O dia do carneiro

[do Público de 30 dezembro 2006]

Um recurso universal de qualquer narrativa típica consiste em criar um momento de tensão crescente e levá-lo até ao limite, para no fim aliviá-la de uma vez só, para descompressão geral do público. Nos filmes de acção é quando o herói desarmadilha a bomba no último segundo. No Antigo Testamento é quando Abraão, obedecendo a uma ordem directa de Deus, se prepara para sacrificar o seu próprio filho. O joelho segura firmemente o rapaz ao altar e a faca está já encostada ao seu pescoço quando a voz do Senhor (em off) revela que aquela ideia de ter de Abraão sacrificar o filho não passava afinal de um teste para ver até que ponto Abraão era afinal um homem devoto. Mais: em vez de se matar o menino, Abraão tem permissão para sacrificar um carneiro, o que provoca o tal grande alívio da plateia (e até nos permite concluir que o público-alvo do autor do texto é humano e não ovino).

A superioridade estilística do Antigo Testamento sobre os filmes de aventuras está em que todos os filmes de aventuras têm sempre, mas sempre, uma cena destas. O Deus do Antigo Testamento, pelo contrário, habituou-nos a cumprir com as suas ameaças, das Pragas do Egipto à destruição de Sodoma e Gomorra, pelo que o efeito-surpresa é muito maior quando o pior não ocorre. De momento, lembro-me de duas excepções importantes, das quais a segunda é a minha história favorita da Bíblia (está até guardada para uma crónica futura): quando Deus poupa Niníve, no Livro de Jonas. Esta parcimónia faz com que os momentos-chave fiquem guardados na memória colectiva. A cena de Abraão, do seu filho e do carneiro, ao apresentar-nos um Deus misericordioso (para os humanos) impressionou judeus, cristãos e muçulmanos até à época contemporânea. Woody Allen refere-se várias vezes a esta história, sempre estupefacto por Abraão estar mesmo até ao último momento seriamente decidido a matar o seu filho, prova de que “um homem cumpre com qualquer ordem estúpida desde que lhe seja transmitida por uma voz grave e bem colocada”. Os vestígios desta história encontram-se no cerne do cristianismo, pois é o próprio Filho, Jesus Cristo, que é o “cordeiro de Deus” sacrificado pelos pecado de todos os humanos. Também os muçulmanos preservam esta história fundadora do judaísmo, e de que maneira, uma vez que ela é comemorada todos os anos com uma festa importantíssima que cai (se a memória não me falha) quarenta e oito dias depois do fim do Ramadão, e que tem o nome de Aid Al Adha ou Aid El Quebir, o Dia do Carneiro — este ano, dadas as errâncias dos anos lunares e solares, coincide exactamente com a passagem do ano 2006 para 2007, de Domingo para Segunda-feira próximos.

Vamos imaginar o que sucederia se o leitor, em vez de se encontrar por exemplo em Lisboa, capital da República Portuguesa, se encontrasse antes seiscentos quilómetros mais ao Sul. De que falariam então os jornais que se vendem em Rabat, capital do Reino de Marrocos? Em geral, dos preparativos para o Dia do Carneiro. O diário Libération, cuja redacção se situa em Casablanca e me parece ser de tendência mais pessimista, informa-nos que a aproximação da festa levou a uma subida dos preços da carne de carneiro até limites pouco comportáveis para as famílias marroquinas. Numa secção de inquéritos de rua, pergunta-se mesmo se será aceitável que os agreados familiares se endividem para pagar os custos destes festejos. O patriótico L’Opinion assegura-nos que a oferta de carneiro no mercado satisfará amplamente a procura, e dá-nos conta das medidas de segurança rodoviária especiais no quadro da “Operação Aid Al Ahda”. O solícito e profissional Le Matin tem um caderno com os horários dos comboios especiais para todos aqueles que se deslocam para passar a quadra com a família. Há de tudo sobre o tema, desde conselhos culinários a um dossier especial sobre como lidar com as expectativas das crianças quando passar a meia-noite do Aid el Quebir. A impressão geral é a de que, se os jornalistas marroquinos se quisessem poupar ao trabalho, bastar-lhes-ia ter traduzido os jornais portugueses da semana passada, substituindo o nome da festa e alguns detalhes, porque de resto o tom é o mesmo, incluindo — sim! — os textos dos religiosos e conservadores lamentando-se de que os festejos do Dia do Carneiro têm vindo a perder o seu carácter sagrado e de que há uma importação crescente de hábitos novos e estrangeiros, como o de substituir a comemoração cristã do Natal pela sua versão pagã, com a venda de pinheiros e figurinhas do Pai Natal em certas lojas. E isto sem fazer o resumo da imprensa em árabe, que terá de esperar pela aquisição das competências linguísticas adequadas.

Há no entanto diferenças assinaláveis. Sendo o carneiro um animal manso, é possível comprá-lo no mercado, trazê-lo para casa e sacrificá-lo na data certa. Esta é uma grande vantagem que os marroquinos possuem sobre os portugueses, a quem é pouco prático trazer um bacalhau da Terra Nova ou da Noruega e alimentá-lo durante uns dias num aquário instalado no meio da sala para depois proceder à respectiva salga e cozinhá-lo na consoada. Assim sendo, e ao contrário do que sucede no L’Opinion, os nossos jornalistas não precisam de incluir no dossier “crianças” uma entrevista com um psicólogo sobre como evitar traumatizar os filhos à vista da degolação do carneiro (os pais com um sentido de humor arrevesado podem sempre dizer aos miúdos que ou se calam ou Deus pode voltar a mudar de ideias).

O Dia do Carneiro é então uma ocasião para os muçulmanos confraternizarem com a família em torno de uma refeição, mas também de cederem ao consumismo, de se endividarem, de passarem horas presos nos engarrafamentos das grandes cidades e de arriscarem a vida nas estradas. Não sei se isto vos lembra alguma coisa. A mim, dada a minha grande afeição pessoal e gastronómica pelo carneiro, torna-me nostálgico. De tal forma que vou suspender a reserva pessoal e contar aos leitores que em tempos, eu também vivi no campo, e logo numa casa com carneiros. Mais ainda, que cheguei a pastoreá-los uma vez ou outra e que tenho grande orgulho em ter lido As Aventuras de Mark Twain em algumas dessas ocasiões. Quando criança, também eu me lembro de implorar aos meus pais que poupassem um dos carneiros de quem eu mais gostava. Uma das vezes terei até chorado e berrado enquanto a faca se aproximava do pescoço do bicho, tanto que a mão (do meu pai ou da minha mãe?) hesitava e voltava a avançar, hesitava e voltava a avançar, sempre mudando de ideias, num momento de tensão quase insuportável.

Se não me engano, comêmo-lo no dia em que os futuros sogros do meu irmão foram jantar lá a casa.

Sobre Rui Tavares

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4 respostas a O dia do carneiro

  1. Luís Lavoura diz:

    Sempre considerei o Rui Tavares como o melhor blogger português. Este teto está absolutamente excecional.

  2. Presumo que quando o Rui escreveu este texto ainda não sabia que haveria de surgir um outro cordeiro enforcado.
    A ligação de todos estes acontecimentos mostra que este Aid Al Adha poderá ser recordado durante muitos anos recordando que nem sempre o cordeiro sacrificado é puro, mas que o seu sacrifício assim o torna.

  3. Seven Van diz:

    “Sempre considerei o Rui Tavares como o melhor blogger português”.
    100% de acordo.

  4. Nuno Cruz diz:

    Ler o Rui Tavares (e, já agora, o Ivan Nunes) é um dos grandes privilégios da blogosfera.

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