Ops, lá foi um país pelo cano

[do Público de 6 dezembro 2006]

Na Aljazira árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com um sorriso nos lábios e um ou outro comentário, enquanto estão sentados a uma mesa de café. A meu pedido, concordam com simpatia em traduzir porções do debate, mas é difícil chegar a acordo sequer sobre os pontos mais básicos. Quem são os contendores? Diz um dos meus companheiros de mesa: são dois iraquianos, um sunita e outro xíita. Interrompe alguém para dizer: não, um deles é um verdadeiro iraquiano e outro um falso, um tipo que viveu anos no Irão e se faz passar por iraquiano. E de facto, a certo momento na televisão, um dos adversários mostra as fotocópias do passaporte do outro e diz-lhe: você não é iraquiano! este documento não vale nada! você não passa de um agente iraniano! O outro está para se levantar e ir embora, mas o debate continua. Discutem a execução de Saddam Hussein. Pergunto aos meus generosos tradutores: quais são as posições de cada um? “O xíita é a favor e o sunita é contra” — nada disso, explica outro — “o sunita acha que o Saddam Hussein merecia a pena de morte mas não concorda com a data da execução”.
A data da execução, para quem se lembra da coluna de sábado passado, foi a do Aid al Adha ou Dia do Sacrifício (chamado pelos magrebinos de Aid el Quebir, Dia do Carneiro). Quando então escrevi sobre o Aid al Adha estava longe de imaginar que Saddam Hussein seria enforcado neste dia, o mais sagrado do ano para milhões de muçulmanos. Mas mesmo depois da notícia ter sido divulgada e de as célebres imagens obtidas por telemóvel já passarem por televisões de todo o mundo (e constatemente no mundo árabe, depertando grande interesse em todo o lado, de mercados a casas particulares) ignorava qual seria o impacto desta coincidência. O próprio primeiro-ministro iraquiano Nuri al’Maliki, se referiu ao assunto, dizendo que fora desejado que Saddam Hussein morresse “num dia especial”. A referência, além de um tanto macabra, parece destinada a constituir uma provocação.
Terá isto alguma importância? O editorial do Le Monde sobre a execução de Saddam Hussein defendia que os opositores à pena de morte não deveriam sequer discutir os detalhes deste julgamento. Ser contra a pena de morte é ser contra a pena de morte, ponto final, sem discutir os pormenores. Na minha opinião, isto é um equívoco. Há a questão geral da pena de morte, mas há também a questão das circunstâncias de cada execução em particular, cujas implicações não devem ser desprezadas.
Para ver essa distinção, façamos um exercício: imaginemos que, no Chile, um tribunal tivesse tido o poder (e a vontade) de não só julgar como condenar à morte o ex-ditador Augusto Pinochet. Isto por si já seria mau para todos os que se opõem à pena de morte, mesmo aqueles que (como eu) acham que Pinochet era monstruoso em tudo o que fazia. Mas imaginemos o que sucederia se a actual presidente do Chile, sabendo como Pinochet era um devoto católico, — tal como a sua família e grande parte dos seus apoiantes —, tivesse decidido que a execução da pena teria lugar no Natal ou na Páscoa? Isto significaria que estaríamos perante um poder incendiário num país em que nenhuma parte da sociedade faz um esforço de conformação com a restante.
É isso que se passa hoje no Iraque. A execução de Saddam Hussein, com as suas circunstâncias que lhe dão o significado mais completo e precisam por isso de ser avaliadas, é em primeiro lugar uma demonstração de força dos xíitas que estão no governo, e uma forma de conformar a maior e mais irrequita das suas facções, a comandada por Moqtada al’Sadr, cujo pai terá sido assassinado a mando de Saddam Hussein. Os xíitas no poder tiveram a sua justiça. Não só justiça como vingança. E não só vingança como humilhação.
Mas há mais. Os xíitas provaram que podem fazer tudo isto sozinhos. E deixaram pelo caminho os curdos, que foram as piores vítimas de Saddam Hussein no Iraque, com centenas de milhares de mortes por armas químicas que nunca chegarão a ser esclarecidas em tribunal. Por isso, a maior ofensa deste linchamento vai provavelmente para os curdos, — e em especial para um deles, o presidente Talabani, que sempre declarou ser contra a pena de morte. Que Saddam seja condenado pela morte de quarenta homens na repressão a um atentado do partido Dawa, de que o primeiro-ministro hoje no poder faz parte, e nunca venha ser julgado pelos massacres de Al Anfal que foram dos piores na história da humanidade, define a hedionda caricatura desta justiça privativa e mesquinha a que assistimos.
Na origem de tudo isto está o governo dos EUA, que nunca quis entregar o ditador iraquiano a um tribunal internacional, que teria certamente de julgar por inteiro estes e outros crimes do tempo em que Saddam Hussein tinha a cumplicidade dos antecessores de George W. Bush. Desde logo, salta à memória a invasão do Irão, em que Saddam Hussein utilizou tranquilamente as armas de destruição em massa que mais tarde viriam a justificar a sua queda, para tentar mudar o regime iraniano cuja queda é ainda hoje o grande objectivo externo dos EUA, sob o mesmo pretexto das armas de destruição em massa.
Há mais ironias nesta guerra do que é possível listar num artigo de jornal.
Entrentanto, já morreram mais iraquianos desde a invasão do que aqueles que mataria Saddam Hussein no mesmo período, mesmo no auge da sua actividade sanguinária. Entretanto, as tropas ocidentais repetiram em Fallujah os métodos de punição colectiva de que Saddam Hussein era um símbolo, com utilização de armas de fósforo branco e o massacre de milhares de homens adultos. Entretanto, as próprias tropas americanas já perderam mais soldados nesta ocupação do que vítimas houve no atentado às torres gémeas usado (e principalmente abusado) para a justificar. E no entanto, a criança grande que é George W. Bush planeia enviar mais tropas para o Iraque, pelos vistos ignorando que a guerra civil vai ali sofrer uma mutação terrível que os próprios países vizinhos terão dificuldade em enfrentar. É que há uma enorme diferença entre uma guerra civil na qual as partes lutam pelo poder no país, e uma guerra civil na qual as partes não querem saber do que poderá acontecer ao país. O que isto quer dizer não precisa de tradução.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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Uma resposta a Ops, lá foi um país pelo cano

  1. Luís Lavoura diz:

    “os curdos, que foram as piores vítimas de Saddam Hussein”

    Tenho sérias dúvidas disso. Ao longo dos decénios do poder de Saddam, os xiitas sempre se rebelaram e sempre foram muito severamente reprimidos. Não sei quantos mortos terá havido. Mas duvido que tenham sido, no total, menos do que os mortos curdos nos bombardeamentos químicos.

    “o governo dos EUA, que nunca quis entregar o ditador iraquiano a um tribunal internacional”

    Tenho dúvidas de que tal fôra melhor solução. Isso seria “justiça dos vencedores” pura e simples. Seria fazer julgaro vencido pelos vencedores, aplicando uma lei que não a lei do seu país. E o exemplo do Tribunal para a ex-Jugoslávia é tudo menos edificante.

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