Ezequiel: a política do possível

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Banksy

Publico um comentário interessante, com o qual não concordo nada, do Ezequiel. Para ele e o João Galamba votos especiais de um grande ano.

Caro Nuno,

Sim, é verdade, os EUA aderiram às tradições colonialistas Europeias e interferiram inumeras vezes nas politicas internas de quase todos os paises da America Latina:contra Allende, o programa condor, contra Ortega etc etc. Não os ocuparam, salvo raras excepções. Dominaram uma boa fatia. Poderás acusar-me de ser um realista estúpido, um perfeito imbecil, mas responde-me a esta simples pergunta: Quando é que os estados (ou entidades politico-economicas bla bla) abdicaram do conceito do interesse proprio?

Poderás também acusar-me de estar a invocar uma aparente evidencia histórica para legitimar uma posição moral ignobil (ou detestável). Repara: eu não estou a defender o argumento de que “ah, se sempre foi assim e se assim é hoje, então tudo bem! ” (não se trata disto, asseguro-te…aliás, isto levar-me-ia a um beco sem saída horrendo onde tudo e mais alguma coisa poderia ser legitimado)

Todavia, esta parece ser uma “situação” que perdura: condições de precariedade social e política (etc) criam vulnerabilidades que podem ser exploradas (e isto aplica-se aos EUA, a todas as elites Latino Americanas, à Europa e as suas ex-colónias e respectrivas elites, à ex-URSS e os seus satélites, a Àfrica do Sul e as potencias menores do cone africano etc…presumo que o comentador do Le Monde conheça os dramas da elf e da legion em África!!!!) Não se trata de “naturalizar um jogo sujo” mas de tentar explicar os porquês da persistência e aparente “atracção” do jogo…apesar da consolidação de uma opinião publica global-transversal….

Quanto à relação dos EUA com o seu quintal, talvez fosse interessante considerares algumas mudanças estruturais na economia global. (que está cada vez menos dependente de matérias primas e cada vez mais dependente de know how e de conhecimento) As sociedades feudais (latifundios) não importam ou compram alta tecnologia. Mas as classes médias compram, incluindo as latino americanas! A ascendencia da China e da India tem sido sustentada essencialmente pelos mercados de massas. (mesmo no caso da India,..software medianamente sofisticado exportado a low cost) A competitividade destes paises neste dominio (massas) será quase absoluta. Hoje, a preeminencia dos EUA só poderá ser mantida se surgirem classes médias que comprem e-ou usem tecnologia Americana. O paradigma dos interesses objectivos (minerais bla bla) já se está a dissolver há muito tempo (nos EUA). Se a redistribuição caótica de riqueza do Chávez funcionar (duvido muito)…tanto melhor para os EUA. Estabilidade acima de tudo, sobretudo no quintal!(os impérios quando são geridos por gente inteligente, gostam de estabilidade) Além disso, hoje o Ortega não é uma marionete de Moscovo, nem de Havana. É o socialista Ortega. Quase que poderia candidatar-se ao congresso Americano. A terceira guerra ja´acabou. Tanto quanto sei, os EUA estão satisfeitissimos com a eleição da Bachelet, do Correa e do Ortega…o Chavez é um caso especial porque adora, como bom brutamontes carroçeiro que é, um bom conflito telenovelistico (mas suspeito que ele seja o primeiro a cair).

Como deves saber, um dos principais dramas que (paradoxalmente) preocupa os Americanos é o da imigração (mais de 40 milhoes de ilegais). Melhores sistemas de assistencia social, melhor educação (etc) na américa latina são políticas que minimizam o surto migratório para norte. Mais tarde, provavelmente emigrarão na mesma…formados em engenharia etc.

Quanto ao estado, devo dizer o seguinte. Todos os estados há muito que já foram privatizados. Até na Escandinávia, meu caro. Podem ser bem ou mal privatizados. Penso que Weber escreveu umas coisas interessantes sobre este assunto. Mesmo assim, tenho as minhas preferencias por certos estados.

Não sei, sinceramente, se esta é a posição real-oficial dos EUA. Não sei se esta posição é defendida por algum estratega Americano. Como dizem os Yanks, ” It just makes sense.(to me, evidently)

cumprimentos, ezequiel

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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2 respostas a Ezequiel: a política do possível

  1. Ezequiel diz:

    Caro Nuno,

    Um Grande Ano para ti (&Family) também e para todos os membros da 5 crew.

    Obrigado por teres publicado o meu comment. Estava muito maquiavélico ontem à noite..eh eh ehe he e eh 🙂

    Desculpas pelo meu Português “peculiar.”(correcção: Emigrarão na mesma)

    Um Feliz Ano para o João Galamba!

    ps: o “possivel” é múltiplo.

    Um grande abraço,
    ezequiel

  2. Um bom ano para os dois.

    Abraços,

    Joao Galamba

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