O véu e a esquerda

I

Nunca achei muito relevante a discussão sobre o que distingue a direita e a esquerda e, para todos os efeitos práticos, subscrevo o famoso aforismo de Alain segundo o qual essa é uma discussão de direita (mesmo que seja feita em nome da renovação da esquerda). Reconheço, no entanto, que o estimulante livro de Norberto Bobbio, Destra e sinistra, veio refundar o debate intelectual sobre a grande dicotomia política da modernidade. Foi neste novo quadro que Steven Lukes procurou definir o que caracteriza a tradição e o projecto da esquerda, radicando-os no Iluminismo, atribuindo-lhes essencialmente uma intenção igualitária e crítica da tradição e identificando-os pela incarnação daquilo a que designa por “princípio da rectificação” (das injustiças sociais passadas e presentes, e que inclui também a prevenção das injustiças futuras). A tomar por boa esta definição, parece-me perfeitamente aceitável afirmar que a interpretação que as autoridades francesas fizeram da laicidade escolar no caso do uso do véu pelas liceais de origem imigrante foi uma interpretação progressista e de “esquerda”, eventualmente contestável do ponto de vista da sua proporcionalidade (ou da adequação dos meios utilizados aos fins prosseguidos) mas não dos princípios – ou seja, e utilizando as velhas categorias da cultura jurídica, contestável do ponto de vista de uma “jurisprudência dos interesses” mas não de uma “jurisprudência dos conceitos”.

II

A ideia de que o Estado não pode nunca estabelecer proibições destinadas a salvaguardar a liberdade individual não é liberal nem libertária, é absurda, e comparar o uso do véu pelas raparigas muçulmanas com o de um qualquer adereço de moda num contexto ocidental é demasiado sofístico para poder servir de base a uma discussão séria. Em qualquer caso, parecem-me sintomas daquilo a que chamaria um “liberalismo amputado”, porque apenas reconhece a liberdade como não-interferência – a liberdade “negativa”, na terminologia de Isaiah Berlin. Sucede que a destrinça conceptual entre liberdade “negativa” e “positiva” (que já estava presente em Kant, antes de Benjamin Constant ter popularizado a distinção, que lhe corresponde, entre a liberdade dos “modernos” e dos “antigos”, e muito antes de Berlin três escrito os seus famosos “Quatro Ensaios”) não impede que o conceito de liberdade seja na realidade só um. A liberdade exige sempre a remoção dos obstáculos que impedem o indivíduo de atingir os seus objectivos de vida; ora em múltiplas circunstâncias da vida social, a não-interferência dos poderes públicos na esfera individual é insuficiente para a garantir. No caso do véu, os poderes públicos estabeleceram uma proibição que teve como objectivo a salvaguarda da liberdade individual, e a liberdade consiste também na participação do indivíduo na definição (e no acatamento) da vontade geral que ditou essa intervenção dos poderes públicos e se traduz por essa proibição – é a liberdade democrática.

III

Num comentário a um post seu, que reproduzia um texto de Alain Badiou sobre a questão do uso do véu nas escolas francesas, o Nuno Ramos de Almeida acusou-me de defender sempre as minhas posições com recurso à “canga” do iluminismo e da república. Eu perguntei-lhe se ele preferia as trevas e o despotismo e ele respondeu-me que essa alternativa era um pouco forçada. Eu não acho. Face ao sapere aude das Luzes, à concepção que situa a política no plano da imanência e ao ideal de auto-determinação da comunidade de cidadãos que o republicanismo incarna, existe uma outra tradição intelectual que nega todos esses valores e ideias – o Counter Enlightment, como lhe chamava (com gosto) Isaiah Berlin, as anti-Lumières, cuja genealogia Sternhell tão bem descreve, e que nos conduz de Maistre e dos reaccionários de antigamente até aos neo-cons da actualidade. A crítica das Luzes, sendo diversa, tem fios condutores, o primeiro dos quais será a afirmação da desigualdade essencial (e não meramente social) do género humano – chamemos-lhe o diferencialismo; na sua versão aggiornata e pós-moderna, como bem percebeu Jameson, comporta a fetichização das marcas distintivas do tribalismo social, véu islâmico incluído.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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32 respostas a O véu e a esquerda

  1. Caro Antonio,

    O seu argumento pressupõe que ninguém possa autonomamente escolher usar o véu. Como tal desconsidera e menoriza necessariamente todas aquelas que o fazem, independentemente daquilo que cada uma possa dizer ou sentir. Ou seja, é democracia sem democracia e autonomia por decreto exterior. Arrogando-se o direito de falar por outros (o que não é o mesmo que dizer que nunca ocorram casos de ‘falsa consciência’, e que a liberdade seja apenas um conceito negativo, como defendeu Berlin). Um filósofo de esquerda como Charles Taylor, criticou Berlin duramente e defendeu algo na tradição da liberdade positiva, sem no entanto cair no seu erro. Só há uma maneira de descobrir os ´verdadeiros interesses´de alguém sem correr o risco cair nos´interesses objectivos do verdadeiro sujeito autónomo’: o diálogo. A identidade constituida de forma dialógica, como defende a hermeneutica de inspiração Heideggeriana (ver também o que Ricoeur escreveu sobre freud e psicanálise, ou Gadamer no seu Verdade e Método). Só o dialogo hermeneutico (que é uma espécie de dialéctica Hegeliana sem a filosofia da história deste) permite evitar o dualismo sem compromissos que é representado pelos dois extremos defendidos pelo António e Berlin.

    Cumprimentos,
    Joao Galamba

  2. António Figueira diz:

    Caro João Galamba,

    Temo que esteja a esquecer-se de uma premissa deste debate, que atira para há duas semanas atrás: é que ele não se refere ao uso do véu em geral, mas ao seu uso em países ocidentais, num contexto escolar, por menores, oriundas da imigração; parece-me que todos estes caveats reduzem o potencial “expressionista” do véu (para utilizar uma linguagem cara a Charles Taylor) às suas devidas (e creio que largamente imaginárias) proporções.

    Muito obrigado pelo comentário.

  3. Luís Lavoura diz:

    “A liberdade exige sempre a remoção dos obstáculos que impedem o indivíduo de atingir os seus objectivos de vida”

    Estou plenamente de acordo mas, no caso vertente, não vejo qualquer remoção de tais obstáculos, apenas vejo a colocação de obstáculos.

    Vejo que, se eventualmente há jovens oprimidas pelas suas famílias, elas continuarão a sê-lo, uma vez que as famílias não foram removidas.

    E vejo que muitas outras pessoas que querem, ou podem querer, ter a liberdade de usar certas coisas ficam proibidas de o fazer.

    Além de que fico com a sensação de que isto é apenas o começo de mais proibições que aí virão.

  4. Caro António Figueira,

    O uso do véu é, a bem dizer das coisas, uma marca cultural não-ocidental. O seu uso num país ocidental não representa uma liberdade individual nem se traduz num direito à diferença, traduz-se sim, numa coisa diferente: num desvio ao contrato social. A liberdade cultural e religiosa não se deve impor sobre as normas e condutas sociais. É isso que pretende fazer a Sharia.

    Parabéns pelo texto.

  5. Ezequiel diz:

    Caro António,

    Claramente, o uso do véu (é ou não é uma imposição, uma escolha, quantas escolhas “livres” não são condicionadas pela socialização e quantas destas não poderão ser consideradas imposições? etc?) não é susceptivel a uma interpretação clara e “objectiva.” Duvido que o seja.

    Caro João Galamba,

    O dialogo hermeneutico não evita as complicações que mencionas. Apenas transpoe-as para um outro plano.(afinal as pessoas mentem, distorcem, até os sujeitos psicanaliticos, entre outros) E, além disso, não é meramente uma questão de alguém não perceber, ou não estar consciente, dos seus verdadeiros interesses. É, também, a simultaneidade de interesses. O meu interesse pela preservação da minha cultura(no sentido amplo do termo) pode se sobrepôr ao meu interesse em acabar com uma pratica que eu interpreto como repressiva. Finalmente, há que considerar se o conceito “interesse”, objectivo ou (hermeneuticamente) verdadeiro (a verdade Gadameriana também tem pretensões objectivistas), se deve, ou pode, aplicar a esta discussão.

    Um abraço para meu compa Galamba
    Cumprimentos,
    ezequiel

  6. Ezequiel diz:

    ah, e só para te provocar (João G)

    Não sei se o Charles Taylor gostaria do label “esquerdista.” Ele é, inquestionavelmente, um comunitarista (comunitário?, não sei). Esquerdista, não sei!? Penso que não. Há pelo menos uma coisa que os conservadores e os esquerdistas tem em comum: uma concepção orgânica da sociedade (por vezes, quando era puto via a minha Mom, uma feroz conservadora-liberal, a concordar com malta da esquerda. Percebi mais tarde.) Taylor é, a meu ver, um conservador à Canadiana, ou seja, liberal. 🙂

  7. António Figueira diz:

    Tanto quanto sei, o Charles Taylor teve uma passagem (mal sucedida) pela política, no New Democratic Party (deve ser uma obsessão canadiana, com os “reis-filósofos”: agora parece que o Michael Ignatieff é ou vai ser leader dos Liberais).

  8. “A liberdade cultural e religiosa não se deve impor sobre as normas e condutas sociais. É isso que pretende fazer a Sharia.”

    Realmente, é exactamente isso que pretendem os adeptos da Sharia: que a liberdade cultural e religiosa esteja sublugada pelas normas e condutas sociais

  9. Ezequiel diz:

    eu não sabia que ele tinha passado pelo ndp..suponho que se tenha identificado com a ala da esquerda-cristã do ndp. Estava a pensar na sua filosofia e não no posicionamento circunstancial das eleiçoes ao parl canadiano. Mas, como sabes, os Hegelianos são uma tribo plural. Mas o ndp é, sem dúvida, um partido de centro esquerda que congrega uma panóplia de aves raras.

    A obsessão de Taylor com os “backgrounds” que foram reprimidos pelas epistemologias individualistas, a critica do naturalismo, do cientismo, parecem-me distintamente conservadora, assim como a afirmação da necessidade de recuperar (em Malaises of Modernity) o verdadeiro projecto espiritual do iluminismo..é verdade que existem aqui pontos de confluencia com a(s) esquerda(s)..mas existem também discrepâncias importantes. A comunidade marxista (segue-se uma generalização) assenta na universalização de um ideal deliberativo-participativo que é resolutamente laico e futurista (não se trata de recuperar um universo perdido de sentidos mas de instituir uma sociedade socialmente justa). Além disso, a noção de que existe um standard de bem-mal que poderemos descobrir (Alas!) ou discernir (e, aqui, a tensão entre o que é descoberto e o que é constituido, acentua-se) na nossa vivencia histórica é diferente do universo moral que se constitui através da razão.

  10. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,
    Eu tenho mixed feelings relativamente ao Charles Taylor. Aprecio-lhe a clareza e o didactismo da prosa, e acho o Sources of the Self um monumento intelectual, que combina erudição com uma certa wisdom – eu aqui chamar-lhe-ia intuição – que eu acho indispensável na história das ideias (e que o Berlin, apesar de eu o julgar em larga medida um pensador perverso, também tinha); a sua concepção do “expressionist turn”, por exemplo, é um verdadeiro tour de force – mas aí está, eu acho que, de um ponto de vista mais substancial, ele aprecia demais esse mesmo expressionismo, e a sua valorização do comunitário e do orgânico, e as críticas que faz ao individualismo e à razão instrumental, no caso da Malaises of Modernity, têm um perfume pastoril e quase heideggeriano que me repugna um pouco… Mas parece-me um bem-intencionado…
    Saudações, AF

  11. Ezequiel diz:

    Caro António,

    “…um perfume pastoril…” Florestal, talvez! eh eh eh eh (estou a chorar de rir)

    Sim, sem dúvida, Taylor é um erudito brilhante e indispensável. Garanto que o João irá discordar. Aguardo a sua riposte. Taylor fala da importancia primordial do reconhecimento (hegeliano) e, no entanto, fala também de uma ontologia moral que é, de certa forma, independente da deliberação individual e que é, ao mesmo tempo e paradoxalmente, relevante para a nossa concepção actual do eu. Então a ontologia moral entra apenas por uma porta??? Isto faz-me confusão. Não sou um perito na matéria, evidentemente. Além disso, se caracterizarmos a lógica da estratégia conceptual de Taylor em termos puramente infraestruturais, o recuo-escape-etc em direcção a uma ontologia que nos constitui mas que não resulta, sensu stricto, da nossa deliberação, parece-me comparável à incontestabilidade que os naturalistas simplórios desejam. Adoptando uma leitura psicanalitica, poderiamos afirmar que é aqui que se sente o catolocismo de Taylor (existe uma ontologia moral incontestável)

    Tive, felizmente, o previlégio de o ouvir quando estudei no Canadá. O homem é simplesmente brilhante. O que me repugna em Heidegger é a transformação da morte no sine qua non da possibilidade da compreensão da nossa natureza situada. A tese é plausivel, mas também intrinsecamente mórbida.(penso que existem outras formas bastante mais interessantes e plausiveis para afirmar a natureza situada ie social, do homem) Todavia, Heidegger é um dos grandes da nossa tradição filosófica. Acerca disto não tenho qq dúvida. Nunca me canso de o ler, apesar de não concordar com mts dos seus “argumentos.” Prefiro Adorno, Levinas e o Husserl que Heidegger plagiou sem qq hesitação (o mundo como estrutura-categoria existencial e a sua relação com a temporalidade NÃO É uma invenção Heideggeriana)

    Acho que vais gostar deste trabalho pastoril…simplesmente brilhante! Le Chant de la Terre, de Michel Haar. As livrarias da ENS e do CF ainda tem umas cópias em segunda mão.

    Então João, where are you man??

    Cumps, ezequiel

  12. Ezequiel diz:

    “Garanto que o João irá discordar.” (estou a brincar, evdtmente)

  13. Ezequiel diz:

    podes comprar a tradução song of the earth,…muito boa! (mas gosto de ler na lingua mae do autor)

  14. Sérgio diz:

    Notável.

  15. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,
    Acabo de ver que fomos obsequiados com podecasts do Charles Taylor; vou tratar de ouvi-los – e para já muito obrigado!
    AF

  16. viana diz:

    O António Figueira continua de modo intelectualmente desonesto a tentar colar os opositores à Esquerda, como o Nuno Ramos de Almeida e a Joana Amaral Dias, da proibição do véu na escola pública, ao “liberalismo clássico” que apenas considera existirem liberdades “negativas”. Denota pura e simplesmente fraqueza de argumentos. Ninguém à Esquerda nega que existem liberdades que são apenas possíveis através da interferência do poder público, ou colectivo.

    Portanto, ninguém à Esquerda critica a proibição do véu na escola pública por uma questão de princípio, mas sim por uma questão de proporcionalidade, universalidade e pelas consequências societais decorrentes da decisão.

    A questão da proporcionalidade prende-se com o facto de potencialmente a liberdade de muitos estar a ser limitada para aumentar a liberdade de poucos, sendo ambas as liberdades em causa qualitativamente semelhantes. Digo potencialmente porque ninguém sabe, muito menos o governo francês, que percentagem das alunas que usavam o véu o faziam livermente ou contrariadas.

    A questão da universalidade tem a ver com o facto de tal proibição, juntamente com a de kippas ou cruzes expostas (mas não de outros pertensos símbolos religiosos como o turbante sikh), isolar a religião como único factor de opressão da juventude, quando actualmente muitos outros factores (que se reflectem na idumentária usada por alunos) originam uma opressão real que afecta siginificativamente mais alunos. Concretamente, acuso a pressão consumista, a idolatria da “marca”, a promoção da “mulher-como-objecto-decorativo”. Claramente, estamos perante uma medida que recusa ser universal, ignorando os mais importantes factores de opressão hoje na escola pública (e que em grande parte reflectem factores presentes na sociedade em geral).

    Esta clara falta de proporcionalidade e universalidade, existente e percepcionada, ajuda a aumentar as negativas consequências societais decorrentes da decisão: o incremento da guetização do islamismo e das comunidades onde a religião islâmica é intensamente vivida; a promoção do estigma do muçulmano como radical-ameaça-ao-Ocidente e da sua descriminação como não-cidadão-de-facto.

    E, claro, existe a questão de “somenos”, pelo menos parece que para o António Figueira pois nem sequer a aflora, do benefício da decisão para as raparigas que não queriam usar véu e assim deixaram de o fazer. Por causa disso a família delas deixou de ser menos opressora da sua liberdade individual? Por causa disso elas passaram a compreender melhor a cultura da sua família e ganharam uma capacidade acrescida de a analisar criticamente? O que é que o António Figueira acha?…

    O discurso do António Figueira acaba por ser um discurso profundamente misógeno, que não considera as raparigas, futuras mulheres, como sendo capazes de desenvolver discurso crítico com um véu na cabeça. Têm à viva força de ser libertadas desse pedaço maldito de pano que lhes tolhe o pensamento. Não há algo de errado em actuar de modo intolerante para pretensamente promover o ensino da tolerância?… O que terão aprendido as alunas que queriam usar véu e deixaram de o poder fazer?…

  17. Ezequiel diz:

    Hoje, no HARDtalk (BBC), imperdivel.

  18. "O OUTRO" diz:

    o veu (problema d’) não é da esquerda…nem da direita…é de quem o usa;)))…..e esse é que é o agente principal….todos os outros falam “sobre”…

  19. Ezequiel diz:

    O véu é um véu e a minha bebedeira é uma bebedeira. Se ela gostar do véu, useo. Aé percebo a ideia. O agente principal é o véu. O véu! Porra! Eu falo sobre o véu mas não sou o véu. Nem sequer o problema do véu. O sobre é sobre o véu, anuncia a minha dependenica de sobre. O sobre é sempre o sobre. o Sobre é um tirano. Arranca-te da serenidade, o sobre. O sobre é um filho da puta! Fala-se la em casa acerca do sobre. O sobre é obstinado. Chato. O sobre não tem alma. é a ponte. anuncia um destino mas nao fala sobre a viagem. :):):):) japan is wicked J. wicked, AF! go to japanm rural, simple, limpid prtecise wisdom. ill go back to japan. movement. water. food.cat. is he kool. bed.

  20. Desculpem o atraso, mas só agora vi os comentários. O Taylor participou activamente na British New Left (New Reasoner, Universities and Left Review New Left Review) e na politica Canadiana, penso que no partido Social Democrata. Quanto a organicismos e pertenças o Ezequiel tem alguma razão, mas é díficil ser um pensador de inspiração Hegeliana e repudiar qualquer forma de pertença. Eu prefiro o termo ´dependência´ e se isso implica ser-se conservador então eu também sou conservador. O elemento dialógico dos pensadores hermeneuticos só me parece conservador se nos reduzirmos ao binómio conservador-revoluçao, que eu rejeito. Mesmo uma critica ou denúncia tem de comunicar com aquilo que rejeita, e como tal, existe necessariamente numa relação de pertença com aquilo que rejeita. As criticas de Taylor (e de Ricoeur) aos hermeneutas da suspeita (Marx, Nietzsche e Freud) destacam essa relação dialéctica incontornável que qualquer projecto emancipador deve possuir, sob pena de ser incomunicável. Podemos dizer, grosso modo, que há aqui duas ontologias a operar. Tipos como Zizek, Butler, Laclau, Mouffe têm uma ontologia de confronto e os hermeneutas ´conservadores´ destacam as possibilidades de fusão de horizontes mais reconciliadora (sem deixar de reconhecer a existencia de tensoes agonisticas). Mas os últimos não têm de ser românticos naiffs; apenas pensam que o dialogo entre diferenças pode ser produtivo e é preferível a uma lógica de guerrilha não comunicacional.
    Os backgrounds reprimidos do Taylor são uma consequência do seu pensamento filosófico que valoriza a nossa ´embodied subjectivity´, que deve muito a Wittgenstein, Heidegger e Merleu Ponty. Neste ponto concordo totalmente com ele. A sua preocupação com a articulação hermeneutica do projecto da modernidade (embora tenha dúvidas quanto ao pendor teistico a que ele recorre no final do Sources of the Self, que ele próprio reconhece ser uma exploração de pendor muito pessoal) parece-me fundamental e uma forma de evitar radicalismos unilaterais.

    A critica do instrumentalismo de Taylor não é conservadora. Adorno e Horkheimer foram muito mais longe nessa crítica, e nesse sentido se há alguém que corra o risco de ser pastoril são eles. Taylor tenta destacar o pluralismo da modernidade (ele não rejeita a razão instrumental, mas apenas destaca os perigos de esta ser hegemónica).

    O elemento principal do pensamento de Taylor é uma ontologia de dependência social de inspiração Heideggeriana que resulta num pensamento político neo-aristoteliano em que o pluralismo da modernidade e as suas tensões sao mediados tendo em vista uma utopia de reconciliaçao (sempre diferida) das suas multiplas tendencias. Eu não vejo outra possibilidade que não seja o reconhecimento da ´facticity´ da modernidade que reconhece o seu valor e as suas tensões coonstitutivas. Taylor reformula o projecto de Hegel abandonando a sua escatologia historica sem saltos cegos para o futuro nem abrigos romanticos no passado.

    Cumprimentos a todos,
    \Joao Galamba

  21. A preocupaçao com a reconciliação parece-me incontornável. Enquanto nós formos seres situados (ou seja sempre) não podemos ter um projecto que se preocupe apenas com ruptura e ´unmaskings´. Se não gostam do Taylor recomendo o J. M. Bernstein, este sim um esquerdista que, estranhamente (e de forma não teistica) tentando recuperar Adorno e a tradição da Teoria Critica acaba em posições semelhantes ao primeiro.

  22. Eu apenas rejeito o vazio (ou aterrador) da potencialidade do Acto revolucionário de gajos como Badiou ou Zizek. Esta promessa ontologica, actos fundadores de Verdade e voluntarismos do género, não obrigado. Aliás é isso que tipos como Laclau dizem desses tipos (se me permitem a superficialidade)

  23. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro João Galamba,
    Duas observações:
    1.Ao negar que há momentos que a história se transforma e que as estruturas se alteram, você acaba de negar não dois perigosos revolucionários, mas quase toda a investigação histórica do século XX, Braudel, Bloch, Carr, Vitorino Magalhães Godinho. Salva-se apenas o José Hermano Saraiva, que pelos vistos você adopta.
    2. Duvido que Laclau chame “tipo” ao Žižek, até têm, com a Judith Butler, um interessante livros em conjunto: “Contingency, Hegemony, Universality: Contemporary Dialogues on the Left”

  24. Ezequiel diz:

    my head hurts!

    Caro João,

    Uma critica (revolucionária) é uma relação, sem dúvida. Existem muitas relações que não são relações de pertença. A critica como relação de PERTENÇA, não sei?? Se o individuo se sentir completamente alienado, continuas a invocar o conceito de pertença. Imagino, ou melhor, sei que a estratégia Gadameria na é a da continua re-apropriação de tudo o que parece divergir da tradição. É evidente que um qq sentimento subjectivista (individual) poderá ser menosprezado assim como os unmaskings e as rupturas (suponho que a contingencia, que o imprevisto, seja algo inexistente?!??!?!? ou que seja passivel de ser subrepticiamente integrada numa grandiosa espiral, da qual “nunca ” saimos. É aprazivel do ponto de vista conceptual, mas não me parece inteiramente plausivel. Não sei se o imaginário está permanentemente situado na nossa natureza situada, apesar de reconhecer a veracidade da tese Hegel-Gadamer: que o passado, a pertença, nunca é simplesmente suplantado num acto ubermansiano grandioso.

    São dúvidas, nada mais. A promessa revolucionária não é um vazio aterrador. A tua objeção tem um fundamento mais profundo que deve ser explicitada (Freud tinha alguma razão): tem que ver com a natureza criativa do sujeito nietzschiano que tu repudias. Esta coisa da nossa “natureza situada” começa a transformar-se numa crença religiosa. Penso que o conceito de possibilidade merece um tratamento menos vulgarote.

    O Jay Bernstein sente uma certa empatia filosófica por Gadamer e por Taylor. Mas a sua interpretação, como todas as interpretações, é “perspectival”(e se é perspectival = o ser situado é plural e se é plural…-apesar de se poder colar tudo isto-a pluralidade- com um gestalt temporal ou x ou y ou z-…é…poderás ler isto no meu livrinho de banda desenhada sobre Hegel e o seu Bagel)

    Adorno concorda com Hegel-bagel no que toca à identidade entre pensamento e ser, ou realidade e razão. Mas também critica o pendor hegeliano para as equivalencias precepitadas (homogeneidade), daí a importancia da diferença ou do “non-identical” nas dialectica nagativas de Adorno. Para Adorno, esta identidade é por vezes conseguida através da supressão da pluralidade, da diferença, daí o seu caracter negativo.

    cumprimentos
    ezequil

  25. Ezequiel diz:

    Um exemplo simplório: ontem visitei a última adega de uma pequena localidade. Despedimo-nos dela. Vai deixar de existir. As praticas de convivio etc que nela ocorriam tb vao deixar de existir. Não existem modos de vida que simplesmente desaparecem?

  26. Caro Nuno,

    Eu referia-me ao livro que mencionas e, segundo sei -o próprio Zizek fala disso em algumas das audio lectures disponíveis na rede-, ele e Laclau ‘are not on the best of terms’. Laclau critica as vacuidades ´overcoming capitalism´ e residuos marxistas vazios e irreais desse género. O próprio Laclau critica a intersecção Marx-Lacan como algo simplisticamente desenvolvido. Através de Lacan o Zizek chega ao Real internamente fragmentado que produz as tensoes, exclusoes, lutas existentes, e depois recorre a Marx (de uma forma simplista e não-critica) para sugerir que o capitalismo é a estrutura responsável por tudo isso (como se Laclau e Butler mantivessem intacto uma estrutura ´transcendental´ que recusam enfrentar -ou seja eles naturalizam o capitalismo, segundo Zizek). Para mim o problema maior do livro é a sua intra-referencialidade e a tentativa de encontrar promessas revolucionárias numa ontologia de fragmentação e contigência, algo que eu acho estéril. É como se se algures existissem promessas revolucionárias em ontologia e como tal mais uma versão da hermeneutica da suspeita na demanda do tesouro perdido. Eu não entendo em que medida é que enfatizar a contingência se configura como algo revolucionário ou emancipador por si só. Desnaturalizar a realidade social por si só é um gesto vazio (algo em que o pensamento de Butler, mais do que os outros dois, me parece cair ).

    A minha inclinação para uma hermeneutica crítica reside no facto de que mesmo o mais reprimido ou recalcado tem de aparecer e ser comunicável, sob pena de cairmos em neo-vanguardas iluminadas. Não há gestos revolucionários auto-fundadores. As raízes cristãs do Marxismo -que considero evidentes- não são mais do que um exemplo que mesmo a maior ‘ruptura’ contém traços inegáveis de continuidade (reinterpretada, obviamente) e não é algo ´entirely other´

    Quanto ao que o Ezequiel diz do medo da criação Nietzschiana digo apenas que de puras espontaneidades surge tanto a redenção como o terror e por isso não pode ou não deve haver uma consagração pura do acto criativo, mas uma mediação dialectica entre esse e a sua recepção…e aqui voltamos aos ´hermeneutas conservadores´ dos quais essa espontaneidade pura supostamente nos libertaria. Nada disto implica uma lógica de conservação pura. Há obviamente modos de vida que podem desaparecer, mas um salto obsoluto para uma promessa futura é algo de outra natureza. An entirely new beginning parece-me um messianismo vazio uma espécie do myth of the given em que o ´to come´ se transforma em promessa inefável. Quando falas do Adorno e da sua negative dialectics esqueces-te (o bernstein fala disto) de que há um reconhecimento que projectos emancipatórios só podem existir na denúncia das contradições do existente, como se AGORA só nos restasse isso, quanto ao resto fica uma espécie de esperança religiosa de um future to come acerca do qual nada se pode dizer. Mas como diz Wittgenstein óf what we cannot speak we must remain silent forever´(mais ou menos isto)

    Abraços aos dois,
    Joao Galamba

  27. Ezequiel,

    se calhar é melhor mudar pertença para dependência. O que eu rejeito (como Hegel e todos os que foram influenciados por ele) é a ideia de absolute otherness ou transcendência, como algo que se opõe externamente a algo dado. Mesmo a super-contingente-foucauldiana Butler reconhece um dado que constitui o sujeito. A emancipação é sempre dialéctica, e como tal, dependente mesmo daquilo que rejeita. Acho eu, porra que isto dá dores de cabeça!!!

    Abração
    Joao

  28. Ezequiel,

    se calhar é melhor mudar pertença para dependência. O que eu rejeito (como Hegel e todos os que foram influenciados por ele) é a ideia de absolute otherness ou transcendência, como algo que se opõe externamente a algo dado. Mesmo a super-contingente-foucauldiana Butler reconhece um dado que parcialmente constitui o sujeito. A emancipação é sempre dialéctica, e como tal, dependente do que rejeita. O Ricoeur tem um texto interessante em que defende uma hermeneutica crítica. Existe uma distância crítica que não é categoricamente da pertença-dependência. Acho eu, porra que isto dá dores de cabeça!!!

    Abração
    Joao

  29. Ezequiel diz:

    Caro João

    Mudar de pertença para dependencia não muda nada de essencial (pertencer a ou depender de, neste contexto, tem significados mt proximos) O que tu rejeitas é a ideia de otherness como algo que não pode ser incorporado num esquema ulterior ou precedente ou…O Foucault (da Butler não falo pq conheço mt pouco do seu trabalho) , coitado, não elaborou mt este conceito do contingente (no sentido do imprevisto, de ruptura ontológica) Mesmo na Arqueologia do Saber, a ideia de discontinuidade está pre determinada por processos (nunca satisfatoriamente explicados) invisiveis. O que tu rejeitas é a ideia da diferença singular, isolada, desconexada de um qq. Rejeitas o singular abstracto, destituido de conteudo social. Mas penso que por vezes exageras e confundes: 1) esta necessidade de situar o eu no social (algo fácil de argumentar e justificar) com 2) um ideal concentrico de “ser.” É evidente que não há nada que surga de um ex nihilo. Pessoalmente eu acredito na ideia de absolute otherness, desde que seja devidamente elaborada (ou seja, a otherness situa-se onde, tem a ver com o quê)

    Talvez fosse interessante concretizar mais a conversa. Por exemplo, explica-me como é que a revolução Francesa dependeu do regime monárquico que a antecedeu??? (uma manobra heuristica apenas) OU seja, qual é o significado real de “dependencia”? O que é que entendes por dependencia, neste contexto? Fico com a impressão que vais cair em “condições de” ou ” causas” ou ” condições-como-causas” ou em “contextos”(a noção de contexto é mt indeterminada pq permite estabelecer uma relação sem explicitar a natureza da relação, que é o que me interessa) Falar em termos gerais, vagos, é fácil mesmo que os termos precisos sejam sempre semanticamente precários. Continuas a lutar para manter intacta a ligação ao social, à comunidade. Kool! Se sentes dores de cabeça toma uma aspirina &relax. Isto não é para ser resolvido hoje ou amanhã.

    Eu não estava a falar de espontaneidades puras. É uma questão interessante. Nem mesmo Nietzsche defendia tal tipo de espontaneidade. Às tantas estás a esticar um pouco a corda. A contingência (condicional, contextual, mas não menos contingente por causa disso-porque se apresenta, hermeneuticamente, como sentido a ser interpretado, como ruptura vivencial) sempre foi a grande arma da revolução: 1) por razoes simplesmente estratégicas, 2) porque subverte as totalidades instituidas, anuncia a possibilidade de mudança etc etc É emancipador porque pode corroer as “verdades instituidas.” (nada como uma boa contingencia para falsificar uma grande teoria: este é uma acto eminentemente político) Bem, isto dava pano para mangas…

    João, não estamos a falar de “Saltos ABSOLUTOs…espontaneidades PURAS…enfim. Se pensares assim, é evidente que noções como espontaneidade ou salto ou mudança só podem ser articulados através do vocabulário da continuidade, da pertença…um inevitável retorno à comunidade sacrosanta! Eu também posso fracturar o conceito de pertença: não existem pertenças puras e absolutas ou incondicionais mesmo que a pertença comunitária seja inquestionável. (a nuance aqui é crucial)

    Cumps a todos, ezequiel

  30. Ezequiel diz:

    “denúncia das contradições do existente…” é uma relação e não uma afirmação de pertença. Parece-me que queres transformar, a todo o custo, um acto de negação numa expressão de pertença. São coisas distintas, apesar de relacionada. Nem tudo o que se relaciona pertençe ao mesmo. A espontaneidade criativa, para ser irredutivelmente singular, não tem que ser desconexada nem absoluta nem Nietzschiana. Alías, o conceito de Joi de vivre de N, é a prima materia da actividade criativa. Não se cria nada fora de um mundo. Mas isto não perverte a singularidade, a espontaneidade etc. São “niveis” ontológicos distintos. Pessoalmente eu não acredito na ontologia. É uma farsa mt bem elaborada. seeyalata

  31. Ezequiel diz:

    Nem na sismologia existem epicentros absolutos, João! 🙂

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