Um chá em Teerão

O debate sobre o véu islâmico tem animado o 5 Dias. Depois do meu artigo, o António Figueira publicou este interessante e discordante texto. O Ivan Nunes trouxe a necessária síntese da Economist, o António voltou a responder e o Nuno Ramos de Almeida contribuiu com a tradução do imprescindível artigo de Alain Badiou. Nesta terça-feira o António abordou, de novo, esta questão. Enfim…os argumentos fundamentais, de ambos os lados e em várias tonalidades, estão lançados.  No essencial, mantenho a minha posição inicial, se bem que os vários contributos- inclusive dos leitores-comentadores – têm sido relevantes para a aprofundar e consolidar.             Entretanto, li Embroideries, da Marjane Satrapi,  que muitos conhecerão através do Persepolis.

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Sem a claustrofobia de imagem e sem a asfixia de algumas discussões, este trabalho da autora iraniana é subversivo, generoso e divertido. Em muitas páginas há riso e raiva em simultâneo. Tanto quanto Satrapi vai pontuando entre a memória e a ficção. E pode acrescentar algo a esta conversa sobre as cabeças-tapadas.

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No chá em Teerão, as mulheres de Satrapi tiram o véu e têm conversas de fazer corar qualquer personagem do Sexo na Cidade. Tudo isto enquanto os homens fazem a sesta, claro. Até porque a vida tem os seus altos e baixos e, como diz a superavózinha da autora: “sometimes you’re on the horse’s back, and sometimes it’s the horse that’s on your back.” Um livro que, certamente, jamais teria a aprovação dos Ayatollahs Khomeinis. Contudo, e como afirma Helen Brown nesta crítica do Telegraph: “Satrapi (…) has written elsewhere that Western women are all eager to ask about the private dramas concealed beneath the dark folds of Middle Eastern culture. Embroideries really rips into the myth that all Iranian women are oppressed in their own bedrooms, while also stripping bare the sadness experienced by those married to old men, money-grabbers and the hypocrites who pretend to be “enlightened” while smothering the needs of their partners. “

Mas siga a discussão sobre o véu. Como também diz a velhinha viciada em ópio: “To speak behind others’ backs is the ventilator of the heart.”

Fica uma das histórias…

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Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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3 respostas a Um chá em Teerão

  1. Ezequiel diz:

    ah ah ha ha ha haha ah h 🙂

    Não percam o HARDtalk de hoje, na BBC 24.

  2. António Figueira diz:

    Boa lembrança, a Satrapi. Entre os Persepolis e este, ela publicou também o Chicken with Plums (ou Poulet aux prunes, porque ela vive e trabalha em França) que também vale muitíssimo a pena.

  3. Pedro diz:

    Será que também é discriminação os “youngsters” britânicos terem sido proibidos de entrar nos centros comerciais de capuz ou boné na cabeça?
    Estou confiante que também eles têm conversas capazes de chocar qualquer interveniente do Sexo e a Cidade.

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