Beyond the Pale

Beyond the pale” é uma expressão curiosa: “para lá da paliçada, não há civilização”. Eu julgava que tinha origem na história da ocupação inglesa da Irlanda, mas afinal parece que não é bem assim. A Conferência que foi organizada em Teerão sobre o sionismo e o holocausto situa-se claramente para lá dos limites da civilização, mas o editorial que o de costume tão razoável Financial Times lhe dedicou, intitulado precisamente “Beyond the Pale”, não é menos inquietante, pela justificação que parece fornecer para um ataque militar ao Irão (leia-se o último parágrafo). Estará tudo doido? Olhando para o lado, para o atoleiro do Iraque, lembro-me de uma velha canção do Maxime Le Forestier: “Dien-Bien-Phu leur a pas suffi / ils viennent s’installer ici”.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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7 respostas a Beyond the Pale

  1. Ezequiel diz:

    Caro António

    Não me parece que o artigo forneça uma justificação para um ataque militar ao Irão. Apenas constata uma corelação entre A e B. Uma leitura (igualmente) ligeira deste teu texto poderia deixar-me com a impressão que te opões a um ataque mal sucedido mas não a um bem sucedido?!?!? Como diria um hermeneuta conhecido: “Interpretation is a bitch!”

    Gostaria de te perguntar o seguinte: o que é que tú pensas que se deve fazer quanto ao Irão? Talvez fosse sensato começar por aqui.

    Cumprimentos, ezequiel

  2. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,
    Interpelaste-me directamente, mereces uma resposta (nem que seja curta, porque o tempo não abunda): longe de mim querer proliferar o átomo, mas há que reconhecer que o status quo actual na matéria não tem outra justificação senão a da pura força (porque hão-de os vencedores da II Guerra – e Israel – ter direito ao estalinho atómico e os outros não?) ou, pior ainda, permite que quem tergiversa se “safe” (exemplos: Índia e Paquistão, ou mesmo a Coreia do Norte); logo, parece-me que é fundamental encontrar um novo modus vivendi, universal e abstractamente justificável, em matéria nuclear, porque é absurdo pensar que, quando a tecnologia existe, é possível impedir facilmente a sua proliferação – sobretudo quando a experiência lamentavelmente ensina que um regime que realmente dispõe de armas de destruição de massas tem mais hipóteses de sobrevivência que um outro a quem essa acusação é feita, mas depois não dispõe realmente das ditas para efeitos do seu poker político.
    Cumprimentos, AF

  3. Ezequiel diz:

    Caro António,

    Vou tentar ser sucinto porque também não disponho de muito tempo. Começo do fim para o principio.

    1-Penso que acertaste em cheio: A motivação central do regime iraniano é o da sua preservação. Todos os regimes que possuem armas nucleares são, de certa forma, intocáveis, como o caso da Coreia do Norte o demonstra. Apesar da constituição iraniana decretar a instituição de um “califato global! (com muitos véus) como um objectivo estratégico nacional, a motivação essencial para a obtenção do nuclear é interna: assegurar a impermeabilidade do regime e da sociedade iraniana às “influências” externas que (agora) se configuram pro-democraticas por razões estritamente estratégicas( Não tem nada a ver com altruismo democrático…pela simples razão de que a democratização e liberalização (real) é a melhor forma de fragmentar o absolutismo teocrático. Não conheço outra, historicamente falando.

    2- O “outro” a que te referes, presumo eu, é o Iraque. Pois bem. O Iraque possuia ADM. Usou-as contra os Kurdos e os Chiitas do sul do Iraque. Existem inumeros relatórios das NU nos quais de mencionava este perigo para a estabilidade regional. O programa de saddam era bem conhecido.(e espero não ser mal compreendido. Nunca defendi a decisão de se iniciar uma guerra contra o Iraque. Foi um erro verdadeiramente trágico cometido por miopes. No entanto, a minha oposição às decisões da admin Bush nesta matéria especifica não se pode transformar numa miopia semelhante.) A verdade é que ninguem sabia se o Iraque possuia as ADM ou não. A admin Bush conseguiu transformar uma incerteza (ou probabilidade) real numa certeza política, com muita manipulação e adulteração pelo meio.

    3- O caso do Paquistão é um caso clássico de equipoise de balança de poder. A India encarrega-se de conter os impulsos bélicos do Paquistão, apesar do célebre caso do cientista paquistanes que, segundo os media britânicos, era um fervoroso participante no jogo macabro da proliferação.

    4- Se colocares as coisas ao nivel de direitos, toda esta discussão transforma-se num bla bla abstracto. Poderia até ser possivel defender o direito do Irão possuir armas nucleares, do ponto de vista formal. Todavia, a questão fundamental não é a dos direitos de um estado mas a da natureza de um regime. O vocabulário dos direitos, nas relações internacionais, contempla primordialmente os estados. Ora, como deves saber, são poucas as qualificações acerca da natureza dos estados. Esta é uma lacuna grave e perigosa já identificada por muitos académicos brilhantes, como Thomas Pogge, por exemplo. Um governo que afirma repetidamente a sua intenção de erradicar um outro estado, que afirma que o ocidente decadente e perverso está condenado a mergulhar na mais profunda das trevas (?), é um perigo imenso. Nunca existirá, “um modus vivendi universal e abstractamente justificável” enquanto os teocráticos fanáticos do conselho supremo dominarem o governo e o poder real (repressivo) no irão. Isto não tem rigorosamente nada a ver com direitos.

    5- Concluindo, o erro mais habitual é o de presumir que a nossa racionalidade pode ser dialógicamente traduzida (ou vice versa)ou compatibilizada com a racionalidade fundamentalista teocrática (refiro-me aos radicais iranianos e não à cultura ou sociedade iraniana tout court). Todos os dogmas extremistas são cegos, surdos e mudos em relação a tudo aquilo que lhes é estranho. A esquerda europeia, por mais estranho que pareça, ainda não percebeu isto. Ou melhor, consegue vislumbrar o problema mas não consegue aceitá-lo. A reacção tipica é a da negação.

    Seja como for, não vou argumentar que existe uma solução fácil para tudo isto. Estamos perante um imbroglio trágico e REAL. Todas as “soluções” são péssimas. Acerca disso ninguém tem duvidas.

    Os nossos sistemas assentam, por vezes precariamente, na visibilidade dos processos de decisão (uma visibilidade que por vezes não é tranformada em responsabilização ou “accountability”). O irão tem uma “política regional” invisivel. Sabe-se que apoia incondiconalmente o hezbolah e o hamas. Sabe-se que tem um política imperial, parcialmente inspirada em ideais persas bla bla bla. Todavia, nós não vemos as acções que promovem estes objectivos. Esta “invisibilidade” (apesar das declarações explicitas do lider iraniano) é muito problemática para todos os regimes democráticos e para as sociedades abertas: gera a ilusão da simulacra de Baudrillard (neste caso, invertida, e na elaboração baudrillardiana, a simulacra subsitutiu a realidade. Aqui a realidade é ofuscada). Daí a desconfiança das nossas sociedades em relação às posturas dos nossos políticos face a este tipo de problema. Isto já vai longo…

    Em suma, o mundo dos dogmas radicais (todos eles, sem excepção) é o da interioridade pura.

    Sorry for the diatribe.
    Melhores cumprimentos, ezequiel

  4. Ezequiel diz:

    pertinent, very pertinent…listen to the lyrics homie!

  5. Ezequiel diz:

    how german can break the flow of kool..damn damn!

  6. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,

    Desculpa o atraso; o meu pouco tempo é mais pequeno do que o teu, por isso vai a correr:
    1) O Irão quer proteger-se, e por isso procura obter o dissuasor nuclear, e o facto de os seus vizinhos a leste e a oeste terem sido ambos invadidos recentemente faz pensar que esse objectivo não é ilógico (afinal, o que procura Israel com a sua própria bomba?)
    2) Aprecio o crédito que ainda dás às explicações de Bush e de Blair para a questão das ADM iraquianas; sobre o assunto, eu penso o mesmo que a grande maioria da opinião pública mundial – isto é, que a ameaça das ADM foi pura e simplesmente inventada, a benefício da legitimação de uma agenda político-militar imoral e inepta.
    4) A tua argumentação é uma variante sofisticada do discurso do Eixo do Mal e, antes dele, do discurso do containment, da Guerra Fria e do Império do Mal; o direito que te arrogas (de analisar e condenar a natureza do outro regime e retirar daí consequências no plano das relações entre Estados) é obviamente unilateral e reversível: o outro pode pensar o mesmo de ti, e o resultado desse enfrentamento agonístico, na era nuclear, é a possível destruição do planeta; é obviamente necessário recorrer ao direito (aos modus vivendi universal e abstractamente justificáveis, como disse antes) e abandonar a via do aventureirismo militar e do expediente político, se pretendemos sobreviver.
    5 – O problema que tu encontras na esquerda europeia é com a esquerda europeia: fala com ela, não sou eu que o resolvo em seu lugar. Eu acho o regime iraniano um regime detestável, mas julgo que é aos iranianos que compete livrarem-se dele. Não vejo nenhum tipo de vantagem na sua diabolização, nem me parece que o Irão seja a única má influência no Médio Oriente, longe disso.
    Melhores cumprimentos,
    António Figueira

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