Kramer contra Kramer

Como o Pedro Mexia, eu soube da notícia na 2ª feira através do Público:

«Sexta-feira à noite, 17 de Novembro, Los Angeles. Michael Richards [conhecido como o Cosmo Kramer de Seinfeld] estava a desenrolar o seu número de stand-up comedy no clube de comédia Laugh Factory. Um grupo terá começado a gritar para o palco, dizendo que o comediante não estava a ter piada. No vídeo que circula na Internet não são visíveis as provocações, mas apenas a reacção do cómico, que lhes dá resposta com a frase “Calem-se! Há 50 anos punhamo-vos de cabeça para baixo com uma merda de uma forquilha pelo rabo acima!”, aludindo aos tempos da escravatura negra e aos linchamentos. “Ponham-no na rua, ele é um preto (nigger). Ele é um preto! Ele é um preto!”, continuou. Há alguns risos entre a plateia, mas também um espectador sonoramente incomodado. Richards reage também ao “ooh” indignado: “Muito bem, vêem, isto choca-vos”. Quando o visado pelos primeiros insultos diz que as palavras com carga racial eram desnecessárias, Richards responde-lhe, irritado, que “o que é desnecessário é interromperem-me!” O dono do clube baniu Richards do palco até que ele se desculpasse publicamente. Mas só depois do vídeo, captado por um telemóvel e reproduzido pela TMZ.com, ter sido exibido por muitos programas de televisão e sítios na Internet entre domingo e segunda-feira. No sábado à noite, Michael Richards ainda actuou na Laugh Factory

Lê-se isto, a descrição está bem feita, mas ainda falta alguma coisa: o video. Causa alguma surpresa que nós nos blogs estejamos dispostos a fornecer uma variedade de fontes bem mais ampla do que a que usam os jornais: no site do Público (que é o que eu mais leio) não há links nem videos. Eis então o video.

Talvez não adiante dizer o que dizem as imagens. Não me cabe fazer um julgamento. As imagens de Kramer no Letterman não são, de certa maneira, menos inquietantes.

Seinfeld foi ao programa de Letterman e aproveitou a ocasião para pôr Michael Richards a falar com o público. Richards está visivelmente consternado. Seinfeld está visivelmente preocupado, tentando ajudar o amigo. Mas o que impressiona é que, num primeiro momento, o público ri, e continua a rir, como se tudo aquilo fizesse parte da comédia. Richards hesita, teve muitas dúvidas sobre se seria boa ideia ir fazer aquilo: ir a um programa de TV – um programa de entretenimento na TV – fazer um pedido de desculpas. Richards parece ter-se dado conta do risco de fazer isto num programa de entretenimento. O seu sofrimento (acho que não exagero na palavra) e as suas desculpas passam a fazer parte do show.

E falar mais nem sempre é boa ideia. A passagem em que ele remete para uma teoria geral da agressividade, relacionada com «o nosso país agredir outras nações», não é das mais felizes. A parte do personal work também não me agrada, pois, se é personal, não é público.

Tão pouco acho que o episódio de Kramer – lamentável, surpreendente, em certa medida bizarro – deva dar origem a excessivas filosofias. Kramer perdeu a cabeça, como outras pessoas perdem a cabeça, por exemplo no trânsito. Acho que quem está no trânsito assume certas responsabilidades, e quem está num palco também; nesse sentido, Kramer, perdendo (humanamente) a cabeça, não agiu dentro do mínimo de responsabilidade que lhe era exigível. Violou o contrato, perdeu o direito. (Por quanto tempo, não sei.) Ele próprio diz, com grande lucidez, que é importante que os ofendidos protestem, porque o caso tem um alcance muito amplo – não pode ser «normalizado», trivializado.

Estas coisas racistas andam no ar. Coisas sexistas também. Ideias sobre superioridade e inferioridade, dominação e submissão, entre grupos «étnicos», entre «géneros», entre ricos e pobres, entre cidades. A minha impressão é que todos estes preconceitos e todas estas violências podem ser «mobilizadas» (passe o sociologuês) numa situação em que se pretende ferir seriamente o outro. Kramer quis aleijar, e levante-se o primeiro santo que nunca quis magoar. A questão de saber se Kramer acredita naquilo está – visto que Kramer não é, claramente, um racista – está «para lá do ponto». É claro que não acredita, na mesma medida em que nós não acreditamos em todas as barbaridades que nos saem pela boca fora numa situação violenta do género. E é claro que «acreditamos», que fazemos parte do meio em que estas ideias insiodiosamente circulam. Ideias sobre as mulheres. Ideias sobre os pretos. Ideias sobre os ricos. Ideias sobre os pobres. Ideias sobre o que é «ser homem».

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.