Comida estragada

Descobri no outro dia um blogue chamado Jantar das Quartas. O menu é farto e a cozinha tradicional: reaccionarismo, anti-semitismo e racismo q.b.; ainda assim, não deixa de ter o seu quê de surpreendente: então os jovens herdeiros do “Portugal multiracial e pluricontinental” e dos “25 milhões de portugueses” não apreciam o convívio dos imigrantes das ex-colónias? Lamentável incoerência histórica – porque provocando Mantorras, provam não estar à altura do Portugal de Eusébio…

O lado bom disto está em que, com um programa assim, a extrema-direita se condena sem remédio a desempenhar um papel irrelevante, pois, como escreveu Raymond Aron a propósito de Le Pen, a questão da imigração é e será sempre uma questão lateral, se comparada com as questões mais “transversais” da política; o lado mais triste está em que põe a nu o equívoco senão a mistificação em que consistia a ideologia luso-tropical do nosso colonialismo tardio: ingénuos que fossem, alguns bem-intencionados houve que acreditaram nela, e hoje dariam voltas na tumba se a soubessem reduzida à expressão do mais rasca dos preconceitos.
(Post publicado originariamente no “Caderno de Verão”, com adaptações)

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SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Comida estragada

  1. Mas, o anti-semitismo e’ tradicional em Portugal? O que quero perguntar e’ se a atitude dos tais comensais em relacao ao estado de Israel e esse sionismo tardio tera’ algum antecedente nacional.

    Quanto ao restante, tambem eu nao percebo muito bem a combinacao de ingredientes do coquetel de camarao.

  2. Ezequiel diz:

    Caro António,

    Algumas sondagens na França apontam para uma subida sem precedentes (20% ou + do voto) da FN de le pen na républica laica. Bélgica, Alemanha, GB (o BNP parece estar a ganhar folego nas zonas onde o desemprego é alto e os serviços sociais precários), Holanda… Europa de Leste…estamos a viver uma simbiose perversa e perigosa entre a problemática da “integração” e a revitalização dos nossos fundamentalismos. A situação é grave. Os governos de centro esquerda tem que adoptar programas austeros de reforma sistémica que causarão probs graves de legitimização. Mesmo com Ségolenes ltd, não vai ser fácil. Aproximamo-nos inexoravelmente de uma crise de legitimização à lá Habermas. Triste, muito triste.

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