A ordem das estantes

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A geografia dos livros nunca deixa de me surpreender. Ontem, comprei uma biografia de Espinosa na Bulhosa. O livro estava entalado, pelos  desmandos da ordem alfabética, entre uma hagiografia sobre o fundador da Opus Dei e a vida do generalíssimo Franco. É caso para dizer que se Espinosa estivesse vivo, era morto.
Tenho, para mim, a teoria que a distribuição dos livros na estante diz muito sobre a cultura das sociedades. Acho revelador que as ciência sociais estejam ao lado das ciências esotéricas, nas livrarias e nas bibliotecas de Paris. Acho assustador que nas livrarias inglesas haja secções para judeus e gays, para onde se atiram alegremente os escritores que alegadamente ai cabem. Como se um romance, um escritor e uma vida se esgotassem nessas categorias. Acho que para ordem, já basta a alfabética.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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11 respostas a A ordem das estantes

  1. Perfeito. Há até, pelo menos em Portugal, uma secção erótica ou porno-erótica integrada nas secções de fotografia, talvez para disfarçar. Mas a ordem, a alfabética ou outras, em si mesma é um bem.

  2. António Figueira diz:

    Não desfazendo nas livrarias inglesas, que são as mais bem arrumadas do mundo, julgo que as secções de literatura judaica ou gay de que tu falas são uma boa amostra da insanidade mental do multiculturalismo.

  3. António Figueira diz:

    “Sem que a ordem alfabética o fizesse supor”? Espinosa entre Escrivá e Franco está no sítio certo (salvo seja).

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Figueira, Tens razão. Eu estava em busca de um autor, dai o erro.

  5. Caro António Figueira, tenha dó dos incautos.

    Livrarias boas em Inglaterra conheço uma ou duas, o exemplo máximo para mim é Foyls, a não ser que o António goste da livralhada light. Não é manifestamente o caso.

  6. Adenda:

    Por vezes nas livrarias há “secções” que podem ser difíceis de compreender por um português. A mim o que me preocupa não é isso, é mesmo a o critério posto na escolha dos títulos que estão à venda.

    Mas voltando à questão das “secções”. Por exemplo, que ilacções devemos tirar do facto de nas livrarias inglesas aparecerem livros sobre homosexualidade em secção própria? Eu tiro muito puocas, por várias ordens de razões:
    1) Londres tem uma das comunidades gay mais exuberantes da Europa, logo é natural que essa comunidade não queira procurar os títulos associados à sua comunidade no meio dos títulos do Charles Dikens (que eu muito aprecio)
    2) Em Inglaterra felizmente o estigma associado à comunidade gay é muito menor do que em portugal. Por exemplo é relativamente frequente ver casais homosexuais a beijarem-se, sem que isso cause grande escandalo. Talvez seja também por isso que as ditas “secções” choquem menos a comunidade gay inglesa do que alguns portugueses …

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Luís Oliveira,
    Acho muito bem que a comunidade homossexual tenha liberdade. Acho igualmente positivo que os livros que estudem o judaismo e as questões de género estejam devidamente arrumados para fácil consulta. Já me parece um abuso que um romancista enteja confinado a um aspecto da sua identidade. Suponha que arquivavam a “Viagem ao Fundo da Noite” numa estante chamada Fascismo e Roger Vaillant numa prateleira chamada comunismo… Acho que o romance organiza-se por autores e não se compadece com identidades que simplifiquem as obras.

  8. “Já me parece um abuso que um romancista enteja confinado a um aspecto da sua identidade. Suponha que arquivavam a “Viagem ao Fundo da Noite” numa estante chamada Fascismo e Roger Vaillant numa prateleira chamada comunismo… Acho que o romance organiza-se por autores e não se compadece com identidades que simplifiquem as obras.”

    Estas coisas são complicadas. Admito.

  9. António Figueira diz:

    Caro Luís Oliveira,
    Obrigado pelo voto de confiança – mas às vezes também consumo shit literature como os outros. A Foyles é muito confusa para mim: se me permite uma sugestão, tente a Judd Books, na rua do mesmo nome, mas pf não conte a muita gente. Quanto ao mais, metam o Céline onde quiserem, mas deixem o Vaillant no V.
    Cordialmente, AF

  10. Caro António Figueira:

    Isso foram outros tempos. Mas vou tomar nota.

    Quanto à shit literature faz você muito bem, não quer recomendar alguma coisa?

    Quanto ao Céline fico grato em saber que o seu non sense está intacto.

    Cordealmente Luis Oliveira.

  11. António Figueira diz:

    Caro Luís Oliveira,
    Quer uma recomendação de Natal? Então tente esta: How Mumbo-jumbo Conquered the World: A Short History of Modern Delusions, by Francis Wheen (não é shit literature, longe disso, mas é hylarious qb). Boas leituras, AF

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