O bacalhau e os bifes

A dieta do nosso Natal em família, rica em bacalhauzadas e outros pesos pesados, pede leituras ligeiras para acompanhar: jornais, revistas e/ou artigos inferiores a vinte páginas. Um must da época é a edição especial do Economist, onde, entre muitas outras inutilidades, descobri um artigo sobre a história da imprensa popular inglesa, a propósito de uma antepassada da Princesa Diana do início do século XIX, Carolina de Brunswick de seu nome, que protagonizou uma história semelhante à da nossa conhecida “Princesa do Povo”, mas desta vez com Jorge IV no papel do mau. O artigo, mais do que fazer pensar na extraordinária propensão dos ingleses para histórias foleiras com princesas adúlteras, lembra um dado notável, sobretudo para leitores portugueses: que a imprensa inglesa da altura registava tiragens de dezenas quando não de centenas de milhares de exemplares, sendo que cada um desses exemplares era lido por mais de vinte pessoas em media (e lido em público, nos pubs, a quem não soubesse ler) e que, em resultado disso, um observador podia, à época, descrever “o povo daqueles reinos como um povo leitor, inquiridor e propenso à dúvida”.

Porque nem só de Economist pode viver um homem, aproveitei também as digestões natalícias para folhear uma edição nova do I.C.S., uma colectânea de estudos em homenagem a Hermínio Martins intitulada “Razão, Tempo e Tecnologia” que inclui, entre outros motivos de interesse, um artigo de Manuel Villaverde Cabral (M.V.C.) chamado “Despotismo de Estado e sociedade civil em Portugal; distância ao poder, comunicação política e familismo imoral”. Despido da canga académica que atrapalha a sua leitura, o artigo ler-se-ia optimamente, porque tem a escrita ágil e a intuição segura dos escritos de M.V.C., mas mesmo na sua versão actual, truffée de referências eruditas e com uma bibliografia equivalente a um quinto da sua extensão, o artigo consegue ainda assim despertar o interesse de um leitor diminuído pelos torpores do Natal. Nele, M.V.C. refere-se ao uso da iliteracia como forma de contrôlo social e condição do “despotismo administrativo” com que “os donos do poder” tratavam entre nós as massas ignaras e cuja herança sobreviveu à transformação democrática do poder político e à própria alfabetização, retirando qualquer conteúdo real e operativo ao conceito de “sociedade civil” e gerando como estratégia de defesa o “familismo imoral” que também se encontra noutras sociedades de matriz católica do Sul da Europa.

M.V.C diz que “a história da iliteracia em Portugal está por fazer” e sem dúvida que, se os two penny trash contribuíram para criar no Reino Unido, de forma duradoura, uma opinião interessada e crítica, a ausência, igualmente na longue durée, de um público leitor no nosso país, muitas consequências (e certamente que não as melhores) há-de ter tido na conformação dos hábitos políticos e culturais dos portugueses. O seu reflexo nas classes possidentes é visível desde, pelo menos, os alvores da modernidade: há poucas semanas, fui assistir a um seminário de Nuno Gonçalo Monteiro sobre, nomeadamente, as modalidades de circulação cultural no Portugal da dinastia de Bragança, no período da Restauração ao Liberalismo, e lá o ouvi dizer que a famosa “lenda negra” com que os autores das Luzes estigmatizavam as monarquias ibéricas, se tinha o seu quê de exagerado no caso espanhol, no caso português só pecava por defeito: é só questão de fazer as contas às grossas fazendas das grandes casas da época e, dando o devido desconto àquilo que o Terramoto terá enterrado, contabilizar depois as miseráveis bibliotecas que, mesmo com todo o ouro do Brasil, elas deixaram à posteridade. Nuno Gonçalo Monteiro faz apenas a história das elites e das suas explicações as classes populares estão estranhamente ausentes; mas certamente que, do lado dos desapossados, algo deve ter também ficado, nos hábitos mentais, do desamor de inspiração católica pela leitura e das formas de dominação social que lhe estão associadas: um espírito de luta exacerbado por parte dos mais tenazes, a tendência dos outros para a conciliação e para procurar resolver à escala individual aquilo que deveria ser objecto de processos colectivos de contestação e transformação social, em nome de um realismo as mais das vezes eticamente reprovável, mas sempre, em todos os casos, uma inflexibilidade e uma intolerância que são típicos de quem pouco leu e pouco discutiu e, por isso mesmo, não sabe ouvir.

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SEXTA | António Figueira
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