Velado

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                                         PROÍBA-SE!

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O debate em torno do véu islâmico regressou. Primeiro, foram as declarações de Jack Straw e de Blair. Este último considerou o véu uma “marca de separação”, defendendo a decisão de suspender uma professora, que se recusou a tirar o niqab na sala de aula. Romano Prodi, instado a comentar as afirmações de Straw, afiançou que “Não estamos a falar do que as pessoas vestem, mas se estão ou não a esconder-se”. O seu vice- primeiro ministro admitiu, então, legislar sobre essa matéria. Há uma semana, o Vaticano afirmou que os imigrantes devem “respeitar as tradições, os símbolos, a cultura e a religião dos países para onde se mudam” (!) Na passada sexta-feira, na Holanda, a ministra para a imigração Rita Verdonk, anunciou intenção de interditar o uso do véu em público.

Como muitos saberão, a controvérsia sobre o véu começou em 2003, quando a França proibiu o hijab nas escolas públicas. Seguiu-se a inibição em alguns estados da Alemanha e na Bélgica. Em Maaseik, designadamente, o uso da burqa em público é punido com uma multa de 125 euros.

Não obstante o facto do véu ter significados muito diferentes, há quem o considere “um símbolo de estagnação nos sistemas políticos árabes”, como afirmou Elham Manea ao jornal Público de Domingo. Um atentado contra o secularismo. Neste prisma, o uso do véu é encarado como uma diferenciação inaceitável, relacionada com o fundamentalismo islâmico e com a humilhação da mulher. Os que sustentam esta opinião, dizem que são a favor do laicismo e argumentam que a proibição do véu faz parte do caminho para o secularismo. Do outro lado, posição com a qual- apesar de tudo – me identifico mais, há quem considere o uso do véu um direito na medida em que é um sinal distintivo das confissões. Argumenta-se que a proibição do véu apenas faz com que a sociedade perca “em direito de escolha”.

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Uma das razões pelas quais tendo para esta última posição é porque, de facto, a proibição do véu tem por fundamento a islamofobia e não a verdadeira promoção da laicidade na escola pública ou dos direitos das mulheres. Não me revendo no relativismo cultural, noto que em França, berço desta senda, continuam a persistir lacunas graves no acesso à cidadania para os imigrantes e seus descendentes, tanto quanto na promoção do cosmopolitismo. Pierre Tévanian, autor de Le Voile Médiatique, aqui citado, considera que a polémica sobre o uso do véu revela “um racismo pós-colonial arreigado que cruza todas as formações políticas e sociais, mesmo as mais progressivas”. Asma Barlas, autora de Believing Women in Islam, afirma que: “quanto aos não muçulmanos obcecados com o véu, há mais medo da diferença do que uma preocupação com a integração (…) [os debates sobre o véu] parecem ser representações culturais do Ocidente para si próprio”.

E estou mais próxima desta opinião também porque observo os resultados, concluindo que, realmente, com a proibição do véu aumentou a guetização das escolas, algumas mulheres muçulmanas ficaram ainda mais isoladas, com menos oportunidades na sua emancipação, consolidou-se a visão do véu enquanto símbolo identitário. Com a polémica instalada no Reino Unido, por exemplo, oito dias depois das declarações de Straw – como relatava o Público (19/11) – a BBC falou com os donos do Centro Hijab. Esta loja, um grande espaço comercial dedicado à venda de véus, tinha registado um importante aumento das vendas.

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O artigo da jornalista e investigadora francesa Naima Bouteljda, publicado no The Guardian de ontem, é imprescindível. Na Holanda, a proibição do véu afectaria apenas 100 mulheres. Em Itália o véu é utilizado por 50 mulheres. Nas escolas públicas francesas, dos 10 milhões de alunos, apenas 1000 usavam o dito lenço. Depois das declarações de Sarkozy, o grande responsável pela proibição em França, a bolha rebentou na comunicação social. Em 2003, e em três jornais – Le Monde, Libération e Le Fígaro- foram publicados 1284 artigos sobre este tema. Naima Bouteljda relembra que sobre a reforma da segurança social, que trouxe milhares de pessoas às ruas, apenas 478 artigos foram publicados.

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Como diz a autora: “em cada país europeu, a véu-mania parece seguir um padrão semelhante: uma declaração pública de um político proeminente resulta numa resposta política e mediática frenética, desviando convenientemente a atenção de medidas governamentais impopulares ou de crises políticas”.

O debate iniciado em França surgiu desse modo. Nem em França nem nos restantes países europeus existe ou existia, propriamente, um movimento cívico ou uma vox pop acerca desta questão. Nem exigências da parte de professores ou outros agentes educativos. Antes da comissão Stasi, a opinião pública estava dividida. Depois de todo o tal frenetismo, 76% defendiam a proibição. 

O resultado destas medidas, que são mais sobre a sujeição aos costumes da maioria do que à lei nacional, agora em escalada – já que a promessa holandesa é banir a niqab e a burka em todos os espaços públicos e não apenas nas instituições públicas – tem sido desastrosos, como já mencionei. Além disso, se a comissão Stasi incluía outras recomendações para a promoção do secularismo – como a inclusão nos currículos escolares da escravatura e da colonização – praticamente só a proibição do uso do véu foi levada em linha de conta.  A jornalista conclui que quanto mais se alimentar esta histeria, “mais parece que um consenso islamofóbico pan-europeu está a ser construído, enquanto os políticos procuram bodes-expiatórios para os problemas sociais e pretextos para legislar no âmbito a guerra contra o terror”. Nem mais. 

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  Quero continuar a ter o direito a andar na rua de capuz e de óculos escuros, simultaneamente e sempre que me apetecer. Obrigadobebe-oculos.jpg

  

   

 

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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40 respostas a Velado

  1. Nuno diz:

    A misturar alhos com bugalhos, como é hábito! De certo reconhecerá que de direito de escolha estas mulheres terão muito pouco, ou acha que o islão trata bem as mulheres? Nunca deve ter sido confrontada com uma situação de lhe quererem obrigar a tapar a cabeça num país islâmico pois não? Conheço mulheres a quem isso aconteceu, aonde está a tolerância??

  2. Pedro diz:

    Excelente. Concordo plenamente. O desmontar do argumento “securitário” ou “social” de que as pessoas devem ser sempre identificáveis é precioso: será que vão então proibir também os óculos escuros e os capuzes?…

  3. Ide ao site da Presidência da República e vide um interessante véu (foto 6 da Biografia). É um véu, é religioso, mas neste caso deve haver um qualquer mas escondido.

  4. Ezequiel diz:

    Como liberal, oponho-me a qq proibição do, ou punição pelo, uso do veú, apesar de reconhecer que a interpretação deste fenomeno pode, e deve, oscilar entre interpretações diversas que reflectem uma realidade complexa. (Marca de separação? De uma contra-afirmação, que celebra a desejada preeminencia da religiosidade na vida cultural? Como expressão de um exercicio de um direito de escolha individual? (mesmo que este vocabulário liberal não faça parte da tradição islâmica)

    A critica de Straw, de q o veú contribui para a separação é ridicula. Pior, muito pior, é a separação que resulta da punição ou proibição do veú. É pior porque culmina com a afirmação de uma incompatibilidade entre uma percepção e um conjunto de valores liberais democratas. As verdadeiras incompatibilidades resultam de praticas anti-liberais e anti-democratas (como a sujeição da mulher, escolas que fomentam o fundamentalismo e incitam a violencia política, por exemplo)

    Nesta problemática é possivel discernir claramente uma tensão falsa (que ocorre em outros dominios mas não neste) entre a pertença cultural do INDIVIDUO (o célebre multiculturalismo) e os direitos universais liberais. Ocorre, por exemplo, quando a autencidade da pertença cultural-religiosa é invocada para justificar práticas de violação dos direitos individuais (das mulheres, por exemplo). É aqui que se sente a tensão. A questão do veú só se transforma num problema através de elaboradas implicações e conexões. É ridicula e escusada. (nos EUA não há qq proibição) Não é, per si, problemática para o liberalismo pq pode ser perfeitamente integrada na lógica da liberdade individual, do “expressivismo” liberal, mesmo que muitos dos individuos que desfrutam destas liberdades não acreditem nos direitos liberais. Straw foi um perfeito imbecil. Os Franceçes também. A Europa continua refém de um concepção essencialista da (s) sua (s) identidade(s). Exacerbaram sentimentos de pertença exclusiva, de ambos os lados. Deram um conteúdo cultural particularista a valores que se afirmam pelo seu universalismo. Assim não se promove a democratização e liberalização de uma cultura política com aspectos mt problemáticos. Enfim, uma estupidez sem nome. Imbecilidade pura.

  5. luispedro diz:

    “Uma das razões pelas quais tendo para esta última posição é porque, de facto, a proibição do véu tem por fundamento a islamofobia e não a verdadeira promoção da laicidade na escola pública ou dos direitos das mulheres.”

    Há quem o fundamente de ambas as maneiras.

    O que é engraçado nesta discussão é que quebra as esquerdas e as direitas ao meio.

  6. Parece-me bastante despropositada a comparacao: o criterio com que se usa um capuz ou oculos escuros e’ estetico ou meteoreologico. Outro motivo seria tolice.
    Ja’ o hijab foi desenhado para ser uma barreira ‘a integracao da mulher, nao uma ajuda; quem o veste (ou e’ obrigada a vestir) fa’-lo para se segregar do resto da sociedade, nao para se lhe juntar.

  7. Ezequiel diz:

    HAPPY THANKSGIVING BOYS !

    ps: (oops,…& girls)

  8. Sou pela liberdade, sempre.
    A liberdade de escolha.
    Onde existirá maior liberdade de escolha, onde derão mais respeitados os direitos da mulher?
    Porque a questão é esta a mulher usa livremente o véu ou é-lhe imposto o seu uso?
    «Quero continuar a ter o direito a andar na rua de capuz e de óculos escuros, simultaneamente e sempre que me apetecer»
    Sem dúvida, mas, não quer perder o direito de não andar de capaz e óculos escuros, pois não? … é disso que falamos (era disso que devíamos falar)

  9. João Miguel Almeida diz:

    Criticar o véu islâmico como «sinal de separação» é simplesmente ridículo, dado que as freiras católicas o usam como sinal de pertença de uma Ordem religiosa, Ordens que foram históricamente criadas para permitir uma vida «separada do mundo». Se a questão se coloca em relação às muçulmanas e não em relação às freiras estamos perante um caso de discriminação religiosa.
    O mais engraçado é que conheci uma muçulmana de vinte anos que não usava véu porque «ainda não se considerava digna» de usá-lo. E criticava mesmo as muçulmanas que, usando véu, levavam uma vida muito promíscua. Deve-se esclarecer que esta muçulmana, de origem marroquina, vivia em França desde os quatro anos, com a família, e não tinha quaisquer direitos como francesa. O mesmo se aplicava aos pais que não podiam sequer votar nas eleições municipais. Em França toda a gente a tratava como marroquina e em Marrocos como francesa. As tais «muçulmanas promíscuas» eram marroquinas, como é óbvio. O fundamentalismo islâmico não se pode compreender sem ter em conta os problemas de integração e de discriminação dos muçulmanos nas sociedades ocidentais.

  10. A João Miguel Almeida

    As freiras usam o hábito simultaneamente como de sinal de separação da sociedade sim, para além do de pertença à ordem religiosa. E muitas há que também optam por não usar qualquer distintivo dessa pertença, nomeadamente aquelas cuja actividade as coloca mais em contacto com a nossa sociedade.
    As mulheres muçulmanas de que se fala não pertencem a ordem religiosa alguma: o véu é-lhes imposto pelos homens muçulmanos tão somente por serem mulheres. Não há “pertença” alguma aqui a justificar a não ser a posse pelo marido, irmão ou pai.

  11. Em Dezembro vou passar uma semana na República Islâmica do Irão e ver de perto se a islamofobia promovida pelo sistema têm a mínima razão de ser – estou em crer que não.

  12. "O OUTRO" diz:

    No multiculturalismo em voga (e na moda) o que se pretende, na prática, é a absorção da minoria pela maioria (ou na maio
    ria);o que segnifica efectivamente um “canibalismo” cultural, cheio de boas intenções. Mas, como sabemos, “o inferno” está cheio de boas intenções.
    Há que (se) respeitar para ser respeitado; não há que ter me
    do de certos valores, principalmente quando se trata de valo
    res do “outro”…os valores caducos cairão por si mesmos…não há necessidade de criarmos problemas desnecessários.
    Uma civilização consciente de si mesma é uma civilização do respeito pela difença; respeito por si mesmo e respeito pelo
    “outro”.
    Em suma, estou plenamente de acordo com a análise do problema, o seu enquadramento e a posição ponderada e de bom senso.

  13. Ezequiel diz:

    (Se me permitem)

    Dorean,

    Há muçulmanas que usam o veú por imposição, sem dúvida. Há muçulmanas que o usam por iniciativa propria. Na minha opinião é simplesmente ridiculo combater a imposição com uma punição. Não faz qq sentido. Se perguntarmos a uma muçulmana que usa o veú por imposição ela provavelmente nunca dirá (a alguém que não pertence à sua cultura) que o usa por imposição. Mesmo que existisse alguma punição para aqueles que impoem o uso do veú, seria mt dificil, ou mesmo impossivel, aplicar a lei de forma justa e rigorosa. Temos que nos preocupar com questões substantivas (madrasas que ensinam e promovem o fundamentalismo e incitam a violencia política, etc)

  14. Ezequiel diz:

    Flávio,

    Antes de partir, contacta a human rights watch e outras organizações não governamentais que já noticiaram a repressão política brutal do regime iraniano. Duvido que, na rua, consigas ver o que realmente se passa. Não sejas naive. Mas, se procurares (e correres riscos) vais encontrar. Pede a alguém para visitar as prisões políticas!

  15. Pingback: O Insurgente » Blog Archive » Joana Amaral Dias: a extrema-esquerda caviar e o desprezo pelo sofrimento das vítimas do extremismo islâmico

  16. xatoo diz:

    a questão do veu é muito simples de entender:
    no antigo regime do Irão, o Xá da Pérsia, Reza Pahlevi proibiu o seu uso.
    No Irão da Revolução os ayatolas tornaram o uso obrigatório!
    portanto,
    escolham qual é o regime que querem apoiar, partindo do principio que essa coisa das meias tintas (Blair era a 3ª via, lembram-se?), desde a filosofia do “quem não é por nós é contra nós” não está a ajudar a compreender a questão.
    O véu usa-se por sensibilidade religiosa (a mulher muçulmana entende que se deve preservar dos olhares de estranhos), logo, quer-me parecer que o verdadeiro problema é o da imigração (pelos condicionamentos a que sujeita quem vai para terra alheia – ou seja, o imigrante deixa de ter liberdade para usar aquilo que quer, e tem de obedecer aos decretos dos paises de acolhimento)

  17. Pedro diz:

    O Dorean Paxorales revela uma ignorância e preconceito atroz. Qual é a sua fonte de informação para dizer que as mulheres muçulmanas que usam véu fazem-no obrigadas?

    Posso lhe indicar algumas coisas para ler. Por exemplo:

    “Earlier this year, Kelly co-hosted a summit with Muslim women alongside Tony Blair. The veil was not raised as an issue, but the hijab – the more common traditional headscarf – was: she said the conversation had ‘challenged her assumptions’ about covering up.

    ‘I, along with many people, probably thought that some people wear the hijab not through choice but because they were expected to, and I found exactly the opposite,’ she said. ‘There was an overwhelming view that the people who were wearing the hijab wanted to and, among those who were not, some of them would have liked to.'”

    (em http://observer.guardian.co.uk/politics/story/0,,1890492,00.html)

    “As long as there are public figures who feel they have a right to speak for women who wear the hijab but don’t indeed experience it themselves, this undermines the right of Muslim women who wear the veil to speak up and represent their own voices.”

    (http://www.onlineopinion.com.au/view.asp?article=5079)

  18. Ezequiel diz:

    “não existe substrato ideológico que suporte tal decisão…”

    Já sabem, sem substrato não há intenção, reflexão, conversa, uns copitos, uns tutti fruite (com kiwi) …

    é preciso um substrato para tudo, sobretudo as decisões…

    “As vestes medievais…” Temos um homem da haut culture in the house. Magnificent! As nossas sociedades liberais democratas também produzem estas almas iluminadas que metem o medieval sobre as vestes. O Kimono, por exemplo, tem mais de mil anos, e não é nada feiote. É uma pena que as vestes, muitas das quais são simplesmente sublimes, sejam o objecto de tanto drama infantil. Que usem o que lhes apetecer. São livres! Somos ou não somos coerentes?

  19. Se eu for a um país muçulmano não levo álcool, e terei o cuidado de me informar sobre quaisquer outros comportamentos considerados ofensivos pelos nativos. É uma questão de respeito.

    Se algum dia pensei emigrar esses países não fizeram parte da minha lista, porque me sentiria culturalmente desajustado.
    Da mesma forma, nunca me passaria pela cabeça ir trabalhar para uma daquelas cidades norte-americanas em que a religião é uma componente nada desprezável da convivência entre as pessoas. Não vou, fiquem lá com a proibição do álcool e de se fumar no meio do parque.

    Como não acredito em imperialismos não estou, também, disposto a ir a paragens alheias “mostrar-lhes como deve ser”. Cada povo deve libertar-se da sua canga. Mas acolherei de bom gosto aqueles refugiados que não se sentem bem nas suas origens e que querem usufruir dos direitos democráticos que aqui no Ocidente foram impostos, entre outros à religião.

    Não suporto a ideia de ser obrigado a ser confrontado outra vez com tudo o que lutei contra, e desta vez embrulhado no “direito à diferença”. Já pensaram por exemplo que a mutilação de mulheres perpetrada em alguns países também é um pormenor “cultural”? Por onde andam as feministas que queimaram os sutiãs? – digo isto sem ironia, porque percebi que o que elas queriam transmitir tinha pouco a ver com mamas.

    Se se pretende fazer algo pelas mulheres muçulmanas, apoie-se as associações que lutam contra o ferro em brasa têxtil.

    Em matéria de capuzes o que devia preocupar é a quantidade cada vez maior daquelas que vão tapando a cara no Egipto, em paralelo com ataques cada vez maiores a tudo o que tem a ver com a afirmação das mulheres.

    Por isso, aquando da crise dos véus e dos símbolos religiosos nas escolas francesas, apenas observei a possibilidade da lei permitir que os “pinguins” passassem. Não permitia? Qual é o problema? A Escola da República deve ser laica.

    Lembro as críticas por causa dos crucifixos nas escolas portuguesas, uma crítica justa. Defenderam-se os outros com as “raízes culturais da maioria da população”. Tinham razão numa coisa: são a maioria.
    Mas não têm o direito, certo?

    Então porque carga d’água vou permitir que algumas mulheres muçulmanas exibam a sua cruz? Para pagar pelos meus antepassados que foram à terra deles impor a sua cruz, a mesma cruz de que há séculos eu e mais uns tantos se querem libertar?

    A ideia de comparar os capuzes com os óculos escuros tem piada. Cada uma com o seu deus… só que o segundo só obriga a fazer figuras tristes.
    Já quando era obrigado a ser católico me metiam confusão os buraquinhos do confessionário e a sombra que se movia no seu interior. Pela parte que me toca, recusar-me-ia a ser assistido num serviço público por uma pessoas de capuz ou de óculos-de-capacete-integral-sem protecção-de-cabeça…
    Aos outros espero que tenham dinheiro para pagar ao psiquiatra para fazer desaparecer o trauma do vosso rebento após a professora dirigir-se-lhe vestida de “bau-bau” ou abelha assassina…

    Há alternativas e países onde os passeios de capuz na rua são recomendáveis. O Irão e o Afeganistão são sítios óptimos para se praticar o desporto, mas lá “não dá pica” nem se é diferente, né?
    Preocupemo-nos é com aquelas que estão fartas do farrapo, aqui e lá pelas terras do “capuztão”! Umas e outras estão mal.

    “É uma questão de orgulho”…
    Sem dúvida, e é “o orgulho de ser escravo que provoca o medo de ser livre”.
    Sejam escravas em casa, na rua são obrigadas a ser “livres”.

  20. João Miguel Almeida diz:

    Ao Dorean Paxorales,

    Se ler o meu comentário com atenção, eu falo do véu das freiras e de uma muçulmana francesa que conheci e para quem o uso de véu era uma opção, não uma imposição familiar.
    Mas se quisermos levar mais longe a comparação entre o uso de véu pelas freiras e a questão do véu islâmico, podemos estabelecer curiosos paralelismos entre a actual islamofobia e o anti-clericalismo republicano de finais do século XIX, inícios do século XX. Os anti-clericais também não admitiam que uma mulher pudesse entrar, por opção, para uma Ordem religiosa. Quando o faziam éxplicavam a história por sinistras manipulações de jesuítas. Veja-se o caso Calmon e Sara Matos.
    Mais importante do que estas ridículas historietas acerca do véu, é garantir que as mulheres muçulmanas a viver na Europa gozam dos mesmos direitos das outras europeias. Nomeadamente que não são sujeitas à excisão feminina, que têm acesso à educação e ao mercado de trabalho e exercem direitos cívicos simples como o direito de voto. Com que autoridade é que se critica o carácter anti-democrático do islamismo se há muçulmanos a viver há quarenta anos na Europa que não têm o direito de voto?

  21. Não sei se o nosso venerando cardeal está a par de que o preceito do véu vem de S. Paulo de Tarso, nas epístolas do Novo Canhenho, Coríntios I, 11, 4-10.
    Antecede em muito os preceitos da Sunna, e já tinha raízes na cultura grega contemporânea de S. Paulo.
    Não reproduzo aqui porque só disponho da versão inglesa, e seria blasfémia que um ateu a traduzisse. Receio ser fulminado com a prontidão de um blitz sobre Bagdad.

    Abraço

  22. Luís Lavoura diz:

    Só na última frase deste longo texto é que a Joana bateu no ponto. O qual é: que direito é que o Estado tem de nos dar ordens sobre a forma como nos vestimos? Umas escolhem andar com calças justas, outras de véu. Cada uma veste-se como entende e por motivos que só ela sabe. Não podemos afirmar que uma mulher de véu é uma muçulmana radical, tal como não podemos afirmar que uma mulher de calças justas é uma prostituta.

    Se o Estado tem legitimidade para proiir o véu, também terá legitimidade para proibir as calças justas ou qualquer outra forma de vestir, por quaisquer motivos. E isso seria uma via muito perigosa.

    Isto nada tem a ver com islamismo. Tem a ver com a liberdade de cada uma se vestir como bem entende.

  23. Ondina diz:

    …no país onde se pode usar diariamente o dito véu …onde as pessoas se mascaram….onde o cinismo faz parte do dia… há tantos outros assuntos que dizem respeito ao bom cidadão (Ã)…porque não nos dizer algo de novo!!!!!

  24. A Ezequiel e João Miguel Almeida,

    Ambos trazem o argumento da opção, por isso, deixem-me responder em conjunto.
    Lamento, mas o exemplo da freira novecentista continua sem colher, sem me socorrer de nenhum anti-clericarismo: conheci pessoalmente mulheres maiores de idade que na segunda metade do século XX entraram em congregações religiosas pelo seu pé e mesmo contra a vontade familiar. Da mesma forma, obviamente que existirão mulheres que escolhem usar o hijab (o niqab, é outra história) em países ocidentais sem que, aparentemente, lho seja imposto por alguém; não deixa de ser curioso, porém, que tal só tenha começado a acontecer em idade universitária e quando provindas de famílias sem essa tradição. Pode ser que nalguns casos se deva a uma tentativa de identificação com a cultura original, mas quando eu falei com algumas destas mulheres no Reino Unido (*) disseram-me que o fizeram porque assim se sentem protegidas de comentários (impróprios) masculinos e, por isso, mais respeitadas. A interpretação imediata é que procuram a invisibilidade que o véu transmite, uma barreira de género que sem o mesmo, imaginam, não existe.

    Ezequiel afirma que a proibição é ridícula ou impraticável. Proibir a discriminação das mulheres no emprego, na política, na saúde, como previsto pela Constituição, também parece às vezes impraticável. Mas embora até seja admissível que algumas mulheres não sintam qualquer desconforto com a sua menorização, isso não significa que a punição destas situações seja rídicula.

    Quanto ao último parágrafo de J.M. Almeida, o que diz é indiscutível: há tradições com consequências bastante mais graves que as trazidas pelo tapar de cabeça ou da cara. Mas se os putativos patriarcas dessas comunidades lograrem algo tão simples de evitar como a invisibilidade social dessas mulheres, como se poderá chegar até elas para combater, por exemplo, práticas horrendas como a que fala?

    (*) Num total de 800 000 de muçulmanos, apenas 10 000 mulheres usam o niqab.

  25. Ezequiel diz:

    Eu não disse que a punição da discriminação é ridicula PORQUE é impraticável. Disse que é ridicula, intrinsecamente, e que, além disso, é dificilmente praticável. Um belo dia a senhora x usa o veú pq um olhar do marido lhe indica que talvez fosse apreciado. Num outro dia simplesmente apetece-lhe usar o veú, por iniciativa propria. Que fazer? Punimos num dia e celebramos a diferença no outro. Assim, as questões multiplicam-se. Mais uma vez, estabelece uma relação inquestionável entre o o uso do veú, a separação da comunidade e discriminação da mulher. Sim, o que acontece parece ser um enraizamento na cultura original mais intenso quando esta cultura está situada num contexto genuinamente plural, como é o caso da GB.

    O exemplo da discriminação que invoca, o da discr no trabalho, é um caso bastante mais simples e não é, por isso, relevante ao presente contexto.

  26. O problema aqui são também os deslizes semânticos:
    Prodi afirma que o problema é a pessoa “esconder-se.” Ok, vamos imaginar que se aceita o argumento. Qual é o limite semântico, a totalidade da extensão do conceito “esconder”? Nem vamos já discutir a legitimidade do Estado em legislar sobre a liberdade de uma pessoa esconder-se ou não. Vamos só ver a extensão do conceito. Não será muito difícil começar a entender uma série de coisas como um acto de ocultamento: usar um pseudónimo, escrever um determinado tipo de textos, comportar-se de determinada maneira… e já agora, com um pouco de poesia clerical (e laica) à mistura, o conceito torna-se tão vasto tão vasto tão vasto, que em algum ponto, nem em casa uma pessoa poderá estar sossegada, sem que lhe digam que com isso se “esconde” do mundo.
    Agora vamos recuar um passo… O que raios tem o Sr Prodi a ver com a minha liberdade de esconder ou destapar seja o que for? Se ele amanhã considerar que todas as pessoas que não aceitam, pelo menos exteriormente, vestir-se de acordo com um preceito idiota qualquer que, por uma fímbria de acaso, esses senhores que se vestem com sumptuosos pijamas e alguns quilates de fancaria sacra, para indicar aos outros que são mediadores da verdade una e primeva – de um tal modo que se acham isentos do escrutínio racional -, não aprovem… estão a “esconder-se” da verdadeira fé, tal como uma mulher de véu se “esconde” da “sociedade” (palavras elásticas e outros universais dão sempre um jeitaço), estarei eu vinculado a aceitar a sua opinião, “tão concreta e definida” (logo, tão arbitrária e tão discutível) como outra coisa qualquer?

    Abraço

  27. Só mais uma coisa, para aqueles que dentre o rebanho cristão se sintam tentados a fustigar os “inimigos da nossa fé” (como reza um manual de história do tempo do velho botas), contemplemos o provincianismo em nossa casa, antes de fustigar o alheio:

    CORÍNTIOS 1, cap. XI, ver. 3-10

    3 Mas há um assunto que quero que saibam: é que Cristo tem autoridade sobre todos os homens. O marido tem autoridade sobre a mulher. Deus tem autoridade sobre Cristo.

    4 É por isso que se um homem cobre a cabeça, quando está a orar ou a pregar, desonra Cristo.

    5 E uma mulher que, em público, ora ou fala em nome de Deus com a cabeça descoberta desconsidera o seu marido, porque é como se tivesse a cabeça rapada.

    6 E se ela recusar cobrir-se, então que rape o cabelo. Mas se é uma vergonha uma mulher ter a cabeça rapada, então que a cubra.

    7 Mas um homem não deverá ter nada na cabeça enquanto está a cultuar. O homem, feito à imagem de Deus, reflecte a sua honra, e a mulher é o reflexo da honra do homem.

    8 Com efeito, o primeiro homem não foi tirado da mulher, mas a primeira mulher foi tirada do homem.

    9 E Adão, o primeiro homem, não foi feito para benefício de Eva; mas Eva sim foi feita para Adão.

    10 Assim uma mulher deveria usar a cabeça coberta como sinal de que reconhece a autoridade do marido, um facto que todos os anjos constatam.

    A esses gostaria eu de deixar um pensamento do dia:

    “Tens de SER a mudança que queres ver no mundo.” – Gandhi

    Abraço

  28. Ezequiel diz:

    Os deslizes semânticos, pois!! Caro Vitor, tanto quanto sei, hoje em dia estes principios cristãos são pouco mais do que isto: principios. A separação entre o poder temporal e o poder “divino” já aconteceu há muito entre nós, desde o “dá a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Nós já não somos Cristãos da mesma forma que os Muçulmanos são Muçulmanos.

  29. Meu caro Ezequiel. A separação entre igreja e estado pertence tanto ao domínio dos princípios quanto o texto que eu citei. Isso não impede a Igreja de tentar “dar a volta” ao pormenor da laicidade do Estado, tentando influenciar as decisões políticas na medida do possível. A mim interessam-me muito mais as questões de facto e as potenciais consequências que tenham para mim e para aqueles como eu, do que os princípios.
    Mas por outro lado, se os princípios que advogamos são assim tão despiciendos, e se é possível remetê-los para o museu com uma atitude indulgente, simplesmente chamando-lhes “princípios,” não vejo porque só podemos reconhecer essa desculpa para nós mesmos, sendo muito exigentes (textualmente) em relação aos outros. Quem conhece o estilo anti-científico e anti-histórico com que os espíritos clericais gostam de ler tudo o que os cerca sabe bem do que falo.

    … E quem disse que aquilo que os cristãos consideram como sendo de César e como sendo de Deus, são efectivamente pertença dos mesmos? Mas ainda mais grave. Ao invocar esse mote, está a retirar um texto da Bíblia que é anterior ao texto paulino que eu citei. Em que ficamos? Quem decide o que é “mero princípio” daquilo que é para ser lido materialmente? O sentido de oportunidade, a conveniência política?

    Cumprimentos

  30. De resto, se os princípios são princípios, servem para alguma coisa. E que eu saiba, a grande bandeira da Igreja contra aquilo a que eles chamam o “relativismo” contemporâneo reside precisamente no facto de a religião, segundo eles, poder oferecer às pessoas “princípios” que são imunes à relatividade dos tempos.

    O seu comentário recorda-me o de um padre franciscano, de resto excelente professor e conversador, que conheci há vários anos: ao pedir-lhe para comentar a passagem Números XXXIII, 50-56, começa-me a desvalorizar o peso do Velho Testamento (o que ele se danava com este “velho” que eu substituía ao “antigo”) para a boa nova cristã. Mas o problema subsiste: em que ficamos? Qual é o critério objectivo que nos permite distinguir o que é para ser materialmente lido daquilo que é para ser indulgentemente lido como pertencente a um dado ambiente social e histórico? Se tudo for relativo ao contexto histórico, segundo a conveniência, o que separa então o dogma teológico do tal relativista que não se cansa de fustigar?

    Outra coisa: os sacerdotes sabem bem que nem tudo aquilo a que chamam “relativismo” tem algo que seja a ver com relativismo. Mas a demagogia é comum a todo o discurso político, ainda que de natureza eclesiástica.

  31. Desculpem, é só mesmo mais isto:

    A separação entre o Estado e a Igreja NAO se deu “desde” essa passagem do Evangelho que citou. Pois muitos séculos se passaram DESDE o concílio de Niceia, ou seja, desde a unificação do credo cristão católico, nos quais pautou a absoluta e nunca reprimida ingerência da Igreja na política, só interrompida no decurso da modernidade, quando a separação entre ambos se tornou necessária politicamente. A laicidade do Estado não decorreu de um mantra cristão, mas das lutas republicanas da modernidade.

    A Cidade de Deus de Santo Agostinho, o grande obreiro dessa unificação ideológica não foi escrito com outro propósito senão o de mostrar ao poder imperial duas coisas:

    a) a expansão do cristianismo não perverte a expansão do império.
    b) pelo contrário, a expansão do império depende da expansão de uma ideologia suficientemente coesa, como a religião cristã.

    Neste sentido, podemos dizer (sem ironia) que foi o primeiro grande teórico da globalização. Mas o importante a reter é que desde as fundações do catolicismo que o discurso religioso É um discurso político. Tal como desde a modernidade, não há seita política que não procure a legitimidade na ciência (a sociologia marxista, p ex) também não havia antigamente nenhuma visão abrangente da sociedade que não procurasse a legitimidade teológica.

    Obrigado pela tolerância,

  32. Ezequiel diz:

    Caro Vitor,

    Infelizmente não posso contribuir para este debate interessante porque os meus conhecimentos teológicos são algo limitados. Todavia, o que eu disse, e reafirmo é que nos nossos sistemas políticos a prática e principio vigente é a da deliberação democrática. A verdade é constituida pela via da deliberação reflectiva num contexto de pluralismo radical ( multiplas concepções de verdade, de valor etc).

    Infelizmente, no mundo muçulmano, apesar das nuances entre culturas políticas, o Islão permanece, nuns casos explicitamente e em outros implicitamente, uma referencia elementar. Isto acontece por variadissimas razões: necessidades de legitimização de governos proto seculares confrontados com movimentos islamitas com poder crescente até á afirmação da pureza islâmica por parte de governos fundamentalistas. O ocidente, como os devaneios da pós-modernidade revelam, chegou ao pluralismo radical, á continua reconceptualização das suas próprias “fundações”, incorporou identidades e sensibilidades que lhe eram estranhas (desde o yoga até ao feng shui). O mundo muçulmano fechou-se sobre si proprio e continua fechado sobre si proprio, com raras excepções. Um exemplo que me parece relevante e que ilustra de forma clara o problema a que me refiro. Em Espanha traduzem-se mais livros estrangeiros num ano do que todos os livros traduzidos nos últimos 100 anos no mundo muçulmano. Isto diz-nos alguma coisa acerca da natureza de uma cultura política (estou a generalizar de forma absurda) Todavia, não podemos pensar que as culturas são entitades estáticas. São processos e, como tal, não devemos pensar que o mundo muçulmano está fatalmente condenado ao isolamento e ao essencialismo identitário.

    cumprimentos, ezequiel

  33. Ezequiel diz:

    E, claro, nós também temos os nossos fundamentalistas, Le Pens e outros movimentos de extrema direita. Mas o transcendentalismo autoritário (ou absolutista?) destes senhores e senhoras é distinto do transcendentalismo teocrático. Estruturalmente falando, eles são semelhantes (obsessão com a identidade, essencia, infalibilidade cognitiva, narrativas monolineares, concepção ahistórica do tempo, etc) Todavia, se considerarmos outros aspectos, igualmente relevantes, eles são distintos.Bem, isto já está longo e provavelmente chato…o meu gato está a pedir o almoço. Se lhe dá um ataque de mau génio estou lixado (não me apetece limpar pupu mal cheiroso de felino!) 🙂

  34. Ezequiel diz:

    desculpas pelo meu péssimo Português.

  35. Ezequiel diz:

    oops, esqueci-me de escrever isto: O enunciado que citei contempla a distinção entre o poder temporal e o poder divino. É um principio normativo que só se concretiza (como o Victor disse) muito mais tarde. É uma antecipação, por assim dizer. (todavia o conceito existe no corpus normativo cristão)

  36. Quando recorremos ao espírito, tudo o que queremos se torna possível. Ao contrário da ciência, que só é possível porque algumas coisas são impossíveis (um universo onde a possibilidade não conhece limites não é passível de ser conhecido). A ciência não determina o que é possível, pois esse campo está sempre em aberto. Mas determina a impossibilidade, logo, os “pontos cardeais” por onde o possível se move.
    No campo do espírito, por seu turno, podemos até imaginar que tudo estava já contido no “pensamento de Deus antes da criação do mundo.” Mesmo que não tomasse forma textual num dos canhenhos sagrados. Seja como for, as hipóteses que o estilo abre ao delírio interpretativo são virtualmente ilimitadas. Aí reside toda a “superioridade” da religião: não se deixa constranger pela impossibilidade. A julgar pelo comportamento da Igreja, nem sequer pelo ridículo ou pelo abjecto.

    O ocidente não chegou como diz ao “pluralismo radical,” quando muito chegou ao multipartidarismo, que é apenas o estilhaçar e o fragmentar do Uno em muitos unozinhos, em pequenos monólitos em competição uns com os outros pela mesma coisa, marcando limites diferentes no interior do mesmo campo. Todos acham que o poder é a mediação pela qual se operam mudanças positivas na sociedade.
    O pluralismo radical só pode ser vivido como acção ética, e esta ocorre no interior de qualquer contexto, não implica a “passagem” a nenhum estado de “verdadeira” vida, acção, etc. Dá-se simplesmente porque estamos aqui, uns com os outros, e é aqui que agimos. Não no passado mítico ou no futuro glorioso.

    Omitiu precisamente o mais interessante. É que eu não vejo diferença alguma entre um teocrata e um fascista. A não ser questões de pormenor: ok, Heidegger tira o Deus do trono para lá meter o Nada. Palavras. A partir do momento em que imaginamos que o ser das coisas está separado delas, a partir do momento em que aceitamos uma ontologia em que as coisas, os entes, não se situam todos ao mesmo nível, a partir do momento em que temos um ser lá em cima e entes cá em baixo… está postulada a “degradação” e a necessidade de um polícia redentor. A diferença esbate-se na fundamental identidade.

    Se todas as culturas são processos, se os princípios são vazios sem a densidade da história, e se a história é ela mesma processual, não derivando de nenhuma verdade eterna… então ficamos sem saber o que tem o discurso religioso a oferecer à inteligibilidade do mundo. Ao longo dos séculos, todo ele se construiu no pressuposto de que existe um conjunto de verdades imutáveis, e que a história não é um mero processo de composição / decomposição de corpos (físicos, sociais) sem um fim pré-determinado.

    Não escrevo em defesa do fundamentalismo islâmico. Para mim todo o fundamentalismo partilha dos mesmos erros de entendimento. A diferença é de grau e não de natureza. Se a igreja católica não se imiscui mais a fundo na vida das pessoas, é porque (ainda) não o pode fazer. Espero sinceramente que a tendência seja poder cada vez menos. Em todo o caso, já se mete o quanto baste.

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  39. Tiago Monteiro diz:

    Costumam dizer; “Não deixes para amanhã aquilo que podes fazer hoje”, mas está errado, o que se devia dizer é; “Para quê hoje, se pode ser daqui um ano”… tem a sua lógica … “Ser ou não ser? “, já dizia Shakespeare em Hamlet; neste caso poder-se-ia dizer “Fazer ou não fazer? “. O problema é que o mundo quer tudo para hoje.

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