Contra o véu

A Joana Amaral Dias declarou-se aqui contra a proibição do chamado “véu islâmico” (de certo tipos de véus, em certos países). A partir de um caso (o da proibição do “foulard” nas escolas francesas), vou explicar porque é que eu acho que ela não tem razão:

 1 – A proibição do uso do foulard, considerado uma manifestação de proselitismo religioso, preserva a neutralidade do espaço escolar público. A República Francesa não é culturalmente neutra, como nenhum outro país o é. Em França, o Natal é feriado e o dia de descanso é o domingo; os dias santos de religiões não-cristãs não o são, e o descanso não é à sexta nem ao sábado. Dito isto, o Estado francês adoptou, de uma forma percursora e que influenciou outros países (entre os quais o nosso) um princípio de separação entre o Estado e a Igreja que, genérica e simplificadamente, remete a questão religiosa para o foro individual e afirma o carácter não-confessional do Estado. Corolário desse princípio é o da laicidade escolar: as escolas públicas são religiosamente neutras e quem quer ir à catequese, à escola talmúdica ou decorar o Corão vai fora da escola e nas suas horas livres (é essa a origem das famosas quartas-feiras livres que fazem a inveja dos miúdos de outros países) – além de que existe um ensino confessional privado. Deixar as criancinhas invadir o espaço escolar público com véus islâmicos, kippas judaicos ou eventuais cruzes de cruzados subverte sem qualquer proveito evidente esse princípio da laicidade e constitui a meu ver uma regressão civilizacional de séculos.
 

2 – A proibição do foulard nas escolas públicas salvaguarda a liberdade das jovens muçulmanas. Eu tenho as maiores dúvidas de que as jovens liceais muçulmanas de França, que pedem para andar de cabeça coberta para não excitar a concupiscência dos rapazes, exprimam com sinceridade aquilo que pensam (e de resto, a Comissão Stasi, que opinou a favor da proibição do foulard e cuja probidade intelectual não tenho razões para pôr em causa, escreveu, nas suas conclusões, que tinham sido várias as jovens que, em audiências confidenciais, insistiram nessa proibição, que elas viam como a única forma do Estado francês as libertar de um dress code que não é escolhido por elas mas sim imposto pela família e pelo meio envolvente). Eu só defendo o direito à diferença se este incluir também o direito a ser diferente da diferença; o contrário disso, traduz-se na prática reaccionária e iliberal de atribuir a cada um ou a cada uma o papel que a tradição lhes destinava, fechando-os(as) num tipo social que não escolheram.

 3 – A proibição do foulard ajuda a integração das jovens muçulmanas na sociedade francesa. A ideia de que os imigrantes económicos podem ou querem reconstituir a sua sociedade de origem no país de acolhimento é um mito sem verificação empírica. A aspiração normal dos imigrantes é a sua integração na sociedade de acolhimento; o que na realidade se passa é que eles se integram ou não consoante a atitude social maioritária nesse país de acolhimento. Quem não pretende a integração, segrega e a forma moderna de segregação é o multiculturalismo que em nome da diferença defende a co-existência dos grupos étnicos em vez da sua integração. Quem defende que as minorias étnicas se devem perpetuar e não se devem dissolver no grande melting pot (ou creuset, no caso francês) está implicitamente a defender a separação biológica das minorias, porque em última instância só esta pode evitar a sua extinção natural através da miscigenação. As minorias da imigração são minorities by force (ou contra a sua vontade) – ou então, fruto do ressentimento que resulta da sua não-integração, vivida como uma verdadeira rejeição pela maioria, são minorias com um comportamento associal e uma dimensão identitária exacerbada. A discriminação da mulher nas minorias étnicas de matriz islâmica é uma das causas da integração comparativamente mais difícil dessas minorias em França; o exacerbamento da identidade étnica e religiosa desses grupos piora ainda o seu estatuto. O Estado francês, se pretende integrar e não segregar as jovens muçulmanas, tem o direito e o dever de lhes exigir, em nome do princípio da igualdade, e sem atentar contra a liberdade de consciência, um comportamento no espaço escolar público semelhante ao das outras francesas.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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31 respostas a Contra o véu

  1. jpt diz:

    pois. (so me surpreende quem nao percebe isto)

  2. Luís Lavoura diz:

    Desde quando é que o Estado tem o direito de impôr às pessoas um código de vestimenta?

    Isso será liberal?

    E as jovens que andam com calças justinhas e baixas nos quadris? Também o fazem mediante uma escolha livre? Ou é a sociedade envolvente que as obriga a usar aquilo? O Estado deverá intrometer-se, obrigando as calças a terem um mínimo de altura das ancas e um mínimo de largura nas coxas? Eu penso que não.

    Combate-se a família das jovens que as obriga (mas serão todas obrigadas?) a usar véu, com um Estado que as obriga a não o usar?

    E eu que tenho uma grande barba, serei obrigado a rapá-la? Qual é a diferença entre o Estado francês, que obriga os professores a rapar a barba, e o Estado afegão, que os obriga a deixá-la crescer?

    Eu sou liberal. O Estado não tem nada que se intrometer na forma como as pessoas se vestem. Sob nenhuma desculpa.

  3. Luís Lavoura diz:

    Como raio é que uma peça de vestuário pode ser considerada uma forma de proselitismo religioso? E de que religião? As freiras católicas também usam um véu.

    Eu uso uma bóina basca. Isso será proselitismo de alguma ideia política? Ou será apenas uma forma tradicional de cobrir a cabeça dos pescadores de Peniche? Dá que pensar.

    E quem usa barba? Não terá paciência para a cortar? Ou estará, de forma melíflua e camuflada, a tentar convencer outrem a aderir a uma religião?

    Quando o António Figueira passa pelo aeroporto do Heathrow e vê dezenas de homens com altos turbantes, sente-se tentado a aderir ao sikhismo? Acha que eles estão a fazer proselitismo, a tentar converter os passageiros e os funcionários do aeroporto? Não estarão apenas e tão-somente a… usar um turbante?

  4. pedro diz:

    Parabéns pela magnifíca argumentação. Gostaria agora de saber o que é que a Joana Amaral Dias e os restantes bloquistas, entendedores de uma série de especificidades do ser humano dizem em relação a isso. Será que apenas defendem a laicização dos ocidentais? Dois pesos duas medidas? Um partido, dois sistemas, como no caso chinês?

  5. Luís Lavoura diz:

    Há na conceção francesa de “laicidade” um contínuo equívoco. A laicidade correta é um Estado não-confessional, um Estado que não impõe aos cidadãos uma qualquer religião nem favorece uma qualquer religião. A laicidade incorreta, aquela que se exprime na proibição dos véus, é aquela que pretende proibir os cidadãos de falar da sua religião ou de propagandear a sua religião ou de seguir os ditames da sua religião no espaço público, que pretende que os cidadãos escondam a sua religião.

    A primeira laicidade, a correta, é uma condição para a liberdade. A segunda laicidade, a incorreta, suprime a liberdade, coarta-a.

  6. Luis Lavoura,
    não há duas nem três laicidades.
    Quem ler o relatório Stasi (ou o relatório Debré) compreenderá porque é que o uso do véu era efectivamente proselitista nas escolas públicas francesas. É que, onde aparecia, vinham também as pressões para não ensinar a teoria da evolução, para não falar do «holocausto», para mudar a dieta da cantina, para as raparigas não participarem nas aulas de ginástica, para não terem nada que se parecesse com educação sexual, etc, etc, etc.
    E houve realmente raparigas que usam o véu e que pediram à Comissão Stasi, em privado, para que o véu fosse proibido. Porque só assim seriam libertadas da pressão da família.
    O islamismo não é um caminho de liberdade.

  7. Já agora:
    os relatórios Debré, Stasi e Obin podem ser lidos aqui:

    http://www.laic.info/

  8. Ezequiel diz:

    Caro António

    O principio da separação igreja – estado, deve-se aplicar sobretudo a processos de decisão e deliberação política, a decisões de soberania. Extender esta prerogativa ao dominío da expressividade cultural não é apenas errado. É perigoso. Podes argumentar que as escolas são públicas logo = estado = laicas neutras. Esta concepção substantiva da laicidade existe mas é problemática porque estabelece um paradigma hegemonico e desnecessário.

    “Deixar as criancinhas invadir o espaço escolar público com véus islâmicos, kippas judaicos ou eventuais cruzes de cruzados…” Um pouco melo-dramático, non?

    “A aspiração normal dos imigrantes é a sua integração na sociedade de acolhimento…”

    Depende do que é que entendes por “integração.” Os imigrantes recriam sempre a sua sociedade no país acolhedor. Contudo isto não significa que existe uma aversão visceral em relação à integração. Penso que não é possivel generalizar aqui. Em alguns casos sim, noutros não. Penso que o argumento de que a integração dos imigrantes depende essencialmente da “atitude social maioritária” é demasiadamente simples.

    Concordo com o ponto 2. Se reparares, o argumento do ponto 2 coloca em perigo a plausibilidade do argumento que diz respeito à lógica da (não) integração (que depende essencialmente da atitude social maioritária). “As meninas são simplesmente obrigadas a serem diferentes!” No worries. Estas contradicções fazem parte da problemática. Não podem ser resolvidas teoricamente.

    cumps

  9. Luís Lavoura diz:

    Ricardo Alves,

    todas as pressões que referes são legítimas. Os pais têm o direito de pretender influenciar a educação que é dada aos filhos. A liberdade de expressão é um valor primordial, embora saibamos que nem sempre ela é bem utilizada.

    O véu, como qualquer outra forma de vestir, é um elemento identitário, e todas as pessoas têm o direito a ter a sua identidade — mesmo que nós não gostemos dessa identidade e a consideremos profundamente retrógrada.

    Na cantina da Universidade Clássica de Lisboa, em 1983, serviam-se dietas macrobióticas a quem as queria. Não tenho objeções a que também se sirvam dietas sem carne de porco nem marisco.

  10. viana diz:

    Concordo totalmente com o Luís Lavoura.
    Acho simplesmente arrogante afirmações do António Figueira como:

    “Eu tenho as maiores dúvidas de que as jovens liceais muçulmanas de França, que pedem para andar de cabeça coberta para não excitar a concupiscência dos rapazes, exprimam com sinceridade aquilo que pensam”

    Como é que sabe?!!… Deixa entender que ALGUMAS jovens afirmaram em privado que o seu apoio público ao uso do véu era falso e feito sob pressão. E as outras? As que sinceramente querem usar o véu, independentemente da motivação? Não contam? A sua liberdade não conta? Retira-se a liberdade a 100 para permitir a 1 ter liberdade?!

    “A ideia de que os imigrantes económicos podem ou querem reconstituir a sua sociedade de origem no país de acolhimento é um mito sem verificação empírica. A aspiração normal dos imigrantes é a sua integração na sociedade de acolhimento”

    Suponho que o António Figueira verificou empiricamente a sua segunda afirmação. Senão está a ser intelectualmente desonesto. Suponho que podemos assumir que assim é enquanto não soubermos em que estudos empíricos se apoia o António Figueira.

  11. io diz:

    Eu sou pela liberdade, pelo direito à diferença e pelo… quanto menos Estado melhor…
    Mas tambem… não sou muito culta… confundo às vezes oos conceitos dos grandes correntes politicas e economicas e.. não entendo os politicos e os “comentadores” de todas as cores.
    Por isso pergunto: – não é o véu, segundo os muçulmanos,(alguns) uma obrigação religiosa?
    Porque é que os que se encarniçam contra os cricifixos nas escolas (simbolo inócuo e que não perturba o funcionamento normal das aulas) e aceitam o véu que no meu entender é : silmbolo religioso, motivo de discriminação, e causa de perturbação do normal funcionamento das aulas. A ESCOLA deve ser integradora, igualitaria, e laica (para todos).

  12. “Retira-se a liberdade a 100 para permitir a 1 ter liberdade?!”

    Nem mais. Porque a liberdade que se permite ao “1”, a de se poder vestir independentemente dos ditames da religião, é muito mais importante (e vale muito mais) do que a liberdade quese retira aos 100 (de poderem utilizar vestes religiosas). Esses 100 continuam a ter a liberdade de vestir muita coisa. A “1” é que, sem esta lei, não tem liberdade nenhuma para se vestir. Este é um argumento de birrinha, que para nossa infelicidade é tipicamente esquerdista.
    As liberdades não são todas iguais. E a grande questão aqui não é de liberdade, é de igualdade, um valor muito caro à verdadeira esquerda.

  13. Luis Lavoura,
    identidade é fascismo. Ou melhor, a política identitária é sempre fascista.

    Os jovens só podem descobrir que há um mundo para lá da família e da cultura de origem se na escola se puderem libertar das pressões das suas origens familiares. E havia raparigas, em França, que eram espancadas nas ruas por não usarem o véu. Não eram espancadas por o usar, mas sim por não o usar.

    Face a isto, para que aquelas que querem abandonar a cultura de origem o possam fazer, é necessário que haja um espaço neutro como a escola pública em que possam aprender a fazê-lo. Foi isso que se tentou preservar em França com a lei contra os símbolos religiosos ostensivos.

    A alternativa a isto é defender a expressão da diferença, mesmo que seja a diferença de ser fascista ou islamista. É mais importante, para mim, preservar a igualdade entre os alunos, independentemente da confissão religiosa de origem, e permitindo-lhes abandonar a cultura/religião de origem.

    E não se trivialize a questão trazendo comparações com a macrobiótica. Não é nada disso. Na Turquia só há algo parecido com uma democracia porque há laicidade. E proibiu-se o véu, nas escolas e nas universidades, há muitos anos.

    (Concordo com o Filipe Moura.)

    http://www.ateismo.net/diario/2006/11/o-regresso-do-vu.php

  14. “Porque é que os que se encarniçam contra os cricifixos nas escolas(simbolo inócuo e que não perturba o funcionamento normal das aulas) e aceitam o véu que no meu entender é : silmbolo religioso, motivo de discriminação, e causa de perturbação do normal funcionamento das aulas?”

    Porque os crucifixos são postos nas salas pela escola, enquanto que quem usa os véus são as alunas a titulo pessoal – não tenho nada contra alguém ir para as aulas de crucifixo ao peito.

    Quanto aos crucifixos não perturbarem as aulas e os véus perturbarem – se houver pessoas na sala que se incomodem com a presença de um crucifixo, o crucifixo perturba a aula; da mesma forma, se ninguém se incomodar com o véu, o véu não prejudica a aula (a menos, claro, que se tratasse de um niqab, o que poderia prejudicar a identificação da aluna)

  15. Luis Oliveira diz:

    Ricardo Alves:

    “E não se trivialize a questão trazendo comparações com a macrobiótica.”

    O Ricardo Alves acha mesmo que não é obrigação da cantina, permitir às pessoas muçulmanas alimentarem-se de acordo com os rituais muçulmanos?

  16. euroliberal diz:

    A lei francesa é jacobina, tal como as leis que penalizam a negação dos holocaustos judeu e arménio (mas não o dos russos, chineses, ciganos, tutsis, etc.). A história é para ser decidida pelos historiadores, não pelo legislador. Houve ainda a ridícula lei (já revogada) que decretava que a colonização tinha sido positiva. Mais uma vez, até pode ter sido, mas não compete à lei decretá-lo. Ideia jacobina por excelência, a do poder totalitário da lei positiva. Na Inglaterra há mais liberdade e ninguém chateia os sikks, muçulmanos, hari krishas, etc. Cada um veste-se como quer, é a solução liberal. E o véu não é religioso, é cultural, identitário. Tal como andar de gravata não é cristão, é ocidental. E já pensaram que os muçulmanos também podem ficar chocados com o topless em zonas públicas ou o sexo na publicidade e na televisão ? O andar tapado demais é mais intolerável que o andar tapado de menos ? Com que base ? Claro que não têm o direito de o impedir. Como nós não temos o direito de impedir o véu. Isso é pura islamofobia. O estado deve garantir a todos o direito de se vestirem como querem. Deve ajudar a jovem muçulmana que não quer usar véu contra a família e aquela que quer usar véu contra os talibans do laicismo franchouillard ou tuga. É a tolerância liberal. Toda a islamofobia é muito feia, mas a de esquerda parece-me verdadeiramente grotesca…

  17. viana diz:

    Em reposta ao Filipe Moura:
    Data: 29 Novembro 2006, 16:13

    “a liberdade que se permite ao “1″, a de se poder vestir independentemente dos ditames da religião, é muito mais importante (e vale muito mais) do que a liberdade quese retira aos 100 (de poderem utilizar vestes religiosas)”

    Quem é que afirmou que se deve retirar a liberdade de alguém poder não vestir o véu? O que se discute aqui é sim se se deve retirar a liberdade de poder vestir o véu. Quem não quiser usar não use. Pode ser por vezes uma decisão difícil? Pode obrigar a romper com a família e amigos? Seja. Há quem tenha imensa dificuldade em assumir a sua homossexualidade, porque a família e os amigos não iriam compreender, por poder ser agredido na escola ou na rua. E depois? O Estado vai agora obrigar todos a declararem-se homossexuais para proteger aqueles que o são na verdade? O Estado deve estar presente para apoiar e proteger a decisão de não usar o véu. Não o deve fazer prejudicando outros.

    Em resposta ao Ricardo Alves:

    “Os jovens só podem descobrir que há um mundo para lá da família e da cultura de origem se na escola se puderem libertar das pressões das suas origens familiares.”

    E por isso na escola pública deve ser estimulado um ambiente de crítica e reflexão, sem tabus nem censuras. Nada mais. Aliás, sistematicamente tem sido observado que quando se tenta proibir parte duma identidade o que acontece é o cerrar fileiras, e o crescimento da identifcação comunal mesmo entre aqueles que já estavam em acelerado processo de assimiliação. Isso é patente em França e no Reino Unido. A minha família, é a minha família, a minha cultura de origem, é a minha cultura de origem, ambas fazem parte do que sou: atacá-las e eu defendo-as ainda mais.

    “E havia raparigas, em França, que eram espancadas nas ruas por não usarem o véu. Não eram espancadas por o usar, mas sim por não o usar.”

    Completamente demagógico. A polícia existe para alguma coisa. Se fôr preciso aumentem as penas previstas. Suponho que se as raparigas fossem espancadas por usarem o véu, a solução seria então obrigar todas as mulheres a usarem um véu… ridículo.

    “Face a isto, para que aquelas que querem abandonar a cultura de origem o possam fazer, é necessário que haja um espaço neutro como a escola pública em que possam aprender a fazê-lo.”

    Ganha-se sentido crítico da nossa origem identitária crescendo num meio (por exemplo, a escola pública) onde a discussão e a crítica de ideias está presente, sem tabus nem censura. Alguém deixa de poder reflectir, se quiser, por usar um véu mesmo que não o queira? Alguém deixa de poder aprender a ter sentido crítico por ter de usar uniforme escolar? É cada argumento mais absurdo… que só menorizam as mulheres, imaginadas como seres débeis incapzes de pensar com um véu na cabeça.

    “A alternativa a isto é defender a expressão da diferença, mesmo que seja a diferença de ser fascista ou islamista. É mais importante, para mim, preservar a igualdade entre os alunos, independentemente da confissão religiosa de origem, e permitindo-lhes abandonar a cultura/religião de origem.”

    Abandona-se a cultura/religião de origem na cabeça e no coração. Que é que isso tem a ver com o modo de vestir?! Olhe que eu até gostaria de proibir os jovens de usarem roupa de marca, permitindo-lhes abandonar a cultura (serea religião?…) consumista em que vivem. Será que o Ricardo Alves concorda?… Acho que seria mais fácil para eles ganharem sentido crítico se não estiverem constantemente a comparar as roupas uns dos outros. Ou não acha?…

  18. Sérgio diz:

    Concordo, no essencial, com o texto de António Figueira. A laicidade não é só um princípio de indiferença do Estado perante as crenças religiosas: implica, num entendimento substantivo, um projecto de emancipação das tutelas tradicionalistas e religiosas que podem fazer diminuir civicamente algumas pessoas, nomeadamente as mulheres. Parte do pressuposto de que a crença é uma atitude essencialmente privada e o espaço público a-religioso.
    Apesar da simpatia que parece rodear o conceito de neutralidade parece-me que não asseguraria eficazmente o respeito pelos foros cívicos fundamentais, podendo mesmo servir como uma espécie de Cavalo de Tróia para uma lógica de tipo comunitarista. Poderá isto parecer subsidiário de uma cosmovisão jacobina, centralista e estatista mas, até prova em contrário, foram Os Estados que, através da separação com as confissões, garantiram a liberdade de consciência e não as religiões tornadas parte do Estado. Como tal, é a laicização da vida pública (que não o laicismo) que substantivou os princípios constantes nas declarações dos Direitos Humanos. De resto, o facto de os sinais religiosos evidentes serem interditos em edifícios públicos não implica que não sejam utilizados fora deles, nem significa qualquer interdição de culto religioso. E isto aplica-se a todos os grupos religiosos porque não são só os muçulmanos a manifestarem o seu desagrado. A própria Igreja o fez, em termos que em tudo fazem recordar a máxima «libertas ecclesiae» que mais não era do que uma expressão interessante para reclamar privilégios sobre as demais.
    Atenciosamente.

  19. lololinhazinha diz:

    O véu é um símbolo de opressão das mulheres. Eu acho positivos todos os esforços que possam ser feitos no sentido de limitar esses sinais de opressão. É lamentável que, por vezes, a limitação tenha que passar pela proibição. presumo que é mais fácil para nós portugueses condenar a atitude do Governo francês porque não temos, no quotidiano, a dimensão do problema. O véu tem, antes de mais, um efeito distintivo que resulta, muitas vezes, em discriminação. No meu ponto de vista a medida acaba por ser positiva do ponto de vista da diminuição da discriminação. As mulheres muçulmanas, a julgar pelo que conheço das que vivem em portugal, agradecem.

  20. euroliberal diz:

    “um projecto de emancipação das tutelas tradicionalistas e religiosas que podem fazer diminuir civicamente algumas pessoas, nomeadamente as mulheres”, diz Sérgio.

    Uma perfeita neoconeirice, aliás. As iranianas andam de véu, mas são quase 60% nas universidades. Convençam-se disto: os muçulmanos e muçulmanas gostam de o ser e viver como tal. Ninguém os obriga. E viver numa sociedade com valores fortes (familiares, clânicos e tribais, nacionais e religiosos) é mais saudável. Não há depressões, nem suicídios, nem delinquência juvenil nem sem ser juvenil, nem solidão, nem falta de solidariedade social, nem angústias existenciais. Sabem o que eles pendsam de nós ? Que somos decadentes, debochados, depressivos crónicos, sem valores, desiludidos da vida, egoístas, que abandonamos os pais velhos em lares, que apoiamos cruzadas assassinas e roubos de petróleo, e sobretudo que somos esquizofrénicos, ao pretender obsesivamente separar o sagrado do profano, que para eles devem viver em perfeita simbiose constituindo a base do equilíbrio e da felicidade. Mas quem é você para decidir o que é bom para os iranianos e iraquianos, que têm civilizações de 5.000 anos ? Quer que o modelo das mulheres muçulmanas seja o putedo de Hollywood, como a Britney Speears que tira fotos em festas a ver-se que não tem cuecas ou a Madonna, que faz bacanais com dezenas de homens simultâneamente, escolhidos pelo tamanho da pichota ? Não faça rir os iranianos ! Quem é o você e o que são os seus valores decadentes para dar lições do que quer que seja aos muçulmanos, cuja religião está viva e pujante, recolhe conversões aos milhares todos os dias, mesmo na Europa, e que será no final deste século a maior religião do mundo ? Enxergue-se. Não imite o macaco da Casa Branca.

  21. Isabel diz:

    Os Franceses não são loucos, nem são conhecidos por especiais apetites para proibições gratuitas. O problema é que, como diz o ditado, “quem sabe da tenda é o tendeiro”. De facto, um simples passeio pelas ruas de Paris deixa claro que há uma elevada percentagem de muçulmanos a habitar em França. A integração dos muçulmanos na sociedade francesa é absolutamente essencial. A proibição do véu nas escolas não é a garantia dessa integração mas é um passo nas limitações á discriminação. Provavelmente França acredita que o mudar o exterior é o primeiro passo para mudar o interior. Em parte, acredita bem.

  22. «O Ricardo Alves acha mesmo que não é obrigação da cantina, permitir às pessoas muçulmanas alimentarem-se de acordo com os rituais muçulmanos?»

    Luis Oliveira,
    não é obrigação da cantina permitir às pessoas alimentarem-se de acordo com os rituais muçulmanos, budistas, vegetarianos, cristãos, macrobióticos, vegan, kosher ou frutistas. Não é obrigação, quanto mais não seja porque é impraticável.
    Além disso, não ajuda a misturar os alunos entre si…

  23. Euroliberal,
    tem todo o direito de ser conservador, de achar que a Europa está em decadência, etc.
    Mas olhe que a maior parte de nós gosta da liberdade de se decadentar um pouco. E isso é mais importante do que esses «valores» todos.
    (E quanto à tolerância, a verdade é que nenhuma mulher usa biquini por obrigação, ou faz nudismo com uma kalashnikov apontada. Já quanto ao véu, há muitas mulheres, por exemplo no Irão e na Arábia Saudita, que só o usam para não apanharem porrada da polícia de costumes.)

  24. viana,

    «sistematicamente tem sido observado que quando se tenta proibir parte duma identidade o que acontece é o cerrar fileiras, e o crescimento da identifcação comunal mesmo entre aqueles que já estavam em acelerado processo de assimiliação. Isso é patente em França e no Reino Unido»

    Em primeiro lugar, as abordagens face às «identidades»(*) imigrantes são bastante diferentes em França e no Reino Unido. Em França não se ensina religião na escola pública, e não se promoveram os dignitários religiosos a representantes das comunidades de imigrantes. No RU, faz-se exactamente o contrário, inclusivamente criando escolas para muçulmanos subsidiadas pelo Estado. O resultado está à vista: quando há sublevações sociais, no RU tomam um carácter de afrontamento inter-comunitário; em França, são explosões quase anarquistas contra o Estado.
    Em segundo lugar, a proibição do véu e outros símbolos religiosos nos serviços públicos franceses não levou a «sobressalto identitário» algum. Pelo contrário, o número de alunas a usar véu diminuiu drasticamente.

    «Alguém deixa de poder reflectir, se quiser, por usar um véu mesmo que não o queira?»

    Só posso remeter para a leitura dos relatórios Obin, Debré e Stasi. Onde havia véus, começavam a aparecer outros problemas: defesa do criacionismo, recusa de aprender biologia, recusa das raparigas de irem à ginástica, recusa de aprender sobre o «holocausto». Os factos mostram que atrás do véu vinham mil outros problemas…

    (*) O conceito de «identidade cultural» é já de si fascisante e opressivo. Porque: a) cria uma fronteira entre as pessoas; b) torna «autênticos» os mais tradicionalistas (logo, mais extremistas).

  25. EUROLIBERAL diz:

    “liberdade de se decadentar um pouco” ?

    Olhe que não. A maioria está farta da decadência soixante-huitarde. A hora é de “back to basics”. E sabe o custo económico da queda demografica brutal causada pela “decadência” ? É só o maior problema da Europa. Sem crescimento demográfico, o crescimento económico estagna e a segurança social torna-se insustentável. Só defende a decadência quem é irresponsável e anti-europeu.

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  27. Sérgio diz:

    Ao cuidado de «Euroliberal»,
    Ates de mais nada, não sou neocon. Nem sou neoliberal.Muito pelo contrário.
    Quanto ao teor do meu comentário, mantenho tudo o que disse. O Eurocentrismo de vagas associações bushistas da crendice na superioridade ocidental que me quis atribuir… olhe, devolvo-as ao remetente.
    Entendamo-nos: Não sou daqueles que concebem o Islão como ontologicamente bom ou mau. Pelo contrário, a minha perspectiva sobre essa religião até seria uma heresia em relação à islamofobia que por aí grassa. Convém, porém, esclarecer alguns pontos.
    As considerações que faz acerca da suposta decadência moral do Ocidente não me merece comentários de monta: estão ao nível das banalidades mais reaccionárias que por aí se espalham. Maus hábitos e costumes duvidosos não conhecem fronteiras culturalistas.
    Não precisa recordar-me a antiguidade de algumas civilizações do Oriente. Tenho-a bem presente. Não se percebe é em que sentido a antiguidade do património civilizacional legitima práticas que de religião só têm a utilização nominal e interesseira. Resumir o destino de países e de povos à perpetuação de elementos culturais e históricos truncados é pretender manter o mundo num imobilismo asfixiante e ignorar a força da razão e da mudança. Já agora, relevando o seu ponto de vista, a abolição da Inquisição em Portugal em 1820, não passaria de um crime contra uma instituição multissecular do âmago cultural cristão…
    Quanto à suposta vontade de as mulheres utilizarem certas idumentárias, admito perfeitamente que muitas o façam livremente. Mas o que tem a dizer àquelas que o usam por temor? As iranianas de que falou são um bom exemplo disso mesmo. Ou no Iraque pós-invasão, onde existe um retrocesso brutal dos direitos das mulheres. Francamente, como ignorar a diminuição cívica de mulheres (e não só) em certos contextos por pretexto religioso? O que tem a dizer às pessoas comprometidas com a mudança nos contextos muçulmanos, aos «Novos Pensadores do Islão» ou às organizações de Direitos Humanos constituídas por Muçulmanos? Porventura que as mulheres que se recusam a usar véu não passam de reles vadias e que merecem uma exemplar lapidação? Talvez que aqueles imãs transviados queiram ser os Voltaires dos muçulmanos e que merecem ser proscritos?
    Admito perfeitamente a diversidade cultural da experiência Humana. Não admito é que em nome de valores absolutizados e tornados imutáveis se perpetuem práticas que atentam contra direitos elementares e que aviltem a dignidade humana. E isto serve para o Islão, para as religiões Cristãs ou outras. Ou para regimes políticos (Não dizia o bom do Salazar que pretendia que os «Portugueses vivessem habitualmente»?).
    O Sr. afirmou que eu não era ninguém para me insurgir contra certas práticas. Sim, sou apenas uma pessoa. Sugiro-lhe, agora, o exercício contrário: interrogue-se sobre a autoridade de um homem, de um grupo impôr a outros uma certa visão que se traduz numa praxis censória e reprssiva que se escuda nas «convenientes tradições».
    Por fim, talvez não fosse pior usar um pouco mais de moderação nos comentários que se faz. É que Joana Amaral Dias e António Figueira lançaram aqui um bom debate que importa não estragar.
    Atenciosamente.

  28. euroliberal diz:

    Para o Sérgio: estou a favor de que certos excessos cessem em algumas sociedades muçulmanas e certamente que tal acontecerá num futuro não muito distante. Simplesmente não ignoro que quem lança tal debate num momento em que centenas de milhares de muçulmanos são assassinados (directa ou indirectamente) pelas diversas invasões cruzadas e sionistas, pretende deviar a atenção disso mesmo.

    Para as mulheres muçulmanas, os problemas que refere é hoje uma preocupação menor. Sobreviver aos massacres e escorraçar os invasores é a prioridade absoluta. Quando cidades inteiras são arrasadas e famílias dizimadas ao menor pretexto ou sem ele, há quem queira lançar um “véu” (a questão de-) para ocultar o principal. E nessa eu não caio. Acresce que, sem negar a gravidade dos casos pontuais de violação dos direitos humanos (não imputáveis às invasões cruzadas) que vêm a lume de vez em quando, cabe dizer que a sua dimensão têm sido manifestamente empolada.

    Basta referir que só em Espanha há todos os anos uma média de 60 mulheres assassinadas por “questões de honra” (vulgo: dor de corno) e muitos milhares que são espancadas com gravidade. Só em Espanha, que é um país civilizado, repito. Ora esses números são muito superiores aos de todo o Islão ! Está a ver a manipulação ? Estatísticamente não há comparação possível entre o respeito da mulher nos países islâmicos (as violações são raríssimas e punidas de forma draconiana, não há espancamentos, que seriam aliás vingados pela família de forma exemplar, não há assédio sexual, etc.) e no nosso mundo ocidental, dito civilizado. A islamofobia faz o resto… E nessa eu também não caio…

  29. Sérgio diz:

    Euroliberal,
    Compreendo parte dos seus argumentos. Pretender que as violações dos direitos das mulheres só ocorrem em contextos islâmicos é manifesta má-fé. A questão que se impõe diferenciar é que onde vigora a sharia ou outra lei de Deus essas atitudes têm cobertura legal. Cá, em Portugal, um assassinato de honra é assassinato. E isto é importante. Dito de outro modo, é vital que o Estado esteja organizado de forma a garantir aos seus cidadãos, (independentemente das mundividências das suas confissões, tradições familiares ou simplesmente humores) segurança, acesso à justiça e protecção dos seus direitos.
    Em conversas com amigos também lhes costumo recordar a péssima performance portuguesa em aspectos como a violência doméstica. Ora, é precisamente por acreditar que as supostas tradições sejma de que religião forem não poderem perpetuar o adágio que afirma que «entre marido e mulher não metas a colher» que escrevi aquele comentário. Como vê, Euroliberal, não sou um islamófobo de direita. E sim, acredito que muita da «machtpolitik» para o Médio Oriente é, desde os acordos de Sykes-Picot (pelo menos), um convite ao desastre e explicará a facilidade do regresso do integrismo. Importante é não ver no fundamentalismo a única alternativa para a condução política dos árabes. Existem energias renovadoras e progressistas que importa acarinhar e divulgar. O Islão não tem de ser o que os fanáticos dos dois lados dizem que é.
    Já agora (isto pode ser ridículo para muitos), porque não dar um entendimento actual a uma certa «protecção» (segundo os padrões da época) de Maomé às mulheres, de que a proibição do infanticídio feminino pode ser um bom exemplo? Para quem procura metáforas e mitos originais para legitimar interpretações que não as fideístas que conduzem aos castigos, também as pode encontar no Corão. É mais um problema de hermenêutica do que de maldade inerente. Nunca fui muito nisso dos essencialismos…
    Atenciosamente.

  30. Pingback: cinco dias » Um chá em Teerão

  31. Haddammann diz:

    Mas, caro amigo, é exatamente sobre as famílias que estão cerrando ferrões; para que o jovem não tenha escape algum; nem nas escolas, nem nas ruas; cismaram que vão nos marcar como cabras a qualquer custo.

    O texto a seguir é um caso sério, mas em certa altura pessoas quase mijam de rir. Talvez seja porque alguns de nós riem para suplantar um problema num difícil momento de sobrevivência.

    O Criacionismo na Fidelidade Rigorosa da Bíblia.

    O que é intrigante é a posição da Terra em relação ao céu. Parece que o Muito Grande e poderoso sentado no Trono, quando dá uma descarga vem tudo direto pra cabeça de suas igrejas. E quando isso chega, a Terra fica com cheiro não muito bom. Talvez isso explique porque nos sentimos mal quando seus escolhidos superiores passam um mau-hálito quando falam tanto e tão perto de nossos ouvidos.
    Parece que somos como que uma espécie de pano-de-chão lá de cima.
    Rigorosamente pela escrita nosso pai, na melhor das hipóteses, é um assassino; o outro rapaz era bom; o poderoso não achou bom revivê-lo, e deixou o assassino se dar bem com as cabras. Daí que, uns de nós cismam, com certa razão, que são ovelhas; e os homens já têm assim coceira de chifres desde novos. Nosso avô é um mentiroso; nossa avó andava dando idéia às escondidas pra uma cobra. Como ela já gostava de cobra mentiu também pra ver se conseguia segurar no cipó do nosso avô.
    É uma HESTÓRIA linda; e muito criativa; e explica pra nós direitinho nossa condição nesse reino. Pra azar de nosso avõ ele ainda teve também dois filhos, igualzinho ao poderoso Manda-Chuva. Nesse reino existe uma certa aversão por mulheres. E parece que pra piorar os dois playboys sem muito o que fazer em suas vidas eternas, vidraram o olho logo aqui pra esse planeta, com tantos por aí. Talvez seja porque é o único que fica embaixo deles; pois no Universo a idéia de em cima e embaixo é de mero contexto proximal e precisa, no mínimo, de referencial. Mas isso não é pra aqui. Isso é coisa de somenos. Como diria o do curso de mau-hálito.
    O problema é que esses dois príncipes encantados parece que são muito espertos, apesar de ter um pai preguiçoso, que depende da gente pra fazer tudo, e só vive sentado e dando descarga, e cisma que temos que ficar gritando e batendo palmas pra ele, pra disfarçar o barulho que faz debaixo do trono; assim ele fica bem na fita. Ele é muito capacitado, por isso manda a gente fazer assim. E nos dá velas e cruzes e uma cartilha grossa que devemos ler todo dia de trás pra frente e de frente pra trás, pra decorarmos a estória desse reino maravilhoso, forte, e conselheiro.
    Os príncipes encantados, por serem crias de uma obra perfeita, vivem brigando. Parece que um continua chegado nas cabritas daqui, e o outro se amarrou na idéia de ser suspendido no tronco.
    A coisa desandou quando o outro, de sacanagem, chegou pro Tremendo e disse que o principezinho andava se amarrando em preferir só os jumentos; e tava com a idéia fixa de mandar todo mundo se entregar e entrar na onda dele. O negócio ficou feio lá por cima; e o monte de trovão e raio veio bater tudo em cima de quem? Dos filhos das cabras.
    Aí é que fica o problema. Porque parece que nenhum dos dois gosta de estudar; mas o pai deles ao invés de resolver a picuinha deles (nessa eternidade), pra nossa sorte manda os dois virem cobrar de nós a leitura da malfadada cartilha.
    É uma sina nossa, um karma; que será eterno enquanto dure.

    Fim do final.

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