Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (2.ª parte)

Eduardo Prado Coelho foi acusado de plágio. Situação escandalosa mas não inaudita em Portugal. Só que o inesperado acontece quando o suposto autor plagiado, João Ubaldo Ribeiro, nega veementemente a autoria do texto original. E o caso torna-se rocambolesco quando o próprio Eduardo Prado Coelho desconhece o texto de que deveria reclamar autoria.

O texto intitulava-se “Precisa-se de Matéria-Prima para Construir um País” e era um texto indignado sobre a corrupção do país, em que se acusa o povo, e não os políticos, desta. O texto, alegadamente publicado no Público, em Novembro de 2005, seria praticamente igual a um texto de João Ubaldo Ribeiro, publicado nos jornais brasileiros O Globo e Jornal do Meio Ambiente, variando apenas nas referências a políticos e eventos portugueses e brasileiros, respectivamente.

Um anónimo verificou as semelhanças, mais que muitas, e foi fazer a acusação, anónima, para a blogosfera. No entanto, o Público não tem qualquer registo de ter publicado o texto. Eduardo Prado Coelho afirma nunca o ter escrito. João Ubaldo Ribeiro também. Num e-mail para os amigos, o escritor brasileiro avisa: “Estou lhe mandando o texto abaixo porque está circulando na internet como meu e, antes que você tome um susto ao eventualmente recebê-lo, quero explicar que não tem nada de meu, eu nunca escreveria esse negócio nunca. Até o detalhe de molhar a mão do guarda é inverídico, porque não tenho carteira e não dirijo mais há uns trinta anos. Mas não posso fazer nada, só posso desmentir a quem me pergunte. E agora você, a quem lhe perguntarem. Abraços chateados de João Ubaldo”.

O aborrecimento de João Ubaldo Ribeiro é cada vez mais frequente entre escritores e cronistas brasileiros. A Millôr Fernandes é atribuído um texto intitulado “O direito ao palavrão”, que este nunca escreveu e cuja suposta autoria o deixa enraivecido. Arnaldo Jabor, furioso por lhe ser imputado um texto com o título de “Bunda Dura”, escreveu no Estado de São Paulo: “Fico louco, porque estou sendo elogiado justamente pelo que não fiz. Toda semana tento ser inteligente, escrevo sobre o Bush, a crise internacional, espremo meus pobres conhecimentos filosóficos ou sociológicos, capricho na língua, tudo para ser chamado de “profundo” e aí, “Bunda dura” vem e é meu Prêmio Jabuti, minha medalha”. A propósito ainda de outro texto, contou “Fiquei sabendo que tinha um texto com o meu nome circulando na internet. Critiquei publicamente o conteúdo dele e pouco depois descobri que o autor era um jornalista. O sujeito ficou uma fera…” E a partir disto tira a conclusão que os textos que circulam pela internet têm sucesso porque “as pessoas gostam de m…”.

Até o mais famoso cronista brasileiro da actualidade, Luis Fernando Verissimo, contou numa das suas crónicas que havia recebido grandes elogios por um texto chamado “Quase”, em que ele nunca pusera mão, e rematou dizendo que tinha sido incluído numa colectânea francesa dedicada a escritores brasileiros: “Eu estava entre Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros escolhidos, adivinha com que texto? Em francês ficou ‘Presque’”. Posteriormente, Verissimo descobriu que o texto fora escrito por uma estudante universitária de 22 anos, que o escrevera depois do falhanço de uma quase relação amorosa.

O fenómeno atingiu tal dimensão no Brasil que a jornalista Cora Rónai fez um livro e um blog, chamado Caiu na rede, sobre estes apócrifos da era digital, onde elencava dezenas destes textos, com indicação da verdadeira autoria, quando era possível descobri-la. Em vários artigos escritos a propósito da obra, discutiu-se a origem destes textos. Cora Rónai considera que “Há dois tipos de apócrifos: aqueles em que os nomes dos autores verdadeiros são substituídos por outros mais conhecidos, e outros escritos como se fossem de outros autores. No fundo, a maior parte é ou humor ou auto-ajuda, o que me leva a crer que a motivação é basicamente espalhar a piada ou o conselho. Ou, eventualmente, a revolta com aspectos do mundo contemporâneo.”

Martha Medeiros, uma colunista que, inversamente, tem vários textos seus a correr na net com a assinatura de outros escritores mais famosos (ver texto da semana anterior) acha que isso se explica por as pessoas sempre quererem partilhar aquilo que gostam de ler e a internet ter vindo facilitar de tal modo essa partilha que muitos, por preguiça, distracção ou maldade, acabam por deturpar a autoria ou o próprio texto. Mas já às pessoas que escrevem e assinam com outro nome, atribui medo de exposição e de assumirem os seus textos. Por sua vez, a psicóloga Carla Leitão atribui a deturpação da autoria ao desejo dos falsários de ver o seu texto difundido, dando-lhe a estampa de um autor credível.
Incidentalmente, em Portugal temos um pequeno exemplo visível da evolução de um apócrifo cibernético. Há um ano, João Caetano Dias, usando o Blogsearch do Google observava a evolução de um texto seu sobre o aeroporto da Ota. O texto, publicado no seu blog de então, Jaquinzinhos, comparava números entre os aeroportos de Málaga e da Portela para defender a dispensabilidade do novo Aeroporto da Ota. O texto foi citado por outros blogs e entrou no circuito secreto dos e-mails reenviados. Algumas semanas depois o texto citado já apresentava frases que não constavam do original, incluindo acusações a políticos conhecidos. E algum tempo depois, o texto continha a assinatura de Miguel Sousa Tavares. Ou seja, alguém achou que o texto era demasiado “importante” para ser assinado por um pouco conhecido João Caetano Dias e promoveu-o ao “estatuto” de Miguel Sousa Tavares.

Apesar das queixas, os apócrifos não são apanágio da era cibernética. Por exemplo, o poema “Instantes”, atribuído a Jorge Luís Borges, começou a sua carreira de apócrifo na era pré-internet, na revista Plural, então dirigida por Octávio Paz.
Falarei disso na próxima semana.

Fontes:
www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=218165&idselect=92&idCanal=92&p=200
http://livrocaiunarede.blogspot.com
www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/11/337912.shtml
www.condominiobrasil.net/archives/2006/03/caiu_na_rede.html
http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/2006-March/002456.html
http://ablasfemia.blogspot.com/2005/10/boatos-blogosfricos-chegou-hoje-por-e.html
http://ablasfemia.blogspot.com/2005/10/ainda-sobre-o-boato.html
http://assimobservo.blogspot.com/2005/07/do-jaquinzinhos-andar-nas-nuvens-via.html
http://lookatthebrightsideoflife.blogspot.com/2006/05/umahistria-de-2-aeroportos.html

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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3 respostas a Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (2.ª parte)

  1. ivan diz:

    Tenho gostado bastante desta série de textos. O que me custa a entender são as referências bibliográficas no final. Por que é que não aparecem como links ao longo do texto? Seriam mais fáceis de consultar.

  2. Jorge diz:

    Obrigado pelo comentário.
    Os textos são escritos emWord e enviados para o Rui para publicação. Como tenho um certo receio de haver problemas na passagem de PC para Mac e de Word para WordPress, normalmente coloco os links no final.
    No próximo vou experimentar colocar os links no meio do texto para ver se resulta.

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