Setembro: um historial de violência

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O meu filme do ano é ainda A History of Violence, de Cronenberg (como me tinha parecido que seria, quando o vi em Março), mas o último Scorsese é tão bom que chegou a fazer-me hesitar. No fim, acho que opto por Cronenberg pelas implicações morais, filosóficas, que o filme tem quando passa na minha cabeça. O enredo de A History of Violence é bastante conhecido: um ataque violento, inesperado, ao seu café em small town America torna Tom Stall numa estrela local, por ter competentemente eliminado, em legítima defesa, os bandidos; mas gera também, progressivamente, dúvidas sobre a sua verdadeira identidade. Será Tom o pacato e doce proprietário de um café, bem casado e pai de dois filhos, nesta vilória perdida; ou será ele um gangster de Filadélfia, de nome Joey Cusack, com um passado desconhecido mesmo para a própria família? A história pode também ser contada no paralelismo entre duas cenas de sexo: uma cena inicial, em que o casal protagonista (Viggo Mortensen magnífico, mas Maria Bello ainda é a minha preferida) reencena com grande intimidade e gozo um ritual da adolescência quando os dois ainda não se conheciam; e uma cena posterior entre os mesmos dois, quando as dúvidas sobre a verdadeira identidade de Tom já tinham feito o seu caminho e o acto inicial de violência começado a cobrar consequências. Esta segunda cena tem sido por vezes descrita como de «quase-violação», mas quem usa assim as palavras não está a tratar o filme com o cuidado merecido: porque longe de ser uma cena em que Mortensen força com violência o acto sexual com Maria Bello, é uma cena em que Bello literalmente o agride, o possui e, uma vez consumado o acto sexual, o repele e o expulsa. Ninguém é violado, ninguém é forçado a ter sexo, mas a pulsão violenta e a pulsão sexual confundem-se num mesmo impulso: esse é o cerne da cena. As duas cenas de sexo – a primeira carinhosa, a segunda animalesca – rimam, não para nos dizer que o amor entre Mortensen e Bello foi perdido, mas para ilustrar as consequências do acto fundador de violência e também da desconfiança, do estranhamento, que ele engendrou. E se a cena do início é comoventemente íntima, a segunda, de pulsões e paixões, não é naturalmente menos forte por isso.
O filme é fortemente evocativo do 11 de Setembro: tudo começa com um ataque bárbaro, não-provocado, que obriga a uma resposta violenta (repito: justa) mas que desencadeia uma série de consequências altamente destrutivas. Essas consequências são infinitas, capilares, quase subterrâneas – e o acto inicial põe também em acção um passado de violência que estava ocultado ou mesmo quase esquecido. Uma tradução razoável para o título do filme teria, aliás, feito justiça a este aspecto, lembrando que «A History of Violence» não é tanto «Uma História de Violência» (ou «da Violência»), mas sobretudo «Um Passado de Violência», que é exactamente o que a expressão inglesa «a history of violence» significa quando se refere a um indivíduo com antecedentes criminais. Mas, se é um filme sobre o 11 de Setembro e as suas consequências, também é, como já foi dito, um filme sobre «o casamento», ou pelo menos sobre o que é a confiança, o que significa conhecermo-nos ou podermos confiar na estabilidade da identidade de cada um.
Há uma longa passagem no filme, fortemente «gore» na exposição da violência, protagonizada por William Hurt, às vezes ridícula, que a meu ver poderia ter sido eliminada. Mas a cena final é de novo poderosa, quando Viggo Mortensen regressa a casa e à família, encontra-os à mesa, todos em silêncio, e a filha mais pequena, talvez de seis anos, desata a situação levantando-se para pegar um prato e «pôr o lugar» ao pai. O filme acaba assim, sem uma palavra, sem que possamos saber ao certo como será depois, agora que a violência, o passado e o conhecimento sobre estas coisas todas já foram postos em acção.

PS. Ao leitor: se não gostou deste texto, pode sempre experimentar J.G. Ballard sobre o mesmo assunto.

Existence, in Cronenberg’s eyes, is the ultimate pathological state. He sees us as fragile creatures with only a sketchy idea of who we are, nervous of testing our physical and mental limits. The characters in Cronenberg’s films behave as if they are inhabiting their minds and bodies for the first time at the moment we observe them, fumbling with the controls like drivers in a strange vehicle. Will it rise vertically into the air, invert itself, or suddenly self-destruct? (…)
The title, A History of Violence, is the key to the film, and should be read not as a tale or story of violence, but as it might appear in a social worker’s case notes: “This family has a history of violence.” The family, of course, is the human family, a primate species with an unbelievable appetite for cruelty and violence.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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