comentários de Murakami é sentir uma estranha proximidade com o mundo ocidental de hoje– o terrorismo, as leis depois do terrorismo, o terrorismo mediatizado, a pobre dicotomia nós-outros etc.-  ler as entrevistas de ambos os lados, tanto permite perceber um pouco melhor a tal mentalidade nipónica, quanto questionar – não sem dor – a oposição Bem-Mal.

O objectivo de Murakami foi o de, segundo ele próprio: “afastar-se das fórmulas: reconhecer que cada uma das pessoas que estavam no metro, naquela manhã, tinham uma cara, uma vida, uma família, esperanças e medos, contradições e dilemas”. Um contraponto à narrativa saturada oferecida, insistentemente, pelos media que não apenas focavam bem mais a seita do que as vítimas, como simplificavam com ligeireza, os primeiros: “A intenção era provavelmente a de criar uma imagem colectiva do japonês inocente, em sofrimento, o que é muito mais facilmente conseguido quando não se tem que lidar com pessoas reais”. Lê-se e pensa-se: “Onde é que eu já vi isto?”.

Enfim… Logo na primeira entrevista a uma hospedeira, vítima do ataque no metro, lê-se o seguinte: “Havia pessoas a espumar da boca, no sítio onde estávamos, em frente do Ministério do Comércio e Indústria. Essa metade da rua era um verdadeiro inferno. Mas do outro lado, as pessoas iam para o trabalho como de costume. Eu estava a cuidar das pessoas e quando me voltava via os transeuntes a olhar na minha direcção. Mas nenhum deles atravessou a rua até ao nosso lado. Era como existíssemos num mundo à parte. Ninguém parou. Havia alguns guardas mesmo à nossa frente, junto do portão do Ministério. E deste lado, lá estávamos nós, com três pessoas estendidas no chão, esperando desesperadamente por uma ambulância, que demorou muito, muito tempo a chegar. No entanto, ninguém do Ministério foi pedir ajuda. Nem sequer nos chamaram um táxi. Eram 8:10 quando colocaram o sarin, o que dá mais de uma hora e meia até a ambulância chegar. Durante todo esse tempo, as pessoas deixaram-nos ali. De vez em quando, a televisão mostrava o senhor Takahashi morto, estendido com uma colher na boca, mas foi tudo.”

Rigidez e frieza? Sim, claro. Mas costumes, também. Numa carta redigida no princípio do século, Lafcadio Hearn descrevia assim a guerra que então se travava com a Rússia “No começo das hostilidades, foi emitido um mandato imperial, determinando que todos os não combatentes executassem como habitualmente as suas ocupações, e que se inquietassem tão pouco quanto possível e esse despacho foi obedecido à letra. (…) Vista de fora, a vida de Tóquio parece ter sido menos afectada pelos eventos da guerra do que pela vida da natureza que a circunda.”

O oligofrénico exercício de opostos que foi desempenhado pelos media aquando do sarin no metro– bem-mal; sanidade-loucura; saúde-doença – fez o seu caminho na rua japonesa. O “feitiço lançado por estas frases é quase impossível de quebrar, já que todo o vocabulário de Nós versus Eles tem uma tão grande carga emotiva”. Chocados com a brutalidade da seita, os japoneses colocaram-se, rapidamente, do lado dos normais, contra os dementes da Aum. Como se “a memória colectiva deste caso se transformasse, cada vez mais, numa bizarra banda desenhada ou num mito urbano”. E como se poucos desesperassem por “palavras que venham noutra direcção, palavras novas para uma narrativa nova. Uma outra narrativa que purifique esta”. Se as nossas definições não se flexibilizarem, diz Murakami, ficaremos reduzidos às reacções programadas. De reacção programada em reacção programada. Até à apatia total.

Compreender os acontecimentos de Tóquio é, para o autor, olhar para o nosso próprio território, em vez de rejeitar o terrorismo da Aum como uma “presença alienígena observada através de binóculos”. É incorporar a violenta seita como parte do nós, na construção mental do nós. A hipótese de Murakami é que a Aum – a sua presença nas ruas, as suas intervenções públicas – incomodava profundamente os japoneses – ainda antes do ataque – porque era um espelho.

Algo que muito admirou o mundo, na altura, foi o facto de muitos dos aderentes à Aum serem pessoas da chamada super-elite japonesa. Nomeadamente o médico de topo Ikuo Hayashi, que foi um dos atacantes. Pessoas como este médico prescindiram da sua liberdade, das suas posses, das suas famílias. Do seu ego. Em troca, receberam uma nova narrativa. Uma nova história sobre eles mesmos e sobre o mundo. Para os não crentes, uma estorieta que é um disparate pegado. Mas, pergunta Murakami – e pena de morte à parte – “teríamos nós uma narrativa mais viável para lhes oferecer?”

Quando se lêem as entrevistas aos membros da seita é notório que na Aum eles encontraram “uma pureza de intenções que não conseguiam encontrar na sociedade normal”. E que não conseguirão, a não ser noutra horda semelhante cujo aparecimento – provável – é o que mais temem, afinal, os japoneses. Sobretudo quando o subtexto é que pouco aprenderam com a terrível catástrofe que se abateu sobre eles.

Aliás, o próprio facto de elementos da super-elite integrarem a seita deveria ser um indispensável ponto de reflexão. Como afirma Murakami, essas pessoas não integraram a seita apesar de serem privilegiados, mas antes porque eram privilegiados: “Não podiam evitar ter sérias dúvidas sobre o engenho utilitarista e desumano do capitalismo e sobre o sistema social em que a sua própria essência e os seus esforços – e até mesmo a sua própria razão de ser – iriam ser esmagados infrutiferamente”. Essas pessoas, tal como o brilhante médico Hayashi tinham o sonho de se dedicar a uma utopia. Simples, unifacetada, com pouco “potencial para a desilusão”. Longe da realidade.

Começou ontem e prolongar-se-á até 13 de Janeiro a particular visita, à Europa, do recém-eleito primeiro-ministro Shinzo Abe. É inédito que um primeiro-ministro japonês, com tão pouco tempo no cargo, e mesmo antes de ter realizado uma visita oficial à China e à Coreia do Sul, faça o périplo europeu. Parece que o Japão percebe, finalmente, que não poderá sobreviver tendo como único aliado os EUA. Conta Philippe Pons, neste artigo do Le Monde de ontem, que o America at the Crossroads foi traduzido no Japão como O Fim da América

Os líderes europeus terão muito gosto em receber o senhor Shinzo Abe. Tal como nunca chegou a ser recusado ao Japão o lugar de observador no Conselho Europeu – supostamente uma organização de defesa dos direitos humanos – os europeus acolherão o primeiro-ministro de Tóquio com deferência e aprumo.

Aceitando, com vénias, o discurso de Abe que, tal como noticia o Público de hoje, vai no sentido de justificar a sua visita com base em preocupações humanitárias. E quanto à pena de morte, os EUA podem ficar descansados. Ainda não é desta que o Japão os deixa sozinhos.

Filmes de Edgar Pêra
Hearn, L. (2005). O Japão. Uma antologia de escritos sobre o país. Lisboa, Cotovia.
Murakami, H. (2006). Underground. O atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa. Lisboa, Tinta da China.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 respostas a Pesadelo Cego

  1. Sérgio diz:

    Perturbador, mas suficientemente demonstrativo do cinismo com que o stablishment político de alguns campeões dos direitos humanos fazem ideologia com eles. Um bom trabalho de diviulgação, sem dúvida.
    Atenciosamente,
    Sérgio.

  2. Só uma pequena ressalva: os americanos iam “enforcando japoneses” que, por acaso, eram criminosos de guerra. Eu sou totalmente contra a pena de morte, como dizia o outro, sem “mas” nenhum. Mas como não acho boa política julgar o passado com a vantagem do tempo, acho que é desonesto omitir o facto dos “enforcados” serem criminosos de guerra, tendo em conta o período que então decorria. As atenuantes para os enforcamentos de criminosos de guerra (e sabemos as atrocidades que os japoneses cometeram durante a IIGM) não seriam despiciendas.

  3. Ezequiel diz:

    “Tokyo prend conscience du poids politique croissant de l’Europe face aux grands problèmes du moment (Moyen-Orient, montée en puissance de la Chine et de la Russie, ambitions nucléaires iranienne et nord-coréenne).”

    Wishful thinking, maybe?! “…du poids croissant de l´Europe face aux grande problèmes du moment….” ???? Say what?

    You must be dreaming!! DU POIDS CROISSANT????

    The frog needs a reality check! Positively delusional! He forgot about Japan´s worries about a more protectionist Europe. Its about Hondas and Toyotas…coming to Europe!

    This is HILARIOUS!

  4. Ezequiel diz:

    Dream on…SUCKER! 🙂

  5. Ezequiel diz:

    Quando a “Chindia” se consolidar como o grande bloco Asiático (e tudo indica que será isto que vai acontecer:acordo bilateral de comércio “livre”) o Japão terá que reformular a sua estratégia (em que direcção…ou direcções??) assim como a Europa e a América do Norte (e centro-sul?) que provavelmente terão que se aliar (os comentários recentes da Chanceller Merkel evidenciam uma crescente sensibilidade transatlantica) Mas, claro, isto é pura especulação…a ideia de uma “união” EuroAmericana parece não agradar a muitos Europeus que sentem uma profunda “revulsion for all things American…”(nem sequer um donutzinho ou uma apple pie…ai estes Americanos!!) Se a Alemanha se “aproximar”…the rest is history, my dear! Strategy is interesting, is it not???

  6. cláudia diz:

    “(…) Se as nossas definições não se flexibilizarem, diz Murakami, ficaremos reduzidos às reacções programadas. De reacção programada em reacção programada. Até à apatia total. (…)”

    concordo e acho que é uma formulação pertinente

    “(…) Para os não crentes, uma estorieta que é um disparate pegado. Mas, pergunta Murakami – e pena de morte à parte – “teríamos nós uma narrativa mais viável para lhes oferecer?” (…)”

    frase de um cinismo assustador… olho por olho dente por dente?

    “(…) Quando se lêem as entrevistas aos membros da seita é notório que na Aum eles encontraram “uma pureza de intenções que não conseguiam encontrar na sociedade normal”. E que não conseguirão, a não ser noutra horda semelhante cujo aparecimento – provável – é o que mais temem, afinal, os japoneses. Sobretudo quando o subtexto é que pouco aprenderam com a terrível catástrofe que se abateu sobre eles.

    Aliás, o próprio facto de elementos da super-elite integrarem a seita deveria ser um indispensável ponto de reflexão. Como afirma Murakami, essas pessoas não integraram a seita apesar de serem privilegiados, mas antes porque eram privilegiados: “Não podiam evitar ter sérias dúvidas sobre o engenho utilitarista e desumano do capitalismo e sobre o sistema social em que a sua própria essência e os seus esforços – e até mesmo a sua própria razão de ser – iriam ser esmagados infrutiferamente”. Essas pessoas, tal como o brilhante médico Hayashi tinham o sonho de se dedicar a uma utopia. Simples, unifacetada, com pouco “potencial para a desilusão”. Longe da realidade. (…)”

    não foi sempre assim com a maioria das utopias? sobretudo das que se desligaram da realidade e das pessoas?
    o cerne da questão não estará aí – as ideias, quando desligadas das pessoas, tudo justificam?

    acho o texto interessante e perturbador. quase ambíguo.
    escrito de uma forma inteligente, não sei se trará alguma ideia realmente nova, algo que não soubéssemos já, para além dos factos que desconhecíamos.

Os comentários estão fechados.