Parece que não me fiz entender

O meu post da semana passada sobre a campanha do aborto era provavelmente algo obscuro, e tanto que o simpático blogger “Maradona” (o feminino de maradão?) me acusou, num post enigmaticamente intitulado “índice de refracção”, da mesma intolerância inquisitorial que eu atribuí a alguns dos apoiantes do “Não”. Eu acho injusto, e passo a explicar porquê:

Em abstracto, eu não tenho nada contra o facto de as pessoas se perguntarem sobre se “existe vida humana às dez semanas”, como fazem os autores do “Blogue do Não”. Ao contrário do Senhor Presidente da República, eu acho a dúvida uma atitude mental bastante estimável, e pratico-a imoderadamente. Tenho porém por certo que a resposta a esta particular dúvida não pode ser dada pela ciência, até porque esta interrogação sobre a hipotética existência de “vida humana” oculta, na verdade, a questão (metafísica) de saber se um feto com dez semanas ou menos é uma “pessoa” ou não. Parece óbvio que a maior parte das pessoas realmente existentes não acha que o seja, nem que fazer um aborto seja equiparável a matar alguém; prova disso são as dezenas de milhares de abortos que se fazem todos os anos em Portugal (e não há dezenas de milhares de assassinas entre nós) e o próprio facto de a lei que pune o aborto puni-lo muito mais brandamente que o infanticídio. Mas isto é uma consideração de ordem sociológica; agora respostas de natureza científica a esta questão, como disse, não existem: o que existe são crenças, são fés – mas essas, por definição, são insusceptíveis de discussão. Debater se um feto com menos de dez semanas é ou não “vida” é assim um debate de surdos, que não leva a rigorosamente nada; procurar impor por lei, e logo na lei penal, uma das posições desse debate – que um feto às dez semanas é “vida” e por isso deve ser protegido – é negar a dúvida e praticar a intolerância: ou concordas comigo ou vais para a prisão. Não é isto a “fé única”? Que a diferença faz da Santa Inquisição? Ora há formas de o “sim” e o “não” debaterem sem ser através do choque de absolutos metafísicos indiscutíveis, do género: “o direito à vida” versus “o direito ao corpo”. Por exemplo, já aqui aplaudi (e fartei-me de levar pancada de apoiantes do “sim”) um artigo favorável ao “não” que dizia mais ou menos isto: como nem toda a gente está de acordo (nem nunca há-de estar) quanto a saber se um feto com dez semanas ou menos é uma pessoa ou não, não será melhor, nessa incerteza, seguir o “princípio da precaução” e estender-lhe a protecção da lei penal? Eu não estou de acordo com esta posição, e também já expliquei porquê, mas acho que o princípio de que ela parte está certo e que aquilo que defende faz sentido: verifica a impossibilidade de discutir metafísica e procura, pragmaticamente, estabelecer as bases de uma discussão sobre a gestão política da questão do aborto – que tem, evidentemente, fundíssimas implicações éticas, mas que é também (e é por isso que é objecto de um referendo) um problema social e de saúde pública. É assim tão difícil de perceber?

PS Rui Castro, no “Blogue do Não” dedica um post ao meu post anterior sobre este tema; vale a pena lê-lo, porque o seu estilo inqualificável ilustra, e muito melhor do que eu alguma vez conseguiria, o que eu queria dizer quando me referia à impossibilidade de debater com boa parte dos partidários do “não”.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Parece que não me fiz entender

  1. cláudia diz:

    concordo contigo, António e é evidente que a intolerância, o fundamentalismo e as certezas absolutas são maus conselheiros (quer para os “partidários” do sim, quer para os do não).

    sou pelo sim à despenalização do aborto.
    não sou pelo aborto.

    e acredito que é mais fácil diminuir a sua existência através do esclarecimento e da educação, do que através da proibição e da condenação.

    conheço várias mulheres que abortaram, num determinado momento da suas vidas, qualquer uma delas tendo vivido, do ponto de vista clínico, situação diferenciada: do gabinete da enfermeira prestimosa e cínica carregado de fotografias de bébés, sem anestesia nem assistência; à intervenção cara, porém clandestina, em clínica privada de luxo; à deslocação a Inglaterra e, mais recentemente, a Badajoz, para intervenção autorizada e não condenada; ao aborto realizado sem quaisquer condições e com consequências físicas irreversíveis para a mulher.
    nenhuma destas mulheres que conheço abortou de ânimo leve, nenhuma se sentiu desculpabilizada, nenhuma voltou a repetir as condições que a tinham conduzido a esse momento – triste forma de aprender, não achas?

    alguns discursos fazem-me lembrar apenas o excessivo paternalismo com que se continua a proceder por cá: como se todos os outros não fossem capazes de pensar, de decidir e de assumir o peso das responsabilidades que as decisões acarretam.

    não se decide em consciência através do medo, da intimidação, da culpa. e não se extinguem “males profundos” por decreto-lei, está mais que visto.

  2. silpheed diz:

    Dezenas de milhar de IVGs por ano ainda consigo perceber, mas centenas de milhar em Portugal? Bem sei que há prédios neste país que dão para uma população de 30 milhões, mas mesmo assim … No resto, estou de acordo com o post

  3. António Figueira diz:

    Caro/a Silpheed,
    Obrigado pelo comentario (e desculpe a falta de acentos, estou a escrever num teclado “estrangeiro”); as centenas de milhares eram evidentemente cumulativas, mas ja estao corrigidas (tenho um amigo que diz que, em materia de numeros, eu sou um bocado soarista, mas ainda assim procuro nao exagerar…)
    Cumprimentos, AF

  4. Isabel diz:

    Tendo em conta que esses senhores do blog do não discutiam há um mês se iam votar não no aborto com ou sem crucifixos ao pescoço…não vale a pena reproduzir aqui os seus posts

  5. Concordo com o artigo (e também com a Cláudia).

    Quanto à maioria dos defensores do “não”, a sua argumentação, embora esforçada, é insuficiente para me convencer de que, em termos morais, partir um ovo acabado de chocar pela galinha é igualzinho a quebrá-lo quando o pinto já está formado.

    No primeiro caso, temos ainda e apenas um ovo, programado para (eventualmente, se tudo correr bem), um dia ser um pinto, que já praticamente o é, no segundo caso.

    Se não percebem a diferença, puxem pela cachimónia. Se acham que os que votam SIM são todos uns assassinos de crianças (ou seja, comunistas?) ou, no mínimo, uns badamecos irresponsáveis, então continuem como sempre foram.

    Eu vou votar SIM, convictamente, conscientemente, responsavelmente e sou, obviamente, pela VIDA, respeitando (e até admirando) os que, ao nível pessoal e íntimo, entendem que o aborto (não sendo embora um infanticídio, ao contrário do que diz o palerma do Ratzinger) é um atentado à Criação divina e não o pratiquem (e mesmo o desaconselhem).

    Mas daí até arrogarem-se o direito de impor essa crença aos outros vai um passo de gigante: o passo da intolerância e do fanatismo!

    Votem bem e em consciência.

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