Gonçalo Sousa

Não é fácil dizer bem, porque não é hábito. Pelo menos de tantas coisas. Começo pelo lugar mais improvável: suponho que nunca ninguém fez um elogio a um tradutor de filmes; calculo que não seja pela tradução de filmes que se constrói uma reputação e uma carreira. E, no entanto, ultimamente reconheço uma marca autoral nos filmes que não é do realizador, nem dos actores, nem do argumentista. Já me aconteceu mais do que uma vez, a meio do filme, dar-me conta de que a tradução só pode ser de uma pessoa. Isso não resulta simplesmente do facto de que a maior parte das vezes as traduções dos filmes são péssimas; resulta de que nas traduções do Gonçalo Sousa se nota rigor, cuidado, atenção ao detalhe. Não sou um maníaco do texto nos filmes; não sou daqueles para quem «bons diálogos» valem um filme. Mas, mesmo assim, é uma felicidade notar que o tradutor se interessa pelas frases que está a construir, se interessa pelo texto que foi posto no filme e também se interessa em dar um português decente a quem está a lê-lo. É isso que noto no trabalho do Gonçalo Sousa. O facto de o conhecer pessoalmente desde os tempos do liceu (digo isto por disclosure) não é chamado para este elogio.

Há uma quantidade surpreendente de filmes razoáveis nas salas neste momento. Nem estou a falar do último Scorsese, entretenimento de luxo. Estou a falar de filmes que, sem serem obras-primas, mais que justificam o preço do bilhete e me satisfazem à saída da sala. A pepita da série é A Prairie Home Companion, o último filme de Altman. Quis o destino que Altman morresse enquanto este filme está em exibição comercial entre nós, e devemos aproveitar essa coincidência, porque o tom melancólico de A Prairie Home Companion ajusta-se muito perfeitamente à despedida. Além disso, é um belo exemplar da direcção de actores que todos os obituários sublinhavam como uma das grandes qualidades de Altman. Todos são bons, mas destaco Garrison Keillor, que também escreveu o argumento, e Virginia Madsen, na personagem da Morte.
Dans Paris, a que o António Figueira já fez referência. Um início tão cabotino que estive preste a sair da sala, mas depois o filme é uma surpresa. O António viu nele «joie de vivre», o que não é pouca coisa para uma história que se centra num rapaz com uma depressão. O rapaz é Romain Duris (Albergue Espanhol, De Tanto Bater…) e o irmão dele Louis Garrel (de Os Sonhadores), ambos muito bem. Há ainda um filme sobre o pós-guerra da Bósnia, Urso de Ouro no Festival de Berlim, em exibição no King – interessante. Há Thank you for Smoking, uma comédia esperta, com algumas boas piadas. Acho que ainda há Volver, numa ou outra sala perdida.

E não é impossível que algures no país, numa sessão esporádica, também se consiga ver uma espécie de documentário sobre Vinícius de Moraes. Há alguns aspectos que me merecem reservas: dois maus actores fazem a «continuidade» ao longo do filme, dizendo mal textos de que, nalguns casos, até existem gravações disponíveis pelo próprio Vinícius. E há um tom hagiográfico que não permite mostrar a dimensão de tristeza, quase se diria a dimensão de tragédia da personalidade de Vinícius, que marcou especialmente os seus últimos anos. Se puxarem por mim ainda digo mais: muita coisa que Vinícius fez é uma merda, poeminhas ridículos, cançõezinhas da treta que não merecem ser lembradas nem muito menos glorificadas como «o poeta do amor».
Mas estou a entusiasmar-me e a dar uma perspectiva distorcida das coisas. O filme vale a pena porque é Vinícius, evoca Vinícius, remete para Vinícius, excelente poeta nos seus melhores momentos, personalidade que merece ser lembrada. Eu sou um grande de Vinícius. O melhor deste filme são os depoimentos
de Chico Buarque (perfeitamente luminoso), a belíssima revelação de Mariana de Moraes (neta, filha de Pedro) e algumas imagens de arquivo. Menos bem Zeca Pagodinho, sambista de que gosto muito mas não encaixa no molde.

Uma última nota: excelente o texto de Luís Miguel Queirós no Público a propósito da morte de Cesariny (que encontrei neste blog de temática super-contemporânea). Já tinha dito noutra altura que acho Luís Miguel Queirós um impressionante jornalista cultural. Pena que escreva com tão pouca frequência.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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