Réveillon de luxo

Entre os textos do Ivan Nunes, geralmente bons, aparecem às vezes uns que são excelentes, mas quando eu encontro um nunca consigo escrever-lhe a dizer isso porque ele deixa as caixas de comentários sempre fechadas, nem posso enviar-lhe um SMS congratulatório porque a Joana Amaral Dias já avisou que o tecno-espaço português está saturado e eu não quero ajudar ainda mais à confusão. Réveillon no lixo é um desses textos óptimos, e que eu estimo particularmente porque, para além de uma leitura “prazerosa” (como escreveria o grande Rubem Fonseca), me permitiu também poupar uns trocados – já que eu, aqui confesso, contava comprar o livro do Ruy Castro (o tal que, segundo o Ivan, cheira a urina). Com efeito, os pecados que o Ivan Nunes aponta ao livro do Ruy Castro, para mim, são mortais: não tem graça mas faz piadas, partilha do preconceito anti-português dos brasileiros palermas e, pior que tudo, não faz pensar quase nada – ao contrário do pequeno exercício de demolição literária a que o Ivan se dedica e que, esse, dá muito que pensar.

Dá que pensar, primeiro, que os brasileiros anti-portugueses são muito parecidos com os nossos monárquicos. A malta que pespega autocolantes azuis e brancos com uma coroa no meio na parte de trás dos automóveis está convencida de que se tivéssemos um rei seríamos como a Suécia, esquecendo-se de que, para sermos como a Suécia, teríamos também de ser como os suecos, porque, se continuássemos a ser como os portugueses e tivéssemos um rei, tudo o que conseguiríamos seria juntar um Bragança à confusão da nossa política, que já é grande que chegue sem esse real acrescento (se alguém quiser recordar as facécias da política portuguesa nos tempos da monarquia, recomenda-se a leitura das insuperáveis “Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna”, em cinco volumes, edição fac-similada da INCM). Do mesmo modo, se o Brasil não tivesse sido português, e fosse, por hipótese, holandês, talvez fosse óptimo, não seria era o Brasil (e Ruy Castro não estaria cá para vê-lo, obviamente): seria um país sem mulatos – e sem mulatas – cujos habitantes, em vez de roçarem a língua na doce língua de Camões, teriam todos as gargantas doridas pelo uso prolongado do holandês (e como poderia então Ruy Castro dedicar-se à história da bossa-nova?).

Dá que pensar, depois, na grande diferença que existe entre a graça e a piada. Recorrendo uma vez mais à indispensável edição de Natal do Economist, fica-se a saber que o bem falante (e, por arrastamento, o bem escrevente) terá de ter politesse (que o Economist traduz por sincere good manners, talvez para as distinguir das insinceras ou postiças, e que nós poderemos traduzir mais singelamente por “maneiras”, a famosa luva que calça o ladrão), galanterie (gallantry, i.e., “ser galante” e evitar o estilo carroceiro), complaisance (obligingness, diz o Economist, em português “procurar agradar” ou “ser prestável”, mas nunca “prestabilidade”), enjouement (cheerfulness, em português moderno “ter boa onda”), flatterie (“sedução” – e seduzir é muito mais do que simplesmente engraxar) e esprit, wit, que os mais galicistas poderão fazer corresponder a “ser espirituoso” mas que eu prefiro traduzir como “ter graça”. Ora esta graça não se exprime por gargalhadas; é certo que uma palavra judiciosamente dita ou um  pensamento bene trovato podem fazer cócegas nas meninges e produzir os sorrisos incontinentes que acompanham habitualmente os instantes de maior bem-estar intelectual, mas é igualmente certo que a palavra tem de ser rarificada e o silêncio também tem os seus direitos. Dizia La Rochefoucauld que o silêncio pode ser eloquente, desprezivo ou respeitoso, e que poucos são os grão-mestres da língua que sabem dominar todos os seus requebros, todas as cambiantes das palavras escritas e faladas bem como os intervalos entre elas. Parece-me claro que os amigos do riso e os vulgares contadores de piadas não fazem parte desse grupo de eleitos.

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SEXTA | António Figueira
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Uma resposta a Réveillon de luxo

  1. Um ano de boas escritas e muita inspiração para vocês.
    A transpiração é um bónus.

    Bom 2007

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