Os amigos da Turquia

O Primeiro-Ministro turco afirmou que o Papa, quando visitou o seu país, lhe disse que era a favor da sua adesão à UE e a Casa Branca também já fez saber que é da mesma opinião. A afirmação de Erdogan vale o que vale (o próprio Papa nunca confirmou nem desmentiu as palavras que lhe eram atribuídas), mas suscitam uma questão (pelo menos): que legitimidade têm terceiros – sejam eles Bento XVI ou George Bush – para se pronunciar sobre o que a UE deve ou não fazer em relação à Turquia? A UE acaso opina sobre se o Vaticano ou os EUA devem alargar ou encolher? Salta à vista o que o alargamento a 25 já fez à União, salta ainda mais que quem patrocina agora a adesão da Turquia não é quem quer uma União politicamente forte.

 

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , , . Bookmark the permalink.

7 respostas a Os amigos da Turquia

  1. pedro diz:

    Será que ninguém consegue perceber que a solução é tão fácil e visível: don’t know don’t care

  2. ezer diz:

    Bene trovato!

  3. luiz diz:

    gosto muito deste género de não argumentos “salta à vista”. Mas o que será que lhe salta à vista?A mim salta à vista tanto que não percebo ao que se refere.

  4. António Figueira diz:

    Caro Luiz,
    Efectivamente, as vistas não tão todas iguais, e há-as longas longas e curtas. No caso do alargamento a 25, refiro-me ao facto de a UE ter regredido ao estado de área de comércio livre com apenas algumas flanking policies, sem coerência nem ambição política, e no caso do alargamento à Turquia refiro-me ao agravamento dessa tendência.

  5. Sérgio diz:

    Caro António Figueira,
    Já uma vez postou sobre a problemática da questão turca. Fez bem e melhor fez em regressar a este tema.

    Mais do que com qualquer argumento mistificador, o assunto merece (também) ser abordado não tanto de uma perspectiva que centre todas as atenções na Turquia (para além da evidente exigência do cumprimento dos critérios), mas do ponto de vista da União e de uma reflexão sobre a sua natureza. Os termos em que colocou a sua argumentação constituem uma oportunidade interessante.
    Quando me refiro à União não estou a pensar na aritmética de mercearia do somatório dos interesses nacionais divididos pela conveniência do momento. Refiro-me antes à União enquanto projecto político que assegurou a estabilidade europeia por via da superação da suicidária cegueira nacionalista. Apesar de a integração europeia ter começado o seu percurso através de sectores económicos concretos, a verdade é que almejava a mais do que uma simples componente mercantil de integração mínima, como uma zona de comércio livre, por exemplo. Estou, portanto, persuadido que existe uma lógica de base supranacional inerente à integração, o que a transforma numa experiência internacional inédita. Apesar das críticas admissíveis às teses federalistas ou neo-federalistas, verifica-se que o aprofundamento da integração tem sido uma fórmula eficaz de resolução de problemas com que a Europa se debateu. Não deixa, aliás, de ser significativo que uma certa «crise existencial» que se reconhece afectar a UE nos últimos anos prende-se com a incapacidade (ou falta de vontade política) de se completar a componente económica e financeira com uma componente política que lhe assegure um mínimo de coerência. Também não será absurdo pensar que uma certa tendência (neo)liberal quer dos governantes nacionais quer das instituições comunitárias ajuda ao afastamento entre cidadãos e UE.
    Não defendo, de maneira nenhuma, o fechamento a futuros alargamentos, mas é verdade que antes de adicionar novos interesses nacionais, seja conveniente preparar as instituições para funcionarem mais eficazmente. Concordo com aqueles que propõem o aprofundamento da integração através de uma lógica federalista para mitigar o impacto de se ter 25, 27 ou mais de trinta Estados Membros. Porque, como o António sugere, com estes moldes institucionais (onde julgo existir alguma primazia intergovernamental), os alargamentos implicam o sério risco de bloquear as grandes decisões políticas e permitir, apenas, o mínimo denominador comum que passa pela liberalização económica…
    Atenciosamente.

  6. António Figueira diz:

    Caro Sérgio,
    Obrigado pelo comentário. Como muito bem observa, penso que a questão da adesão da Turquia pode e deve ser vista também do ponto de vista dos interesses da União. Sob este ponto de vista, creio que a oposição, tão do gosto da imprensa, entre “alargamento” e “aprofundamento” é muitas vezes uma simplificação de escasso valor explicativo; nos tempos que passam, no entanto, creio que o risco de adicionar aos 25 – ou 27 – a “democracia” turca não pode senão significar a transformação definitiva da União na EFTA alargada com que alguns sectores sonham desde há mais de meio século (alguém pensa, por exemplo, integrar os partidos turcos existentes no exercício de criação de partidos políticos à escala europeia que o desenvolvimento da uma democracia europeia a prazo exige?…). A adesão à UE significaria sem dúvida um acréscimo de direitos e garantias para a população turca – e para mim um turco vale tanto como um alemão ou um português – mas esse valor acrescentado não pode ser conseguido à custa da menorização do próprio projecto europeu, sob pena de ficarmos, no final, todos a perder.
    Melhores cumprimentos – e bom Natal,
    António Figueira

  7. Sérgio diz:

    Muito bem pensado, como sempre.
    Votos de uma excelente quadra festiva.
    Sérgio.

Os comentários estão fechados.