André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa

Toda a sigla está em aberto. Toda a sigla pede da parte do leitor um desenvolvimento das iniciais que pode ser uma interpretação livre e não coincidir com o que a sigla mandaria ler. Assim, se, para o Ministério da Educação, a TLEBS é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário, ela transforma-se, quando vituperada pelo grupo dos Convencidos da Vida (não vou dar nomes, são as siglas do costume), em Tremenda Ladaínha sobre a Educação que nos Brutaliza e Satura. TLEBS também rima com plebs, a massa pobre e ignara dos que estão de fora, aqueles com quem os Patrícios da opinião recusam partilhar a cidadania deste quinhão. Tudo isto é uma longa história, com muitas barbas em Portugal.

Longe de mim querer dizer que o único discurso legítimo sobre a educação é o dos especialistas (a ditatura tecnocrática de que o Rui falava nesta crónica). Mas quem bota discurso sobre educação tem pelo menos de fazer um esforço para se informar, para aprofundar o assunto, para fazer propostas, para ajudar. Numa palavra, para meter a mão na massa. Mas para isso é preciso acreditar minimamente numa tarefa educativa comum, o que me parece estar claramente longe dos horizontes dos Convencidos da Vida. É muito mais fácil afunilar tudo numa uma discussão ácida sobre terminologia e siglas. Fica tudo na mesma, e no fim a culpa é do ministério e dos professores.

Para meter a mão na massa, é preciso ir além das siglas e falar de pedagogia, um assunto que me parece urgentíssimo, em qualquer país ou geração, e que raramente se discute em concreto, mesmo (sobretudo?) entre os professores. Um assunto que dá (ou devia dar) imenso trabalho. Um assunto que vai desde o pré-escolar à universidade. Um assunto em que nunca nada está adquirido. Um assunto que tem a ver com planos curriculares (como defendeu o Rui no texto citado), com métodos de avaliação, mas também, e talvez sobretudo, com perceber, de forma prática e inteligente, como aprendem hoje os alunos, como é que eles entendem o que lhes transmitimos, de que modo é que podemos ajudá-los a serem mais cultos e de que modo é que, com isso, ficamos nós próprios mais cultos. Para a semana, com a vossa paciência, vou tentar desenvolver um pouco isto.

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Segunda | Rui Tavares
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Uma resposta a André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa

  1. paula lago diz:

    Para saber o que se está a avaliar é necessário saber o que se ensinou; ao ensinar gramática não se pode esquecer o que realmente se ensinou por meio dela – ou, numa perspectiva mais realista, o que se deveria ter ensinado, muitas vezes em vez dela.
    Basta ver objectivos de aulas, de testes ou de programas como “reconhecer as classes gramaticais”, “classificar palavras” ou outros quejandos – sem que o correlativo objectivo de domínio da língua surja em parte alguma – para verificar quão difícil se torna objectivar, e, portanto, perspectivar, os benefícios do estudo da gramática para o domínio da língua. Que os há, há – mas eu não acredito neles.

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