Justiça de cowboys na terra das mil e uma noites

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O vídeo gravado por telemóvel que registou o enforcamento de Saddam- que Bush considerou como “mais um passo para a democracia”- está, como todos sabem, no YouTube. Neste vídeo de dois minutos e meio, vê-se o ditador a ser insultado e assiste-se às condições degradantes da sua morte. O facto deste filme existir, fala por si.

É obsceno, de facto, como muitos já referiram. E como menciona Žižek, que ainda na semana passada aqui citava, é mais uma variante dos snuff movies pornográficos. O editorial de hoje do The Guardian, cita George Orwell que terá dito que, até assistir a um enforcamento, nunca se tinha apercebido do que significa destruir um homem saudável e consciente. Hoje, no limite do processo de virtualização, percepcionamos “a verdadeira realidade” como entidades virtuais. Simples espectáculo televisivo.
Emanuel Ludot, um dos advogados de Saddam, pediu às Nações Unidas a formação de uma comissão de investigação sobre as condições da execução, recordando que o antigo presidente iraquiano  “devia estar sujeito até ao momento da sua morte ao estatuto de prisioneiro de guerra e, como tal devia gozar dos direitos do Convénio de Genebra de 1949”.

Para além deste julgamento ter sido uma farsa e um fiasco e para além de me opor, veementemente, à pena de morte, como já comentei aqui, a execução de Saddam foi um terrível erro, não apenas porque impede a continuação dos julgamentos por outros crimes que terá cometido – quem tem medo desses processos? , como terá – já tem – como consequência o aumento da violência no Iraque.

O derrube de Saddam não foi nenhum alvor democrático. A estátua a cair correspondeu apenas a uma encenação. A sua captura não conduziu ao apaziguamento do país. Tratou-se somente de um troféu. E a forca não representou a aplicação da justiça por um governo soberano. Foi mera vingança. Um linchamento.

 

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QUARTA | Joana Amaral Dias
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