Os embriões dos outros

Lida no correio dos leitores do “Glória Fácil”, e com a devida vénia, aqui se transcreve esta espantosa carta de uma tal de Maloud:

Em 81, era eu uma jovem divorciada com duas filhas, uma vizinha quarentona perguntou-me se conhecia algum médico que fizesse abortos, porque, vá-se lá saber porquê, descuidadamente tinha engravidado dentro do seu matrimónio abençoado pela Igreja Católica e acrescentou, sem eu lhe ter perguntado, que os dois filhos já eram adolescentes, a idade também não ajudava à maternidade e o patati patata habitual. Pressurosamente lá me informei junto de médicos amigos que me indicaram o dr. Dantas {nome verídico} que, pelos vistos, toda a gente conhecia. A dita senhora lá foi no dia aprazado tratar do assunto e eu, embora mal a conhecesse, visitei-a em casa para o sacramental ramo de flores. A vida foi correndo, casei de novo e em Agosto de 83 fiquei grávida do meu terceiro e último filho {nasceu em Maio de 84}. A AR resolveu legislar nessa altura sobre a IVG. Casualmente encontrei a já referida senhora que estava chocadíssima e queria à viva força que eu também estivesse, atendendo ao tamanho da minha barriga, com os senhores deputados {um deles era o Guterres} que iam aprovar o “infanticídio”. Dispenso-me de relatar o diálogo que tive com ela. Nunca mais falámos.Na mesma época tomava todos os dias café, a seguir ao almoço, no Bom-Dia {ainda hoje existe} na Pç Velásquez, com algumas mães de colegas das minhas filhas no Colégio das Escravas do Sagrado Coração de Jesus {as miúdas não eram baptizadas, mas as freiras que dirigiam este excelente colégio eram especiais}. A maior parte destas minhas “amigas”, das Antas, eram católicas praticantes. Relativamente ao aborto, sempre as ouvi dizer, durante o período quente do processo legislativo, que era difícil tomar posição, porque havia casos e casos. A única que se manifestava indignada fazia do aborto {e todas sabíamos} prática contraceptiva, porque coitadinha não se dava com a pílula. Foi o processo que escolheu para ter um único filho. Também me dispenso de relatar o diálogo que mantivemos.É esta gente que em Fev. vai votar Não, em consciência, com pena dos pobres embriões. Das outras, é claro.

Se isto lhe servir para um post, pode usar. Se, por absurdo alguém a quisesse levar a tribunal, eu testemunharia a veracidade dos factos. Nessa altura poria o nome às duas santas criaturas

Cordialmente

maloud

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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