Caetanear

Na revista Ler História, publicação académica, descobri meio por acaso algumas das linhas mais interessantes que tenho lido sobre a chamada música popular brasileira. Não que tenha, propriamente falando, muita novidade, mas clarifica algumas distinções e talvez ajude a dar sentido a muitas coisas. [Depois da dobra.]
(…) A importância do tropicalismo é inestimável. Ele explodiu o centro, isto é, o centro cultural brasileiro. Acabou com as máximas reveladoras do centro, implodindo o proselitismo, seja ele de esquerda ou seja ele de direita. O tropicalismo acaba com o caráter demiurgo e político de um violão e de uma letra de música. Acaba com a crença nessa narrativa tão cara à esquerda e que foi legitimadora de um certo padrão cultural no Brasil. Como diz Caetano Veloso, ele quer «explodir colorido».
(…) Caetano sempre esteve muito atento às palavras e às suas particularidades. Preocupava-se em utilizá-las para destruir, descentrar e dissolver as unidades e as lógicas unitárias. (…) Talvez Caetano tenha descoberto como poucos que a palavra é um jogo e que tem um movimento que pode ser rebelde e desviante. Já no caso do Chico Buarque, ele ainda é, em grande medida, o pensamento da centralidade. Chico acredita ainda naquela palavra e naquele violão, nessa narrativa e nessa canção. Acredita ainda nessa força de contestação.
(…) Mas mais importante do que as outras palavras, Caetano Veloso e o tropicalismo dão expressão ao corpo e ao movimento aprisionados pela ditadura. (…) Caetano está sob tortura, sob violência da polícia e é aí que ele chega a uma crítica muito radical do regime. Procura libertar o corpo, essa é a sua busca da linguagem. «Deixe eu dançar/ pro meu corpo ficar odara/ Minha cara, minha cuca ficar odara/ Deixe eu cantar/ que é pro mundo ficar odara/ pra ficar tudo jóia rara». (…) Não é a questão da letra, é a questão do corpo. Quando cantou a letra de Chico, cantou oprimindo com a sua mão a sua cabeça, empurrando-a. Aí, a crítica de Caetano está mais na tonalidade das palavras e na expressão do corpo do que no significado literal das palavras. (…)
[da entrevista de Edgar de Decca, historiador brasileiro, a José Neves, «Por uma História Odara», Ler História 49, 2005]

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.