Continuação do choque por outros meios

No seu Vício de forma, o Pedro Lomba publicou uma adenda à discussão que tivemos no Choque Ideológico sobre esquerda e América Latina. Salto por cima das queixas sobre o meu alegado paternalismo moral (eu acho que o apoio dos EUA às ditaduras militares na América do Sul foi criminoso; o Pedro Lomba acha-o apenas criticável — e se há ocasião em que aproveito para exercer a fundo o meu paternalismo moral é precisamente quando se trata de condenar ditaduras que prendiam, torturavam e faziam desaparecer gente mentindo às suas famílias durante décadas, na América do Sul ou na Europa de Leste). O contributo factual deste post do Pedro Lomba é uma lista de presidências interrompidas na América Latina desde 1985, lista essa que refutaria a impressão generalizada (e que eu corroborei) de que durante muito tempo a América Latina não tinha governos de esquerda porque, simplesmente, não os podia ter e eles seriam devidamente derrubados por um golpe militar apoiado por Washington. Exemplos: João Goulart no Brasil, Allende no Chile, e o resto do Cone Sul, sendo talvez o caso mais criminoso o da Argentina. Na lista que o Pedro Lomba divulga, não estão lá estes casos (o tempo só começa a contar, por razões não explicadas, em 1985) e tampouco se fala de golpes de estado, mas apenas de “presidências interrompidas”. A presença nessa lista da “presidência interrompida” de Fernando Collor de Mello (por impugnação no Congresso brasileiro) ou da “presidência interrompida” de Fernando de La Rua (resignou depois do “consenso de Washington” neoliberal ter rebentado com a economia Argentina) só serve para demonstrar que “presidência interrompida” é qualquer coisa. Admira-me não estar o Tancredo Neves. Assim como assim, morreu em 1985 depois de ganhar a presidência do Brasil…

O que continua por explicar é o seguinte: porque ganham os candidatos de esquerda (de várias esquerdas, mas sempre assumidamente de esquerda) eleição após eleição na América do Sul? Haverá certamente novas ocasiões para falar disto no Choque Ideológico, até mesmo já nesta semana em que um senhor chamado Pinochet recebeu a extrema-unção e um senhor chamado Chávez ganhou as eleições na Venezuela.

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Segunda | Rui Tavares
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Uma resposta a Continuação do choque por outros meios

  1. Malv diz:

    “O que continua por explicar é o seguinte: porque ganham os candidatos de esquerda (de várias esquerdas, mas sempre assumidamente de esquerda) eleição após eleição na América do Sul?”
    Esse “eleição após eleição” vale desde quando? Colombia? Uruguai?

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