Moacyr Scliar:Democracia e discursos

Tive a sorte de entrevistar Moacyr Scliar na sua cidade de Porto Alegre. É autor de romances notáveis. Tem uma vida extraordinária que se reflecte na sua obra. Judeu, descendente de uma família que fugiu da Rússia czarista, foi um médico que trabalhou muitos anos em campanhas de saúde pública e lutou contra a ditadura brasileira. Tem um sentido de humor requintado. Alguns livros seus estão editados em Portugal, desses gosto muito da A Majestade do Xingu. Foi uma sorte encontrá-lo na rede. Escreve na Carta Maior. Aqui fica um artigo dele sobre a transição em Cuba.

NOTA:TIAGO BARBOSA E GENTE DO INSURGENTE, ANTES DE LEREM O TEXTO BEBAM UM COPO DE ÁGUA, RESPIREM: ESTÃO DESCONTRAÍDOS? AGORAM LEIAM AS PRIMEIRAS SÍLABAS… PERCEBERAM? O TEXTO NÃO É MEU, É DO ESCRITOR MOACYR SCLIAR. NÃO SABEM QUEM É? CONSULTEM A INTERNET, ESTÁ LÁ TAMBÉM PARA ISSO. TALVEZ PERCEBAM QUE NÃO É UM FEROZ RADICAL E, TALVEZ, CONSIGAM LER O TEXTO.

Democracia & discursos

O regime castrista é um conjunto de erros e acertos, estes últimos referindo-se, sobretudo, à saúde, à educação e ao amparo social. Quem deve decidir o que é erro e o que é acerto é a população, que, a propósito, vai aprendendo com o processo democrático.

Em Cuba, vi Fidel Castro algumas vezes na televisão. Quando ele aparecia a programação da emissora estatal ia para o espaço, sobretudo porque ele falava horas a fio, um hábito que cultivou ao longo de muitos anos e que se revelava muito pior nos comícios, nos quais as pessoas ficavam de pé e, às vezes, desmaiavam por causa do calor. Fidel Castro aparentemente nunca deu importância para a duração de seus discursos. Dispunha do tempo de seus ouvintes como bem entendia.

Coisa de ditador? Muita gente achará que sim, que este é o termo a ser aplicado ao governante cubano: é o que faz, por exemplo, a Folha de S.Paulo. E há argumentos para isto: afinal, Castro está no poder há décadas. Mas nem todos vêem nele um ditador, mesmo em Cuba ou, talvez, principalmente em Cuba: o médico cujo trabalho, a meu pedido, acompanhei por um dia inteiro, no posto de saúde e na visita aos pacientes, referia-se a Castro como “nuestro comandante”. Outro comandante, aliás, ele não conhecera: muito jovem, sempre vivera sob o regime castrista. Pelo qual tinha enorme admiração, apesar das dificuldades que enfrentava para cumprir sua tarefa.

O termo ditador em geral evoca a figura de um tirano sinistro e cruel. Na tela da tevê cubana Fidel Castro não era isto. O que se via ali era um senhor idoso, paternal, que falava sobre os temas mais diversos, dando conselhos sobre como – entre outras coisas – ordenhar vacas. Não era um Pinochet. E, a propósito, não era o mafioso Fulgêncio Batista, que governou Cuba de 1933 a 1959. Ambos gozaram do beneplácito do governo norte-americano, sempre cioso em defender a democracia (quando interessa).

Democracia traduz-se em renovação de governantes, e isto não acontece em Cuba. A explicação clássica, oficial, é o hostil bloqueio por parte dos Estados Unidos – de novo, um erro, cuja principal motivação é contentar os exilados cubanos em Miami. Seja como for, em todos estes anos, Cuba nunca esteve tão perto de uma mudança. Se e quando esta ocorrer, o desafio principal será não jogar fora a criança com a água do banho. O regime castrista é um conjunto de erros e acertos, estes últimos referindo-se, sobretudo, à saúde, à educação e ao amparo social. Quem deve decidir o que é erro e o que é acerto é a população, que, a propósito, vai aprendendo com o processo democrático. Aproxima-se o dia em que mais gente falará na televisão cubana. Sem gastar três horas para fazê-lo.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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12 respostas a Moacyr Scliar:Democracia e discursos

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  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Salvo erro, o insurgente que classificou o blog do compadre TBR como um dos melhores blogs de esquerda, é ligeiramente distraido. O texto em questão, não é meu, nem eu tenho de concordar com ele. Em vez de salivarem cada vez que lhes falam de Cuba, deviam ler com calma, e ai, talvez percebessem que o texto é de um escritor chamado Moacyr Scliar.

  3. paulo diz:

    Lido no Kontratempos:

    “(…) o Nuno ainda consegue publicar um post onde coloca outra pessoa a explicar às massas (…)”

    Outra >> OUTRA

    Acho que todos percebemos que o texto não é seu (o anterior é, nãó é?), mas ou é esquizofrénico ou deve concordar minimamente com o que posta…

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Paulo,
    Tem toda a razão, concordo com a ideia geral do texto; mas, não penso que Cuba seja uma democracia, não creio até que o autor tenha querido dizer isso. Moacyr Sclyar afirmou três coisas que concordo: Pinochet não é igual a Fidel. Devem ser os cubanos a decidir o seu futuro sem interferências estrangeiras. E, finalmente, que existem alguns aspectos positivos em Cuba.

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Paulo,
    Obrigado por-me ter enviado o resumo do Kontratempos, eu escrevo quando me apetece e traduzo e coloco posts de outros autores quando quero. Sobre o Tiago Barbosa, não gosto de entrar em diálogo com cristãos novos: têm demasiado serviço para apresentar…

  6. paulo diz:

    Interessante.

    Mas não foi você que o abordou em primeiro lugar? Já percebi: quer atacar e depois mostrar-se muito superior

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro João,
    Não. Limitei-me a citar três comentários que me parecem simplistas em relação à vitória de Chávez. Parece-me que quem queira estudar a viragem à esquerda da América Latina deve ter teorias explicativas mais complexas e menos subservientes da vulgata do confronto político. Não me sinto superior, ao Sr. Barbosa, mas não perco, normalmente, tempo a insultar pessoalmente as pessoas em posts.

  8. paulo diz:

    Nuno,

    Desculpe insistir, mas eu também me sentiria bastante insultado se alguém dissesse que era simpatizante de pinochets e condores… isso não é insulto gratuito? E o que define alguém como sendo de direita, se a própria pessoa é de esquerda? O Iraque, o aborto, Chávez?

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Paulo,
    A parte do Condor e do Pinochet não era para o Tiago Barbosa, mas para os admiradores dos Chicago Boys e dos voos da CIA. Apesar disso, não creio que ele seja de esquerda. Pelo que sei, veio dos trotskistas para o PS. Hoje, está bastante à direita do próprio PS, em posições sociais e internacionais. O tempo o dirá, mas acho que é feito da massa que tem sucesso neste país: cai sempre para o lado que tem mais força. Para além de tudo isso, para um puto de vinte e poucos anos, tem uma escrita e uma atitude pretenciosa. Confesso que não o conheço, é certamente inteligente, pode até ser um optima pessoa, um grande defensor dos touros contra as touradas, mas quase tudo o que leio dele, me faz não gostar dele.

  10. paulo rocha diz:

    Isso não sei, mas conheço o TBR há alguns anos e trotskista ele nunca foi. O que ele hoje escreve sobre Cuba e outras ditaduras de esquerda não difere uma vírgula do que sempre escreveu e em termos de política internacional também não vejo assim tanto direitismo nem divergências em relação ao pensamento dos socialistas

    foi contra a guerra do Iraque (escreveu isso há tempos) e critica guantanamos e voos da cia, qto a israel tb está longe de ser caso único

    mas pronto, não quero estar aqui a falar de outras pessoas

    bom fim-de-semana

  11. Ezequiel diz:

    isto em portugal é assim: uma vilazinha cibernética!

    charming!

  12. João Miguel Almeida diz:

    Gosto do Moacyr Sciliar como escritor. Dele li o muito divertido «Os Leopardos de Kakfa». Mas neste artigo só descortino lucidez no último parágrafo. A descrição que faz de Fidel Castro é pateticamente parecida com a imagem que muitos portugueses tinham de Salazar na fase final da sua vida.
    Fidel tem uma «atenuante» sobre Pinochet: sucedeu a outro ditador, Batista, enquanto Pinochet derrubou um governo eleito num país com tradições democráticas. Mas justificar o regime castrista, em 2006, com os desmandos de Batista já é como justificar, na década de 60, o Estado Novo com os «excessos» da I República.
    Eu estive em Cuba e não me parece que a imagem que o médico tinha de Fidel seja consensual entre os cubanos. Mesmo entre os cubanos «anti-ianques».

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