Jorge Palinhos: Gramática para principiantes

Nota: devido problemas técnicos causados por dificuldades neuro-espaciais (i.e. esqueci-me da pen-drive com os respectivos ficheiros num local momentaneamente inacessível), esta semana haverá uma interrupção na série “A Literatura dos Cucos”. A mesma continua na próxima semana.

Todo o português está dominado por uma nova terminologia. Todo? Não, um grupo acérrimo de polemistas, opinion-makers, pais consternados e escritores enfurecidos luta ainda e sempre contra a invasão.

De um lado afirma-se estar a antiga terminologia desactualizada e errónea, sendo necessário actualizá-la e corrigi-la, pois não conhecendo os “advérbios disjuntos reforçadores da verdade da asserção“ é impossível pedir um quilo de carne de novilho no talho. Do outro lado, acena-se com pais baralhados, com o “ódio dos linguistas à literatura”, com a impossibilidade de se compreender um relato de futebol sem se ter identificado os argumentos de catorze sermões eclesiásticos do séc. XVII, com o fim da língua portuguesa em geral e da civilização cristã do Ocidente em particular.

Nesta guerra sangrentas batalhas se travam entre o “complemento circunstancial” e o modificador”, com inúmeras baixas a registarem-se entre “pronomes” e “quantificadores” de ambos os lados.

Passa-se isto na Gália?
Não.
Em Portugal.

Noutras paragens, o respectivo governo encomenda um estudo a especialistas sobre a reforma e melhoramento do ensino da gramática.
Estes produzem um relatório onde se recomenda que a gramática seja ensinada à margem do ensino da literatura e se esboça uma escala de progressão do ensino da gramática: no infantário ensinar a ver uma frase como um “palco”, onde há “actores”, “acções” e “cenários”; no nível seguinte aprender a distinguir as partes da frase e para que servem; no segundo ciclo a distinguir as classes de palavras; no terceiro aprender a identificar as classes de palavras e suas funções na frase; no secundário descobrir os mecanismos com que se constroem textos.

O relatório faz a apologia da redução ou eliminação do jargão nos níveis iniciais, para que os pais possam ajudar os filhos nos primeiros passos, e constata que o objectivo das aulas de gramática não é formar linguistas nem fossilizar o ensino, mas permitir que os alunos aprendam a usar a língua, a expressar-se e a compreender os discursos e textos que os rodeiam, para o que, entende o relatório, mais proveitoso é o estudo da gramática que a decomposição métrica de cantigas de amor medievais.

Acontece isto em Portugal? Não, na França.

Estes gauleses são todos malucos.

P.S. – Eis o relatório: http://media.education.gouv.fr/file/68/3/3683.pdf

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

2 respostas a Jorge Palinhos: Gramática para principiantes

  1. Pedro diz:

    E para quando é que se ensina a falar português?
    Com esta nova medida, o fosso entre os que sabem e os que vão ficar excluídos do ensino será maior. Digo eu.

  2. paula lago diz:

    Diz muito bem Pedro.
    Não duvidando da utilidade da gramática, sublinhe-se que a proposta dos gauleses é melhor que a nossa, já que aponta a destruição do ensino da língua por meio de uma terminologia obscura e especializada; no entanto, parece-me uma linha análoga de sobrevalorização da gramática. A gramática é um meio de melhor compreender a língua e nunca um fim em si, e a encenação do infantário é por si mesma bastante suspeita.
    Para além disso, a gramática não explica a literatura – e pode até matá-la em idades mais tenras, opacizando o que se sente sem poder explicá-lo. Claro que não sobra tempo para praticar a língua, que é a única forma de a ir dominando.

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