Congressistas, Second Life e Identidades vazias

Vi no Rocketboom de 5 de Janeiro que o congressista George Miller (uma espécie de Vital Moreira virtual) recebe constituintes e dá entrevistas na Seconde Life. A reportagem pode convencer-nos que estamos no limiar de uma nova democracia virtual… Mas sejamos sinceros, a ginástica electrónica do congressista Miller não passa da continuação da política espectáculo por outros meios. Se os fornos eléctricos dessem popularidade: ele estaria dentro de um.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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5 respostas a Congressistas, Second Life e Identidades vazias

  1. Ezequiel diz:

    Caro Nuno,
    há a política espetáculo mas tb há a política mundana: todos os congressistas americanos encontram-se frequentemente com os seus “constituintes.” É uma prática comum por todos o leste(norte) dos EUA. Na Nova Inglaterra persiste a boa tradição dos “town meetings.” ( Commonwealth of Massachussets, Maine, Rhode Island, New Hampshire, Vermont). Nos estados do Oregon, Washington, Minnesota e outros tb encontrarás participação grass roots muito eficaz e fervorosa. Não é nada dificil conseguir uma reunião com o congressista da “tua area”, em DC ou, se desejares, na tua casa.

    Cumps, ezequiel

  2. Ezequiel diz:

    Tb não percebo o q é que a(s) identidade(s) tem que ver com isto? Não é o melhor meio de exercer a participação, é certo, mas tb não tem nada de mal: O congressista está “ali”, responde às perguntas que são colocadas, pode ser criticado bla bla. Não vejo qual é o mal, sinceramente. Há muita gente, especialmente nos EUA, que viaja imenso e que não tem a possibilidade de contactar com o seu congressista. Esta é uma maneira interessante de permitir a estas pessoas de dizer o que lhes vai na cabeça. O que eu constato quase diariamente é que os Europeus são tão ignorantes acerca da américa como os Americanos acerca da Europa. Pena!

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ezequiel,
    Parece combinado: tu perguntas a razão de ser de colocar “identidades” no título e eu saco do último texto do Žižek sobre a matéria. Confesso que eu próprio começo a estar enjoado dele, mas por coincidência li hoje um texto dele sobre este assunto na Folha de São Paulo. Tirando o paleio sobre a psicanálise, que me deixa indiferente, e algumas repetições de argumentos (descafainados e outros) de outros textos, o argumento principal é que:
    Eleger a internet como exemplo democrático é esconder diferenças sociais, institucionais e psicológicas entre as vidas “real” e “virtual”.

    IDENTIDADES VAZIAS
    Slavoj Žižek

    Na edição de 25 de dezembro da revista “Time”, o prêmio tradicional de “Pessoa do Ano” não foi concedido a Mahmoud Ahmadinejad [presidente do Irã], Kim Jong-Il [ditador norte-coreano], Hugo Chávez [presidente venezuelano] ou qualquer outro membro da gangue dos usuais suspeitos, mas a “você”: a todos e a cada um de nós… usuários e criadores de conteúdo na web. A capa mostra um teclado branco com um espelho para uma tela de computador onde cada um de nós, leitores, pode ver seu reflexo. Para justificar a escolha, os editores mencionaram a transição das instituições para os indivíduos, que estão ressurgindo como cidadãos da nova democracia digital.
    Há coisas que os olhos não conseguem ver, nessa escolha, e em um sentido mais amplo do que o comum nessa expressão. Se algum dia já houve uma escolha ideológica, esse é um caso que merece perfeitamente a classificação: a mensagem -uma nova democracia cibernética na qual milhões podem se comunicar e organizar directamente, contornando o controle estatal centralizado- encobre uma série de brechas e tensões perturbadoras.
    A primeira e mais evidente das ironias é que cada pessoa que olhe a capa da “Time” não verá as demais pessoas com quem supostamente se relaciona directamente, e sim um reflexo de sua própria imagem. Não admira que Leibniz [1646-1716] seja uma das referências filosóficas preferenciais dos teóricos do ciberespaço: afinal, a imersão das pessoas no ciberespaço não se enquadra perfeitamente à nossa redução a uma mônada leibniziana que, embora “sem janelas” capazes de se abrir directamente para as realidades externas, espelha em si mesma todo o universo?
    Será que o típico internauta atual, sentado sozinho diante da tela de seu computador, não representa mais e mais uma mônada sem janelas directas para a realidade, envolvido apenas com simulacros virtuais, e no entanto mais e mais imerso na rede mundial, e se comunicando de maneira sincrónica com todo o planeta?
    Uma das mais recentes modas entre os radicais do sexo são as maratonas de masturbação, eventos colectivos nos quais centenas de homens e mulheres se autopropiciam satisfação sexual para fins de caridade. A masturbação cria uma colectividade a partir de indivíduos dispostos a compartilhar uns com os outros… o quê?
    O solipsísmo de uma diversão estúpida. Seria possível propor que as maratonas de masturbação são a forma de sexualidade que se enquadra de maneira mais perfeita às coordenadas do ciberespaço.
    Mas isso é apenas uma parte da história. O que se torna preciso acrescentar é que o “você” que se reconhece enquanto imagem em uma tela padece de uma profunda divisão: eu jamais me limito a ser a persona que assumo na máquina. Primeiro, existe o (bastante evidente) excesso do eu como pessoa corpórea “real” além da persona virtual.

    Ética virtual
    Os marxistas e outros pensadores de inclinações críticas gostam de apontar para o fato de que a igualdade do ciberespaço é enganosa -ela ignora todas as complexas disposições materiais (meu património, minha posição social, meu poder ou falta dele etc.). A inércia da vida real desaparece magicamente na navegação pelo ciberespaço, desprovida de fricção.
    No mercado actual, encontramos toda uma série de produtos privados de suas propriedades malignas: café sem cafeína, creme sem gordura, cerveja sem álcool… ciberespaço. A realidade virtual simplesmente generaliza esse procedimento: cria uma realidade privada de substância. Da mesma maneira que o café descafeinado tem cheiro e gosto semelhantes aos do café sem ser café, minha persona na rede, o “você” que vejo lá, é sempre um “eu” descafeinado. Por outro lado, existe também o excesso oposto, e muito mais perturbador: o excedente de minha persona virtual com relação ao meu “eu” real. Nossa identidade social, a pessoa que presumimos ser em nosso intercurso social, já é uma máscara, já envolve a repressão de nossos impulsos inadmissíveis, e é precisamente nessas condições de “só uma brincadeira”, quando as regras que regulam os intercâmbios de nossas vidas reais estão temporariamente suspensas, que podemos nos permitir a exibição dessas atitudes reprimidas.
    Basta lembrar do mitológico sujeito tímido e impotente que, participando de um jogo virtual interativo, adota a identidade de um assassino sádico e sedutor irresistível. Seria simples demais afirmar que essa identidade é apenas um suplemento imaginário, uma fuga temporária de sua impotência na vida real. Na verdade, o que importa é que, porque ele sabe que o jogo virtual é “apenas um jogo”, ele se sente capaz de exibir “seu eu real”, fazer coisas que nunca fez em interações reais -sob a capa de uma ficção, a verdade sobre ele se articula.
    O fato mesmo de que eu perceba minha auto-imagem virtual como simples brincadeira me permite, assim, suspender os obstáculos que usualmente impedem que eu realize meu “lado escuro” na vida real -meu “id eletrônico” ganha asas, dessa forma. E o mesmo se aplica aos meus parceiros na comunicação via ciberespaço. Não há como ter certeza de quem sejam, de que sejam “realmente” como se descrevem, ou de saber se existe uma pessoa “real” por trás da persona on-line. A persona on-line é uma máscara para uma multiplicidade de pessoas? A pessoa “real” com quem converso possui e manipula mais personas no computador, ou estou simplesmente me relacionando com uma entidade digitalizada que não representa pessoa “real” alguma?

    Existência sublimada
    Para resumir, “interface” quer dizer exatamente que minha relação com o outro nunca acontece face a face, que sempre há a mediação de uma maquinaria digital interposta cuja estrutura é labiríntica: eu “navego”, eu me perco sem muito rumo nesse espaço infinito onde mensagens circulam livremente sem destino fixo, enquanto seu Todo -esse imenso circuito de murmúrios- continua para sempre além do escopo de minha compreensão. O obverso da democracia direta do ciberespaço é essa caótica e impenetrável magnitude de mensagens e seus circuitos, que nem mesmo o maior esforço de minha imaginação é capaz de compreender -o filósofo Immanuel Kant [1724-1804] teria classificado o ciberespaço como “sublime”.
    Pouco mais de uma década atrás, havia um brilhante comercial inglês de cerveja. A primeira parte reproduzia a conhecida história de uma moça que caminha ao longo de um riacho, vê um sapo, o toma nas mãos e beija, e o sapo miraculosamente se transforma em príncipe. Mas a história não acabava assim. O jovem olhava a moça de um jeito cobiçoso, a tomava nos braços, a beijava e ela se transformava em uma garrafa de cerveja, que ele exibia em um gesto triunfante.

    Assombração na rede
    A moça fantasiava sobre um sapo que na verdade era príncipe, o rapaz sobre uma moça que na verdade era uma garrafa de cerveja: para a mulher, seu amor e afeto (sinalizado pelo beijo) poderiam fazer de um sapo um príncipe, enquanto para o homem, tudo não passa de um esforço para reduzir a mulher ao que os psicanalistas designam como “objeto parcial” -aquilo que, em você, me faz desejar você (é claro que um argumento feminista óbvio seria que as mulheres, em sua experiência amorosa cotidiana, em geral experimentam a passagem oposta: beijam um belo jovem e, quando o vêem de perto, ou seja, tarde demais, descobrem que ele é um sapo…).
    O casal real de homem e mulher, portanto, vive assombrado por essa bizarra figura de um sapo abraçando uma garrafa de cerveja. O que a arte moderna propicia é exatamente esse espectro subjacente. É perfeitamente possível imaginar um quadro do pintor surrealista Magritte no qual um sapo abraça uma garrafa de cerveja, com um título como “Homem e Mulher” ou “Casal Ideal” (a associação com a famosa cena surrealista do burro morto ao piano [do filme “O Cão Andaluz”] fica completamente justificada, nesse caso).
    É essa a ameaça do ciberespaço e de seus jogos, no plano mais elementar: quando um homem e uma mulher interagem nele, podem se ver assombrados pelo espectro do sapo que abraça a cerveja. Já que nenhum dos dois está consciente disso, as discrepâncias entre o que “você” realmente é e o que “você” aparenta ser no espaço digital podem resultar em violência homicida.

  4. Ezequiel diz:

    Caro Nuno,

    Lamento não dispor de tempo para ler todo o texto de Zizek. Por enquanto, apenas digo isto: A noção de que toda a percepção(real) é ou deve ser “material” (“genuina”, “objectiva” etc) é uma falsidade e/ou ficção. O zizek não gosta de percepções fluidas pq o “esquema conceptual” que ele tão arduamente defende é pouco flexivel. Pensar que a o convivio face-à-face elimina de alguma forma a dimensão “virtual” é pura miopia. Laing, num momento de inspiração notável, escreve que quando duas pessoas se relacionam são pelo menos quatro pessoas que interagem…(o que tu pensas acerca de mim pode não coincidir com aquilo que eu penso que tu pensas de mim bla bla)…ou seja, mesmo o relacionamento dialógico mais elementar e REAL -de Buber ou Rozenzweig – contempla esta dimensão virtual. Depois digo mais qq coisa. Gotago,
    obrigado por teres publicado aqui o artigo. Vraiment simpa. ezequiel

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Ezquiel,
    A minha questão nem sequer é a do Žižek. Não acredito que o “real” não seja feito por muito virtual. Acho é que determinadas modernidades, como um político a fazer propaganda no Second Life, não passam de notícias da assessoria de imprensa. E que a democratização eventual trazida pela rede, não passa por ai. Repara que a exibição do Miller é um diálogo condicionado, nesta conversa não deixa de haver um actor político e vários espectadores, que pelo facto de terem dois minutos para fazer perguntas ao congressista, não passam de objectos políticos a sujeitos políticos. Se quiseres, é mais do mesmo, apenas com um embrulho novo.

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