As cidades

[do Público de 16 dezembro 2006]

Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas.

Na Grécia antiga, os cidadãos que governavam o dia-a-dia das cidades democráticas como Atenas, onde tinham o nome de buleutas, eram escolhidos por sorteio. Não é um método que eu defenda. Mas é um método que dá que pensar: imaginem que alguém abria ao acaso uma lista telefónica da capital e punha o dedo em cima do nome da senhora Maria da Conceição Silva, de São Domingos de Benfica, ou do senhor Manuel Ferreira, de Marvila. Alguém acredita francamente que seriam piores presidentes da Câmara Municipal de Lisboa do que Carmona Rodrigues?

Muitos lisboetas devem ter sentido o mesmo, esta semana, durante a emissão daquela maratona televisiva que dá pelo nome de Prós-e-Contras. Só ali, na mesa em frente, estavam quatro vereadores da oposição — por ordem crescente de votação, Maria José Nogueira Pinto, José Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e Manuel Maria Carrilho — e pelo menos três desses quatro parecem passar como mais sérios e consequentes do que o Presidente da Câmara. Pior ainda para Carmona Rodrigues, os “seus” vereadores na Câmara também não estão longe de andar convencidos que são melhores do que o chefe, e pareciam olhá-lo com cara de quem o considera um mero pretexto para que cada um deles se mantenha no seu respectivo pelouro. A presidente da Assembleia Municipal, Paula Teixeira da Cruz, também já fez questão de demonstrar que tem vida própria. Nada disto pode ser bom para a “liderança” de Carmona Rodrigues, caso não fosse este um termo demasiado caridoso: desconfio que parte da sua equipa não desdenharia fazer o mesmo que fez Maria José Nogueira Pinto, e fugir ao primeiro pretexto desta presidência em torpor radioactivo.

Carmona Rodrigues sabe que deve a sua eleição a ter-se mantido inodoro, insípido e incolor perante dois termos de comparação que eram as personagens mais escarnecidas do Portugal do momento: Pedro Santana Lopes (de quem ele foi braço-direito) e Manuel Maria Carrilho. No início era importante não ser o primeiro, com cujos desastres colaborou, e no fim teve a sorte de não ser o segundo, queimado numa campanha suicida. Com essas comparações, Carmona Rodrigues consegue parecer menos um produto da imagem do que efectivamente ele é. Carmona Rodrigues tem imagem de engenheiro tecnocrata mas não consegue acabar um túnel. Tem imagem discreta mas não há condomínio que ele não aprove. Tem imagem de “independente” mas veta o nome de um administrador em obediências ao líder de um partido. Tem imagem de não ser “político profissional” mas quando acossado recorre a todas as manhas da cartilha politiqueira (incluindo trazer uma claque organizada para o aplaudir). E finalmente, tem uma imagem de eficiência absoluta conquistada a fazer rigorosamente nada.

A gravidade de tudo isto em Lisboa seria menor no tempo em que o estado-nação era a unidade quase exclusiva da política, cuja acção determinava por arrasto a evolução das capitais. Então o presidente de uma cidade não precisaria de ser mais do que um regedor, e talvez Carmona Rodrigues chegasse para isso. Hoje, com as fronteiras nacionais diluídas (por causa da “globalização”, da concorrência intra-europeia e até da emergência de certas regiões), as escalas misturaram-se e o papel das cidades sofreu uma mutação notável. Há poucos anos, Londres não tinha sequer um mayor; hoje em dia não será propriamente uma cidade-estado como a Atenas do tempo dos buleutas mas aparece aos olhos contemporâneos como uma realidade autónoma, uma cidade-mundo que possui uma identidade particular ao mesmo tempo que é um motor do seu próprio país. Isto — que não começou ontem — não vale só para uma cosmopolis como Londres.

Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas. O deficiente que não consegue contornar o carro estacionado no passeio, a mãe que não passa com o carrinho de bébé, o filho de imigrantes que não sai do subúrbio, o idoso que está preso no centro — é aqui que se jogam os conflitos futuros. É nas cidades que se sente a primeira exclusão e injustiça (ou é nelas que, se as políticas forem boas, nos é dada a primeira oportunidade — que se entra na primeira biblioteca pública — que se participa num torneio desportivo).

Nada disto deixa de ser banal; inquietante é que Carmona Rodrigues não tenha sabido cumprir com nenhuma das estratégias possíveis e evidentes. Não tem servido para competir globalmente (tirando a ideia vaga — e lenta, lenta, lenta — de imitar Bilbao, sem pensar que Bilbao não chegou lá pela imitação). Mas o pior é que não tem sequer servido para tapar buracos no passeio.

(Olhando em torno, o panorama não é melhor. No Porto governa um populista que elegeu como principais adversários, não os especuladores, não a precariedade, mas os artistas. Braga parece ter passado directamente do feudo do Arcebispo para o feudo de Mesquita Machado. Coimbra curte ainda e sempre a sua crise de personalidade.)

Se passarmos cinco anos — os mesmos cinco anos que Carmona Rodrigues já leva de responsabilidade política na capital — sem visitar uma qualquer cidade europeia, as mudanças saltam imediatamente à vista. Em Lisboa é preciso puxar muito pela cabeça para lembrar algo que Carmona tenha feito (começado e acabado) ou que vá melhorar a cidade para o futuro. E não faltam coisas para fazer: de ano para ano Lisboa é cada vez mais dura para os seus habitantes, mais infestada de automóveis, entupida até à asfixia, com quartéis vazios a ocuparem espaços nobres na zona antiga (à espera do imobiliário?) e uma rede de transportes sem soluções. O potencial de Lisboa é grande e reconhecido, mas a cidade está hoje mais longe de o cumprir do que de tornar-se insustentável. Carmona Rodrigues não tem unhas para esta guitarra.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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Uma resposta a As cidades

  1. Nuno Cruz diz:

    Não, no Porto não está melhor.

    Deixei o Porto para ir viver para a Bretanha há cerca de dois anos e meio. E cada vez que volto tenho uma sensação de mágoa imensa, como uma cidade que me desiludiu e onde não penso voltar a morar. A elite cultural practicamente não existe, e muito menos uma elite política (quem nos dera um qualquer dos vossos candidatos a presidente da câmara, quem nos dera!…).

    E o Rui Rio encarregou-se, com distinção e eficácia, de eliminar o pouco que havia de interessante…

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