A fé única

A menos de dois meses do referendo sobre a despenalização do aborto, ninguém diria que vamos a votos em Fevereiro. A campanha é quase inexistente, mas eu não acho que isso seja forçosamente mau, antes pelo contrário. Infelizmente, salvo raras e honrosas excepções (a que já me referi aqui), não há muita conversa que se possa ter com os apoiantes do “não” – porque tentam sistematicamente transformar aquilo que é uma questão social numa outra transcendental – por isso o melhor que o campo da tolerância tem a fazer é procurar mobilizar para o voto, e para a fiscalização da liberdade de voto.

Uma ilustração da impossibilidade de debater com boa parte dos partidários do “não”, e da sua estranha concepção das relações entre a fé e a lei, está patente num tal de “Blogue do Não”, para o qual uma amiga chamou recentemente a minha atenção. À entrada, o dito blogue tem uma sondagem: “Na sua opinião, existe vida humana às 10 semanas?” Eu não fui ver a resposta, porque acho que a pergunta já chega: os seus autores acham obviamente que há “vida” (seja lá o que isso for) antes das dez semanas, presumivelmente logo que um pingo de esperma se esgueira para fora de um preservativo furado, mas não lhes basta a certeza das suas convicções: em nome delas querem mandar para a prisão quem porventura pense e aja de modo contrário. No fundo, parece tudo uma questão de local e de oportunidade: há trezentos anos, esta espécie de defensores da “vida” devia conviver bem com os rigores da Santa Inquisição; hoje (viva o progresso!) contenta-se em fazer sondagens absurdas num blogue, mas a sua atitude é tão intolerante em relação às convicções alheias como sempre foi.

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SEXTA | António Figueira
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7 respostas a A fé única

  1. Pedro Geada diz:

    Post completamente ridículo e despropositado. Diz a tradição portuguesa que “Perguntar não ofende”. Desde quando é que fazer uma sondagem sobre a vida às 10 semanas é comparável à inquisição, a dizer que há vida no esperma, a querer mandar todos para a prisão e a misturar lei e igreja? Espero que percebam que esta comparação é um exagero completamente absurdo.

    Por outro lado o vosso post foi esclarecedor. Se nem sequer sabem o que é a vida, e nem sequer admitem qualquer pergunta deste tipo, percebe-se que o vosso voto não faça qualquer sentido.

  2. José Corte-Real diz:

    Se reduz “vida” a uma coisa obscura, sem definição, para o “seja lá o que isso for”, então porquê 10 semanas? Porque não 30 semanas? Porque não na véspera do nascimento?????? Porque não, até, após o nascimento? Aonde começa o direito á vida? Você tem vida? Como a define? Não há um único clínico especialista em obstetrícia que lhe diga cientificamente “a vida começa a partir da data x”. Todas as datas definidas actualmente são segundo critérios arbitrários. E veja lá que nem sou católico…

  3. António Figueira diz:

    Caros Pedro e José.
    Obrigado pelos vossos comentários.
    Como um de vós muito bem diz, não existe nenhum critério científico qua diga quando nasce a “vida”, nem tampouco uma definição do que constitui uma pessoa; todos estaremos de acordo para reconhecer a sua presença nos casos mais evidentes, mas nas situações de fronteira existem apenas crenças e nada mais do que isso: podem dizer-me, por exemplo, que um feto de cinco semanas é uma pessoa, mas eu, embora respeitando essa crença, permito-me duvidar. Eu não pretendo obrigar ninguém a pensar como eu, mas aqueles que sustentam que os fetos com menos de dez semanas são pessoas pretendem que quem pensar e agir diferentemente, e por razões que são suas e da sua consciência interrompa uma gravidez, deve ser preso – ou no caso presa. Em suma, na falta de uma certeza científica ou de um consenso social, têm uma crença que pretendem impor por lei a toda a gente. Ora isso configura uma tentativa de impor na lei que é de todos uma concepção metafísica que é apenas de alguns, e é a essa “fé única” que eu me oponho, em nome da tolerância.
    Cordialmente, António Figueira
    PS Ao Pedro apenas: o “vosso” que usa no seu comentário é despropositado: este post é meu e apenas meu, e não faz parte de campanha nenhuma; mais lhe digo que o meu voto faz tanto “sentido” como o seu: corresponde à minha intenção como o seu corresponde à sua, e pesam tanto um como o outro. Perdoe-me que lhe diga, mas penso que V. exemplifica bem a intolerância a que eu me refiro no meu post.

  4. Antonio Silva diz:

    O que era bom, era que essas pessoas da campanha do não fizessem a pergunta de: se há vida aos dois anos de idade????
    Isto a propósito de uma criança que morreu há uns dias, como tantas outras ao longo deste ano, dos anos passados… desde que esta sociedade hipócrita e estes hipócritas, querem de todos os modos controlar a vida das pessoas, para à sua custa viverem uma boa vida e não se preocuparem em CRIAR CONDIÇÕES DIGNAS PARA TODOS OS SERES HUMANOS! Que isso sim! seria uma verdadeira campanha pelo direito à vida.

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  6. E qual é a sua tolerância às opiniões dos outros?!?

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