Mimesis do Messias

Poemas inéditos de Manuel Rodrigues, autor de Ode Celeste (2003), Ed. & etc.
Filmes de Edgar Pêra
Leituras por Nuno Melo

então percebi o fogo
e então aprovei o fogo
aproximei-os ainda
e tais os provo
ao pó na pele
o bafo quente
vou deixar-te
no céu da boca
que caia arda
e quei-me
mais que
ninguém só tu
sabes quanto —
menos sei menos sei 
— que nesse canto
ardentemente
só eu te ouço

(anos 90, in Dobra Completo)

que interessa a idade
se tudo é carne
e voz também
carne com carne
há-de correr
……………………
minha irmã
a matemática
teve apenas
negativa
mas atenção
nem copiei
e eu quero ir
para jornalismo
vais a ver
……………………
sou a favor
da encarnação
quando se fala

(anos 90, in Dobra Completo)

não morro
por estar doente
ardo na vida
me socorre
um arfar direito
ao latir da criação
vou cair
parturiente

(anos 90, in Dobra Completo)

?que poder é que haveria ante do fim
e que medo sentiria no repouso sem o sonho
olho aguardo aqui da porta . e vejo as cores
o sonido áspero dos ventos secos se abate
o frio escorre por entre coisas . milagre e
tremendo voo — vêm aí dias piores
ouço. aceito compreendi. fiquei sabendo esclarecido
a palavra do senhor
só um caminho inconcebível, mas não se andava
agora) também, apenas há, único trono e (agora
escuto só os elementos, e o metal aborrecido
que usam de friso por ser mais duro
o melhor vai resistindo, os de alumínio são preferidos
“são falares de minério . aos olhos gasto pelos séculos
e contudo, sempre menino . da porta vejo e aguardo”
escuto bem e recomendo. fico a saber e esclarecido
pelas palavras do senhor
não há anjos entre as cinzas das construções
? o que dizem estas árvores que se estremece (agora, às aves anuladas
da gente passando em baixo, na geometria do tijolo
? que dizem pedras deitadas perto dos ossos (agora, não dizem nada
porque te calas . mas eu vi — e agonizo
“são palavras do mistério . mil nomes do silêncio
… e não te abala… que isto não caia…”
a voz da flora abandonada : que disseram o tempo todo?
sopro com alento . racho como pedra
simplicidade e inocência . não olhar cima dos estratos
não escavar sem fazer cama — me envergonho
ouço e aceito. sabendo fico agradecido
sou a palavra do senhor
me arrepio por não ter pêlo por não ter
escama . de nem ter pena
eu . que ainda vivo
tenho vergonha

(2004, in Mimesis do Messias)

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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2 respostas a Mimesis do Messias

  1. ezequiel diz:

    Há uma miuda internada, com doença grave, que precisa urgentemente de sangue B – (negativo). Malta, vamos lá ajudar a miuda! Divulguem este pedido pela blogosfera, nacional e internacional.

    Contactos: Luis Carvalho 93 108 5403
    Pedro Ribeiro 22 204 1893

  2. mb diz:

    momentos sem temores de horas. clarezas sem habituações do olhar, intuitivas como o espaço em que caminhas para mim. poeta é só aquele que não sabe viver refugiando-se do tempo no abrigo cego da noite clara, abram as vossas narinas, deixai entrar o puterfacto cheiro a maresia poluída, um corroer de ossos com minutos absorvidos, num temperamento invulgar de porquês. És assim, sem mais ninguém, comigo, “semigo”, tu porque és poeta e os poetas educam versejando. elogio-te amante da loucura porque o nosso começo está próximo e a continuidade exalta-nos em beijos lânguidos.

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