Iraque: Day of reckoning

Assistimos neste momento a uma raridade histórica: um ajuste de contas generalizado com uma política externa que levou ao fiasco, e quem dirige o ajuste de contas é o próprio presidente que provocou o fiasco – uma humilhação do mais alto grau. É uma forma de auto-impeachment, com o bónus de que o Presidente é autorizado a manter-se no cargo.

[do Spiegel, em inglês]

O dia do ajuste de contas alguma vez teria de chegar. Uma guerra desastrosa, assente, não apenas na mentira, mas numa cegueira história e ideológica bastante considerável, havia de gerar os seus frutos, como está a gerar, e de exigir respostas. O relatório da Comissão Baker, ontem divulgado, parece vir dar o tiro de misericórdia na política da administração Bush para o Iraque. 1. Propõe uma retirada progressiva de tropas, de tal forma que daqui a um ano os americanos devem estar apenas a auxiliar, coadjuvar, cooperar com os iraquianos no combate à al-Qaeda, e não a fazer eles directamente a guerra. 2. Defende a abertura de um processo negocial com a Síria e o Irão – isto é, diz que os EUA têm de pedir ajuda aos dois regimes do mundo que o governo Bush mais hostilizou. 3. Sustenta que a estabilização do Médio Oriente – incluindo o imbróglio do Iraque – só pode ser resolvida através de uma negociação generalizada que inclua o problema da Palestina. Mas por que será que eu não me sinto feliz?

Infelizmente, o relatório «realista» de Baker não parece muito mais realista do que a política anterior. Fazem-me particular confusão as recomendações relativas à retirada de tropas. A Comissão não propõe a retirada imediata – porque, alegadamente, isso levaria a um ponto trágico a guerra civil, arrastando as potências vizinhas num conflito generalizado, o Irão, a Arábia Saudita, a Síria e, muito possivelmente, a Turquia. Mas a Comissão também não sustenta o aumento das tropas americanas no terreno, ou o prolongamento da sua missão. Pelo contrário: diz que, se o governo iraquiano não fizer mais do que tem feito até aqui para melhorar a segurança, os americanos sairão mais depressa. O paradoxo pode expressar-se assim:

«Se o governo do Iraque conseguir, de forma lenta mas segura, acabar por si próprio com a insurgência e o derramamento de sangue, os Estados Unidos procederão a uma retirada gradual. Por outro lado, se não for posto um fim aos assassinatos e às execuções – se o governo do Iraque se revelar impotente perante o agravamento da guerra civil –, nesse caso os EUA retirar-se-ão mais depressa.» [de novo o texto do Spiegel.]

Ora, a última vez que li notícias do Iraque fiquei com a impressão de que o governo iraquiano não é propriamente uma entidade unificada e soberana, capaz de aplicar uma política coerente em todo o território. Pelo contrário: o próprio governo é atravessado por forças contraditórias, algumas delas apoiadas em milícias armadas. Mais que isso: as próprias forças armadas do Iraque se sobrepõem e misturam com milícias sectárias, de tal forma que nem sempre é fácil distinguir onde começam as forças armadas «iraquianas» «unidas» e onde acabam as milícias sectárias xiitas e sunitas. Os EUA pretendem fazer um ultimato a uma entidade que possivelmente não está em condições de responder a ultimatos. E se a resposta iraquiana não for satisfatória? Nesse caso, os americanos retiram – propiciando a tal guerra regional generalizada. Não seria melhor retirar já?

É confuso – e agora imaginem do ponto de vista dos militares americanos que estão no Iraque e que amanhã e nos dias seguintes terão de sair para combate, patrulhar ruas, enfrentar fogo hostil. A mensagem é: se as coisas correrem mais ou menos, saímos no prazo de um ano; mas, se correrem mal, saímos já.

E é confuso também do ponto de vista das outras potências regionais com as quais se pretende negociar. Não me interpretem mal: qualquer pessoa com o mínimo de bom-senso (o que, infelizmente, não inclui a administração Bush ou qualquer dos seus apoiantes) há muito tempo que tinha percebido que os EUA não teriam outra hipótese senão tentar negociar com o Irão e a Síria, a quem podem eventualmente oferecer outras contrapartidas e que não estarão, eles mesmos, muito entusiasmados com a perspectiva de um conflito regional ou com a partição do Iraque. Mas a negociação só pode ser conduzida a partir de uma posição de alguma força e sobretudo de clareza, não de desespero. Se os EUA têm duas ideias diferentes entre ficar e partir, que compromisso negocial sério podem assumir com o Irão e a Síria? Não deveria esta negociação política ter prioridade sobre o elencar, ainda por cima público, de alternativas militares pouco menos que desesperadas?

Ou eu estou a ver mal as coisas (o que é perfeitamente possível), ou isto não faz muito sentido. Ou, pelo menos, não faz sentido como política externa. Mas também pode dar-se o caso de isto não ser política externa, e sim política interna. O eleitorado americano já chegou à conclusão de que a intervenção foi um erro. Quer sair. A Comissão (bipartidária, cinco republicanos e cinco democratas) oferece uma sugestão que, admitindo a saída, ao mesmo tempo não contradiz directamente o Presidente. Não espanta, se pensarmos que esta guerra perfeitamente irresponsável pôde ser feita porque a política interna americana pós-11/9 o tornou possível. Os EUA entraram quando a opinião pública achava boa ideia, apesar dos factos. E os EUA farão a retirada dentro dos termos que a opinião pública aprove, independentemente dos factos. Parece que os americanos já se convenceram de que a guerra do Iraque foi um erro. Mas talvez não tenham compreendido que foi também uma tragédia. Oxalá eu me engane.

Uma última nota, de âmbito interno. Tenho francamente saudades do tempo em que a direita bushista, espumando de triunfalismo e ignorância, festejava a queda e captura de Saddam, e acusava a esquerda de «sorrisos amarelos». Desde o início desta invasão, em Março de 2003, nunca encontrei no Iraque infelizmente, em nenhum momento, motivo para festejos. Por horrível que fosse o regime de Saddam, sempre me pareceu que as consequências da invasão seriam, do ponto de vista interno e internacional, piores. Ainda haveria razões para vir a ter saudades daquela «estabilidade». O tempo confirmou os receios, e se alguma coisa se passou foi a realidade ser pior do que as expectativas. Mas ninguém aprendeu nada. Salvo honrosas excepções (lembro-me agora de Pacheco Pereira), entre os apoiantes de Bush ninguém se atreve a discutir o que se está a passar, nem a dizer o que aprendeu, nem a dizer o que deve ser feito a partir daqui. Naquele tempo elogiava-se a «clareza moral» do Presidente Bush, mas hoje ninguém discute o que era essa clareza, nem muito menos que moralidade tinha.

Na maior parte dos casos, o que persiste é a arrogância e a irresponsabilidade (num sentido literal: a indisponibilidade para responder, para prestar contas), umas bocas avulsas, umas provocações, e às vezes ainda umas construções fantasiosas sobre os «bons» e os «maus». Nem me estou a referir à blogosfera política, que pouco acompanho e que é muito agit-prop e pouca reflexão. Mas, nos media, sempre as mesmas luminárias peroram como se nada tivesse acontecido, com o mesmo moralismo, e pessoas de quem se exigiria mais não ultrapassam o registo das bocas, das chalaças, das provocações. Agora estou a pensar em Rui Ramos, num artigo de há umas três semanas no Público (cujo link já não encontro disponível).

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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