A revolta do quintal

Neste excerto do premiado documentário “The Corporation” pode ver-se a revolta da cidade boliviana de Cochabamba (poucos anos antes da eleição de Evo Morales) contra a privatização da água canalizada e da chuva, imposta pelo FMI em troca da concessão de um empréstimo.

Nas ruas da América Latina circulava uma anedota cínica: “Por que razão não há golpes de Estado em Washington?”. A resposta era evidente: “lá não existe uma embaixada dos Estados Unidos da América”. E quando os latino-americanos procuravam esquecer que eram o quintal do seu poderoso visinho, Washington tratava de os relembrar a golpes de canhoneira.  O século XX testemunhou dezenas de invasões das tropas norte-americanas. A última tentativa de golpe de Estado patrocinada por Washington data de 2002, quando militares golpistas tentaram destituir o presidente eleito da Venezuela Hugo Chávez e colocar no poder o presidente da associação patronal Pedro Carmona .
Nos últimos anos, acumularam-se os fracassos das políticas económica neoliberais, agregada sobre a designação de “Consenso de Washington”: um conjunto de medidas propostas pelo Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Departamento do Tesouro dos Estados Unidos que defendem as privatizações, o controle orçamental, o corte dos impostos, a supressão das barreiras alfandegárias, a desregulamentação do mercado do trabalho e políticas monetárias anti-inflacionistas, como forma de “modernizar” as economias dos países em vias de desenvolvimento. Esta febre do “livre mercado” levou um comentador da região, citado pelo Le Monde Diplomatique, a ironizar que “por este caminho ainda privatizam o Estado. Se as coisas continuam assim, um dia acordamos com o país vendido à Coca-Cola”.
O resultado destas politicas no continente foi o exacerbar das desigualdades, a América Latina é a região com maior desequilíbrio de riqueza do planeta: tem mais de 225 milhões de pobres (43,9% da população).
Estas medidas radicais,  como a imposição de Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos, os conhecidos TLC que são apelidados pela população de ‘Total Loucura Capitalista’, fizeram a explosão social e a reacção política que levou a esquerda ao poder em vários países. Neste ano, o processo continuou com a reeleição de Hugo Chávez na Venezuela e de Lula no Brasil, a vitória de Daniel Ortega na Nicarágua, o triunfo de Rafael Correa no Equador e a vitória da candidata de centro esquerda Michelle Bachelet no Chile.
Neste contexto, os candidatos defendidos pelos Estados Unidos só conseguiram manter posições na Colômbia, em guerra civil, no Peru e no México, neste último, com recurso, segundo a oposição, a uma fraude eleitoral que fazia lembrar os tempos do PRI.
Durante estes ultimos anos, circulou uma piada no Pentágono que dizia que “não é verdade que os Estados Unidos estavam a perder a América Latina por estarem enredados no Iraque; pelo contrário, os Estados Unidos estavam enterrados no Médio Oriente para não pensarem na América Latina…”

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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2 respostas a A revolta do quintal

  1. Ezequiel diz:

    Caro Nuno,

    Sim, é verdade, os EUA aderiram às tradições colonialistas Europeias e interferiram inumeras vezes nas politicas internas de quase todos os paises da America Latina:contra Allende, o programa condor, contra Ortega etc etc. Não os ocuparam, salvo raras excepções. Dominaram uma boa fatia. Poderás acusar-me de ser um realista estúpido, um perfeito imbecil, mas responde-me a esta simples pergunta: Quando é que os estados (ou entidades politico-economicas bla bla) abdicaram do conceito do interesse proprio?

    Poderás também acusar-me de estar a invocar uma aparente evidencia histórica para legitimar uma posição moral ignobil (ou detestável). Repara: eu não estou a defender o argumento de que “ah, se sempre foi assim e se assim é hoje, então tudo bem! ” (não se trata disto, asseguro-te…aliás, isto levar-me-ia a um beco sem saída horrendo onde tudo e mais alguma coisa poderia ser legitimado)

    Todavia, esta parece ser uma “situação” que perdura: condições de precariedade social e política (etc) criam vulnerabilidades que podem ser exploradas (e isto aplica-se aos EUA, a todas as elites Latino Americanas, à Europa e as suas ex-colónias e respectrivas elites, à ex-URSS e os seus satélites, a Àfrica do Sul e as potencias menores do cone africano etc…presumo que o comentador do Le Monde conheça os dramas da elf e da legion em África!!!!) Não se trata de “naturalizar um jogo sujo” mas de tentar explicar os porquês da persistência e aparente “atracção” do jogo…apesar da consolidação de uma opinião publica global-transversal….

    Quanto à relação dos EUA com o seu quintal, talvez fosse interessante considerares algumas mudanças estruturais na economia global. (que está cada vez menos dependente de matérias primas e cada vez mais dependente de know how e de conhecimento) As sociedades feudais (latifundios) não importam ou compram alta tecnologia. Mas as classes médias compram, incluindo as latino americanas! A ascendencia da China e da India tem sido sustentada essencialmente pelos mercados de massas. (mesmo no caso da India,..software medianamente sofisticado exportado a low cost) A competitividade destes paises neste dominio (massas) será quase absoluta. Hoje, a preeminencia dos EUA só poderá ser mantida se surgirem classes médias que comprem e-ou usem tecnologia Americana. O paradigma dos interesses objectivos (minerais bla bla) já se está a dissolver há muito tempo (nos EUA). Se a redistribuição caótica de riqueza do Chavez funcionar (duvido muito)…tanto melhor para os EUA. Estabilidade acima de tudo, sobretudo no quintal!(os impérios quando são geridos por gente inteligente, gostam de estabilidade) Além disso, hoje o Ortega não é uma marionete de Moscovo, nem de Havana. É o socialista Ortega. Quase que poderia candidatar-se ao congresso Americano. A terceira guerra ja´acabou. Tanto quanto sei, os EUA estão satisfeitissimos com a eleição da Bachelet, do Correa e do Ortega…o Chavez é um caso especial porque adora, como bom brutamontes carroçeiro que é, um bom conflito telenovelistico (mas suspeito que ele seja o primeiro a cair).

    Como deves saber, um dos principais dramas que (paradoxalmente) preocupa os Americanos é o da imigração (mais de 40 milhoes de ilegais). Melhores sistemas de assistencia social, melhor educação (etc) na américa latina são políticas que minimizam o surto migratório para norte. Mais tarde, provavelmente imigrarão na mesma…formados em engenharia etc.

    Quanto ao estado, devo dizer o seguinte. Todos os estados há muito que já foram privatizados. Até na Escandinávia, meu caro. Podem ser bem ou mal privatizados. Penso que Weber escreveu umas coisas interessantes sobre este assunto. Mesmo assim, tenho as minhas preferencias por certos estados.

    Não sei, sinceramente, se esta é a posição real-oficial dos EUA. Não sei se esta posição é defendida por algum estratega Americano. Como dizem os Yanks, ” It just makes sense.(to me, evidently)

    cumprimentos, ezequiel

  2. Sérgio diz:

    “A liberalização dos despedimentos, num país com uma classe empresarial como esta, era um risco que eu não correria.”José Maria Ricciardi, JN, 21-09-06 (FRASE DO ANO)

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