Duas notas sobre liberalismo, capitalismo & catolicismo

I

Pretender que o liberalismo, enquanto corpus doutrinário e prática política, foi fundado por São Tomás de Aquino, é simplesmente absurdo demais para merecer refutação. Mas já a questão de saber se o liberalismo – reduzido apenas ao laissez-faire económico, claro, e amputado da tolerância religiosa e política – poderia ter nascido em terras católicas e não protestantes, justifica uma resposta: não. Mas então o capitalismo não floresce também notoriamente na Europa alpina, entre o Baden-Wurtenberg e a Baviera e o Piemonte e a Lombardia, passando pela Áustria e os cantões católicos da Suiça? Quem aceitar a tese do “Karl Marx da burguesia” e estabelecer uma ligação entre um particular credo religioso e a sucessão dos modos de produção deve saber distinguir, de um ponto de vista histórico-sociológico, entre o que explica a formação do capitalismo e o que explica o seu funcionamento. Uma vez existente, o capitalismo funciona com protestantes ou católicos, e faz pouco caso, enquanto sistema, das relações que alguém estabeleça entre o seu sucesso económico pessoal e as hipóteses de salvação da sua alma. Como escreveu Max Weber, com alguma graça: ‘O puritano queria ser trabalhador e necessitado, nós agora somos obrigados a sê-lo”. Mas o que mais impressiona nisto é a vontade de querer casar à força o catolicismo com o liberalismo económico; há setenta anos, teriam dito que o corporativismo era a doutrina económica “natural” do catolicismo, há trinta (em Portugal) talvez dissessem que Jesus Cristo tinha sido o primeiro socialista. Porque não dão a César o que é de César e deixam o catolicismo em paz – na esfera das consciências privadas, como verdadeiros liberais?

II

O inspirador destes tumultos parece ser o Sr. Friedrich August von Hayek, um autor a vários títulos interessante e que deve ser lido sem preconceitos (como, aliás, todos os autores). No entanto, e não obstante a importância que os seus cultores portugueses lhe atribuem, convirá talvez lembrar-lhes que Hayek muito dificilmente pode ser considerado um autor do mainstream liberal e que, pelo contrário, a sua notoriedade resulta em grande parte da incorporação que faz de temas do conservadorismo mais típico no quadro formal do liberalismo. A sua concepção de uma ordem social espontânea irredutível ao reformismo político e social, por exemplo, parece dificilmente compatível como uma interpretação whig da história e a ideia (que lhe serve de base) do “conhecimento tácito” da realidade social, que será, por definição, demasiado complexa para poder ser cabalmente conhecida e articuladamente descrita e analisada, sendo sem dúvida interessante (até pelo que antecipa do pós-modernismo), não é sua, mas de Polanyi. Se a isto juntarmos que a sua crítica ao constructivismo racionalista é essencialmente popperiana na sua origem, temos aqui repetida a clássica situação do autor que escreveu coisas interessantes e originais, sendo que o que era mais mais interessante não era completamente original, e o que era mais original não era muito interessante. The Road to Serfdom? Please, gimme a break…

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SEXTA | António Figueira
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7 respostas a Duas notas sobre liberalismo, capitalismo & catolicismo

  1. Seven Van diz:

    Pedro Arroja já está noutra. Agora é o aborto se Deus quiser.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Eu que estava convencido que a irredutibilidade do mundo dos númenos, não era do Polanyi mas do Kant

  3. Ezequiel diz:

    Caro António,

    O contexto histórico (totalitarismo soviético) que serve de pano de fundo, de referencia, a tudo aquilo que Hayek escreveu é mt importante para compreendermos a critica profunda e pertinente que ele elabora. A meu ver, o aspecto essencial, que é possivelmente o aspecto menos contemplado nas muitas celebrações neo liberais dos nossos dias, é o da critica epistemógica do centralismo-dirigisme.

    “A sua concepção de uma ordem social espontânea irredutível ao reformismo político e social, por exemplo, parece dificilmente compatível como uma interpretação whig da história….” Aqui discordo. A ordem social “espontanea” reforma-se a si propria, é impelida por processos enraizados nas practicas existentes (ou, melhor, emana das tradições e é, por isso, conservadora) Esta aversão Hayekiana á equivalencia conceptual entre o intervencionismo centralizado = reforma política (no sentido que defendes: que a reforma política progressiva passa inevitavelmente pelas acções de uma mega entidade, o estado) é um dos objectos da critica de Hayek (e aqui o pano de fundo é a USSR e os seus satélites Europeus). Hayek pode, de facto, ser entendido como um critico de Descartes, do fundacionalismo cognitivo e do racionalismo megalomano qu dele resulta.

    Parabéns pelo post. Muito interessante.
    cumprimentos, ezequiel

  4. António Figueira diz:

    Nuno,
    O Hayek é de facto um pós-kantiano que prossegue a investigação dos limites da razão e a leva até mais longe do que o próprio Kant, porque a sua concepção da mente, que seria governada por um conjunto de princípios impossíveis de articular, reduz drasticamente a capacidade humana de auto-conhecimento; é na descrição do modus operandi da mente humana e dos processos de aquisição e reprodução de conhecimentos que Hayek usa a figura do “conhecimento tácito”, que é originariamente de Polanyi; mas embora as suas concepções da mente e dos limites de conhecimento estejam na base da parte “operacional” do seu pensamento (é a sua teoria do conhecimento que serve de fundamento à sua crítica da razão política “constructivista”), a verdade é que se pode ler a “Road to Serfdom” sem cuidar desses delírios – da mesma maneira que, como bem dizia o Aron, se pode ser um bom comunista sem acreditar necessariamente nas congeminações do “materialismo dialéctico” do Engels e do Lenine.
    PS Aconselho-te a que faças o link da “Road to Serfdom” no post e descubras a versão em cartoons do livro, produzida e distribuída nos anos 50 pela General Motors…

  5. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,
    Obrigado pelo comentário. Sem dúvida, o interesse de Hayek na actualidade não resulta nem das suas concepções obscuras dos processos mentais, nem das suas receitas, simplificadas até à imbecilidade, de políticas de desregulação dos mercados, mas da sua epistemologia, da sua valorização do conhecimento tácito e do saber prático, de que as instituições sociais seriam veículos de transmissão, e da sua noção da ordem social como um somatório de condutas individuais com consequências não-intencionais, e da resultante incapacidade humana de a entender ou reformar a partir “de fora”. Como dizes bem, para Hayek a ordem social espontânea reforma-se a si própria, segundo processos assentes na tradição de cada sociedade – e é por isso mesmo que eu digo (e devo estar longe de ser o único, certamente) que a concepção hayekiana da evolução social deve quase tudo ao conservadorismo tradicional, sem reconhecer a importância histórica de todos os processos de transformação que obedeceram, cada um à sua maneira, a uma racionalidade “constructivista”. Dito isto, é evidente que Hayek só pode ser um anti-cartesiano: a ordem social não pode ser o produto de uma inteligência superior que a conheça e dirija tal como o sujeito racional não se pode conhecer completamente nem ser completamente governado pela razão.
    Cordialmente, AF

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  7. António Figueira diz:

    Se RAF quiser conhecer a justificação da primeira parte do meu texto, basta-lhe lê-lo até ao fim; parece-me intelectualmente pouco sério este uso de citações selectivas, mas julgo que ele se explica pela dificuldade do empreendimento (ou seja, explicar a filiação católica do liberalismo); sugiro-lhe que persevere.
    Cordialmente, AF

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