O Papa – mas em nome de quem?

As (alegadas) declarações do Papa na sua recente visita à Turquia suscitaram a admiração de muita gente, sobretudo por contrastarem com a má-fé com que os dirigentes europeus, em especial alemães e franceses, têm gerido o dossier da adesão. Eu não seria tão entusiástico. Admitindo que o Papa disse o que Erdogan disse que ele disse, começa por que tais declarações não têm quaisquer consequências efectivas. A adesão da Turquia à UE não depende do Papa e, a menos que as coisas mudem substancialmente, essa adesão – altamente impopular na Alemanha, na França e em muitos outros países – não se está a ver que possa vir a realizar-se. Se o Papa não está propriamente a fazer campanha pela integração da Turquia na UE, qual é o efeito desta sua atitude e desta visita? Nesta hora atribulada que sucede ao fracasso do projecto hegemónico dos Estados Unidos, parece que o Papa encontrou uma oportunidade para se apresentar ele mesmo como o porta-voz da Europa e do Ocidente. Está certo que eu não estava muito feliz no tempo em que Bush pretendia falar em nome da nossa civilização e das liberdades, e com isso justificar as suas mais variadas políticas. Mas tão pouco posso ficar muito descansado se a voz do Ocidente moderado, razoável e livre é representada pelo Papa – um conhecido adversário do laicismo e do iluminismo.

O episódio do comunicado de Freitas do Amaral enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros sobre a questão dos cartoons de Maomé há uns meses atrás, com a sua invocação expressa da Virgem Maria numa posição do estado português, talvez tenha sido um importante prenúncio. Numa altura em que o mundo ocidental se encaminha para um vazio de liderança, o Papa aproveita a ocasião para representar a nossa voz junto do mundo muçulmano, exprimindo-se sobre matérias de âmbito estritamente político. Se há quem encare a ocupação do discurso político europeu pela voz do Papa como um sinal positivo, não serei eu – por causa das consequências para a liberdade no plano interno, e também por causa das consequências internacionais de um mundo em que o diálogo inter-religioso ocupa o espaço da representação política.

Este artigo exprime muitas ideias que me parecem interessantes, mas o final é tão cómico que fiquei na dúvida se alguma parte dele era para ser levada a sério.

«The time may come when a mass mobilisation of secular and anti-clerical forces, drawn from across the world, is brought to Rome and simply occupies this anachronistic and pernicious entity; and in doing so abolishes the political and diplomatic authority of popes and cardinals, and turns the Vatican, its wealth and buildings, over to an international, secular, distributive society. It might be a change from demonstrating against the World Trade Organisation, and would target an organisation that has done far more harm on the global stage.»

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.