Fiquei sem bateria*

Žižek, logo no inicio do seu livro Bem-Vindo ao Deserto do Real, fala sobre a desrealização, a propósito dos cutters, do café sem cafeína, da cerveja sem álcool, da política sem política, mas também a propósito do Time out of Joint de K. Dick. Este autor definia a realidade como “não tanto aquilo que percepcionamos quanto algo que fazemos”. Melhor ainda: “aquilo que não desaparece quando deixamos de acreditar nela”. Žižek estabelece um paralelo entre um diálogo do Matrix (filme que também muito deve a K. Dick), em que o chefe da resistência dá ao herói-messias as boas-vindas ao deserto do real (quando esse mesmo herói descobre que a realidade em que vive é gerada por um computador e que a verdadeira realidade é apenas ruínas e destroços) e o que aconteceu aos cidadãos de Nova Iorque no 11 de Setembro.

Essa data, afinal tantas e tantas vezes antecipada pelos filmes-catástrofe (que estão para o ataque ao WTC como os filmes sado-masoquistas estão para os snuff), antecipada pelo um Hollywood “aparelho ideológico do Estado”, faz com que Žižek se interrogue, não sobre os sonhos dos pobres, mas sobre os pesadelos dos ricos. Ou com que K. Dick afirme: “Esta é uma situação potencial letal. Temos a ficção a imitar a verdade e a verdade a imitar a ficção. Há uma sobreposição perigosa, uma perigosa zona de névoa. E com grande probabilidade nada disto é deliberado”.

Žižek evidencia o torpor em que vivemos, o “consumismo hipnótico”, sublinhando que talvez o terror fundamentalista nos faça emergir. E interpela a surpresa do americano comum perante os bombistas suicidas, indiferentes às suas próprias vidas. perguntando: “Não será o reverso dessa surpresa o facto infeliz de nós, cidadãos de países desenvolvidos, acharmos cada vez mais difícil imaginar nem que seja uma causa pública ou universal em nome do qual estaríamos dispostos a sacrificar a nossa vida?”. Ou a viver… Não obstante sermos percepcionados como mestres, à luz da luta hegeliana entre mestre e escravo, a posição em que nos encontramos é a de escravo “agarrado à existência e aos seus prazeres”, enquanto os radicais “ocupam o lugar de mestre disposto a arriscar a sua própria vida”.

Faltará aos habitantes do mundo desenvolvido aquilo que Philip K. Dick no recentemente editado O andróide e o humano designa de elemento essencial para revelar um ser humano? Para K. Dick os humanos androidizam-se quando “se tornaram instrumentos, meios em vez de fins, e que deste modo são análogos a máquinas no mau sentido, na medida em que, apesar de continuarem a ter vida biológica e metabolismo, a sua alma – por falta de palavra melhor- já não possui existência ou, pelo menos já não está activa”.

Nessa mesma obra, K. Dick insurge-se contra o totalitarismo da sociedade tecnológica e contra a crença num progresso técnico que Paul Virilo recorda ser o mesmo que provocou as catástrofes ecológicas e éticas como Auschwitz e Hiroxima. Não é contra o progresso, diz Virilo, mas adverte que não podemos deixarmo-nos armadilhar pela ideia que a técnica trará finalmente a felicidade: “As tecnologias novas, os media no sentido lato, são a Ocupação. Faço um trabalho de “resistente” porque há demasiados “colaboradores” que, de novo, nos dão o golpe do progresso salvador, da emancipação, do homem liberto de todo o constrangimento”.

K. Dick, por exemplo, reage a um texto utópico do principal engenheiro de uma companhia telefónica, então publicado na “nauseabunda revista Time”, que podem ler e ouvir no filme seguinte.

Os portugueses enviaram neste Natal 250 milhões de SMS. Gastaram mil euros por segundo. TecnoNatal sem causa. Num ecrã perto de si.

*frase típica de um andróide

Fimes por Edgar Pêra
Leituras de Nuno Melo

Dick, K. P. (2006) O andróide e o humano. Tradução de Artur Alves. Lisboa, Ed. Nova Vega.
Virilo, P. (2000) Cibermundo: A Política do Pior. Tradução de Francisco Marques. Lisboa, Ed. Teorema.
Žižek, S. (2006) Bem-vindo ao deserto do Real. Tradução de Carlos Monteiro de Oliveira. Lisboa, Ed. Relógio D´Água.
 

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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12 respostas a Fiquei sem bateria*

  1. Goncalo diz:

    Mil euros por segundo é mesmo muito segundo.

    A questão que se impõe é: e este entra para o Guiness ou não?

    Enfim… “Ai Portugal, Portugal…”

  2. Ezequiel diz:

    Será mesmo uma pena que a ficção nunca tenha abandonado o real! Não faço a minima ideia(????) Será que o real pode ser puro e a verdade imaculada? Não sei. O pessimismo (esta é a outra interpretação) que faz do homem um ser perdido no falso-real é assustador: acredito que podemos percepcionar mais do que aquilo que fazemos. Porventura uma crença estúpida. Mais uma vez, não sei.

    Fazer do “terror fundamentalista” o despertador de uma consciencia “universal” é transformar a morte na condição (última?) necessária, suficiente, e aparentemente sacrosancta da critica e da emancipação. É presumir que a sensibilidade chegou misteriosamente ao fim e que só a terapia de choque do medo da morte (que situação terrivelmente mundana! As coisas não podem ser assim. Devem ser mais complicadas!). A perversão do trauma. A sua transformação em “cura.” Só assim podemos regressar ao real real.

    Continuo agarrado à “existencia (mundana, bem mundana!) e os seus prazeres.” Sou um androide narcissista e egoista. Salvem-me!

    Seja como for, a tour de force. Texto e video fantásticos.
    Congrats! 🙂

  3. Ezequiel diz:

    e que só a terapia de choque do medo da morte é que nos pode salvar.

  4. Ezequiel diz:

    In other words, Zizek needs help!

  5. Ezequiel diz:

    talvez goste disto

    iambic 5 poetry

    http://www.warprecords.com/?mart=WARP148

  6. diz:

    A esquerda “interessada” descobriu o Zizek depois de traduzido para português…o senhor tem outros livros e artigos para além dos dois publicados em português pela relógio d’água. Alguns bem mais interessantes. “On Belief” e o “The Fragile Absolute, Or Why the Christian Legacy is Worth Fighting For” são assaz interessantes.

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Zé,
    Felizmente gente como o senhor que repara que a gente só lê aquilo que vem escrito na edição servo-croata do Jornal de Letras.
    Se quer a minha opinião, acho que os livros do Žižek traduzidos em Português nem são os melhores, ele abusa neles do copy past de outros textos dele.
    Como você tem ar de “direitinha”, aconselho-lhe o “Revolution at the gates” e o “The Ticklish Subject”. O primeiro tem a vantagem de o obrigar a ler Lenine (é uma colectânea de textos do Vladimir Ilich Ulianov sobre a revolução com 200 páginas de Žižek como brinde), a parte de Žižek pode ser lida em prestações no “The Spectre is Still Roaming Around” , “Did Somebody say Totalitarianism?” ou “Tradice Volti Lenin” e em mais meia duzia de livros (pelo menos)… O segundo tem menos versões e é mais hard. Faça bom proveito.

  8. Pingback: cinco dias » 2007 » Janeiro » 02

  9. Ezequiel diz:

    De Lenine a zizek…. Ou Lenine… e Zizek… “como brinde”?!?!?!?!?! Fantastic! Buy one get abother one free!!! Esta hegemonia do mercado é inexorável. 🙂

  10. Ezequiel diz:

    If you had totalitarianism you would FEEL it… belief me!!!

  11. Ezequiel diz:

    bolas… já nem consigo escrever..beliEVE me!

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