Viagem

Autor: Carlos Trincão

Preparo-me para um viagem de cinco horas, em comboio rápido, e instalo-me no compartimento. Ganho fôlego para escrever, ainda no comboio, horas depois da partida.

De Sul para Norte, que é a direcção em que marcho, as montanhas sucederam-se a um ritmo impressionante, sem dar tréguas. Primeiro, a meia distância de mim, como que a recordarem-me do que – já lá vão tantos anos! – aprendi nas aulas de Geografia e nas de História; depois, parecendo querer deixar-me respirar, afastaram-se discretamente, embora mantendo suficientes motivos de interesse para que eu não me distraísse. Até aqui, tudo bem, diria, que as altitudes nem eram grande coisa. Porém, subitamente, surgem-me, pela esquerda, magníficas visões de cumes gelados e encostas agrestes, rudes e brutais – uma sólida e persistente cordilheira de cerca de 1500 metros de altitude.

E foi aqui, então, que tudo se complicou. A viagem passou a fazer-se dentro da montanha, ora furando-a, ora vencendo os vales. E quando não a furava nem vencia os vales, o comboio optava, inteligentemente, por acompanhar as encostas a pouquíssimos metros de autênticas paredes, verticais e tudo, que começavam uns largos metros abaixo de mim e subiam rapidamente não sei quantas dezenas deles!

São rugosas, as paredes das montanhas! Rugosas e nada apaziguadoras. São elas que mandam. O comboio obedecia-lhes, humildemente. Tão humildemente que a velocidade tinha que abrandar para valores próximos da lentidão.

Por fim, esgotada a arrogância pétrea, a paisagem decidiu amainar. Os montes, então já mais moderados, limitavam-se a fazer uma espécie de guarda de honra ao comboio. Vestiram-se de verde permanente, arredondaram os cimos, perderam a neve e, de quando em vez, estendiam-se languidamente em onduladas planícies.

Nunca perdi o verde de vista desde a estação de partida: arbustos, árvores que não identifiquei, oliveiras a perder de vista. E não importava onde: nos vales ou nas encostas. Aqui, então, era sublime a vista: parecia que as árvores tinham procurado a pedra certa para apoiar as raízes, envolvendo-as e penetrando, então, no sub-solo. Daí que as cores das vertentes não fossem simplesmente verdes, antes verdes polvilhadas de branco, muitos brancos a espreitar do chão.

E muitos brancos, também, nas copas, já não de oliveiras, mas de amendoeiras, num festival de exaltação da Primavera. A deusa Deméter deve estar para chegar!

Não vi as abelhas, mas sei que por ali andam, tantas são as colmeias que os homens por aqui espalharam.

Mel, azeite e azeitonas, como aprendi na escola. E leite e queijo, porque vi os rebanhos de ovinos e caprinos. A realidade da Grécia, entre Atenas e Salónica, confere com os livros.

 

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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3 respostas a Viagem

  1. zazie diz:

    Que horror…

    Eu também não tenho o menor talento para a escrita. Por isso mesmo, restrinjo-me ao estritamente necessário.

  2. zazie diz:

    “os montes estão já mais moderados” é uma frase espantosa. Devia ter levado mais um ponto de exclamação.

  3. Pimenta diz:

    Ao ler e ser transportado para um lugar que nao conheço é de valor…pra ser perfeito so mesmo um sussurro…com sotaque…

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