Uma questão de glândula

Num comentário da semana passada, um leitor queixava-se de ter de ler aqui os meus textos já repetidos do Público. Aparte a imprecisão e as justificações técnicas (ninguém “tem” que ler nada e se ponho aqui os textos é para aproveitar os comentários que estão avariados no meu blogue) o leitor está com a razão, porque mereceria um cardápio mais variado da minha parte. Eu poderia justificar-me com a falta de tempo e com o excesso de trabalho em outras coisas, mas para quê? A verdade é que, como dizia o Fernando Pessoa numa carta à Ophelinha, tenho desculpas mas não tenho desculpa. E, pior ainda, acho que já usei esta citação em ocasiões anteriores.

Isto da bloga funciona como uma glândula que segrega textos como outras segregam as secreções delas. Chamemos-lhe a glândula blogácea. Quando lhe dá na bolha ao hipotálamo, segrega que é uma maravilha, em quaisquer condições, mesmo com falta de tempo ou excesso de trabalho. Às vezes vai lá com um empurrãozito e alguma prática. Outras vezes, não há nada a fazer, e esta é uma dessas vezes. A glândula pode estar entupida, pode estar com falta de uso, pode ter atrofiado, pode ter perdido o apetite, pode até ter morrido. Não há transplante que lhe valha.

Aquilo de que o leitor se queixa, também eu me queixo: estou sem glândula blogácea. Não sei se, nem quando, voltará. Felizmente, esse não é o meu único papel aqui: como mostra lá em cima, eu sou editor às segundas-feiras, e em termos espirituais uma espécie de medium através do qual o Jorge Palinhos, o André Belo e o Pedro Vieira encarnam para benefício de vossas excelências (para evitar mal entendidos: os três espíritos que eu aqui canalizo estão vivos e em localizações concretas em Matosinhos, Rennes e Lisboa; o Pedro só voltará ao nosso convívio na semana que vem porque está com o computador avariado e isto ainda não funciona com mesa de pé-de-galo).

E é assim que depois de, para me justificar, vos ter passeado por estes agradáveis similes de secreções, incorporações espíritas e canalizações em mau estado, me despeço do meu dia com aquilo que para o trabalhador da bloga com problemas na glândula é um verdadeiramente abono de família: um vídeo antigo, apropriadamente em tons de humor negro e tendo por tema noivas atropeladas nas vésperas do casamento.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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Uma resposta a Uma questão de glândula

  1. Luís Lavoura diz:

    Deixe lá, Rui.

    Antes ter problemas na glândula blogácea do que ter falta de outra coisa.

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